A dor da separação

 

Mais cedo, quando a caminhar saí,
Peguei-me falando comigo a sós.
Lembráva-me de quando éramos nós
E de como era doce ter-me em ti.

A cada novo passo, o que não vi
quando ainda era jovem e, de vós,
ainda tinha o desejo feroz,
enfim pude ver. Agora eis-me aqui.

Peço desculpas pelo que passou.
É só meu o dever de suportar
ter, de ti, perdido a vida e amor.

Leve contigo tudo o que teu for,
que já agora ouço o vento confortar:
“Apenas a morte nos separou”.

(Arcanjo de Oliveira)

Rosa, minha rosa

 

Não digas que é loucura ver-te, ainda,
com os olhos da alma – e enamorado.
Nem que contemplar-te assim é errado.
Porque em meus olhos continuas linda!

Dirás: “Toda beleza um dia finda.”
A tua inda está na flor da idade.
E, em meus olhos, sempre estará. Verdade,
Pergunte a eles – és a mais bem-vinda!

Não deixes que os longos anos da vida,
Te façam crer que perdeste a beleza.
E leves sempre contigo a certeza:
A rosa mais bela é a amadurecida.

(Arcanjo de Oliveira)

BELEZA

 

 

Philippe de Champaigne (1602–1674)
Still-Life with a Skull, vanitas painting.

 

Pétalas belas, pluma bem brilhante,
Brisa tu és, sublime bruma amante,
Que me bebe no abraço brutamente…

Braços abertos, brunos paraísos,
Pelas vagas dos beijos imprecisos,
Pelo bravo brasão palidamente…

Pétalas murcham, plumas caem tortas…

Braços flácidos ficam, brumas mortas…

 Rommel Werneck

Meu primeiro indriso (2009)

 

Um Anônimo – Parte 9 – Final

 

– O que está fazendo, Kai?
– Meditando – disse o Anônimo de olhos fechados – Você não acha esse cheiro repugnante?
– Acho, mas tudo bem. – falou Hasnah fechando a porta da cela atrás de si – Chegaram os últimos dois reis, de Nove-Delfine e de Damascus. O Conselho das Terras Secas vai se reunir provavelmente amanhã.
– Isso é ótimo – sorriu ainda de olhos fechados – Quer aprender a meditar?
– Claro! – sentou-se à frente dele, imitando sua posição – Devo fechar os olhos?
– Feche os olhos, vou te dizer o que fazer. Respire fundo e deixe o caos se instaurar na sua mente, deixe os pensamentos fluírem como quiserem, até os ruins.
– Acho que consegui, não é muito confortável.
– Agora observe esses pensamentos como se estivesse olhando peixes em um lago, os deixe nadar enquanto você se afasta e emerge desse lago. Você não pode mais senti-los, mas ainda pode vê-los. Pense na qualidade desses pensamentos, quais deles estão apenas poluindo sua mente? Quais deles não lhe servem para nada de bom?
– Alguns…
– Agora, elimine os pensamentos inúteis e concentre-se apenas nos úteis e bons, sinta o controle da sua mente, seu domínio absoluto sobre você mesma, senhora de seu destino.
– Isso é bom e agora? – ouviu um abrir e fechar de uma porta de ferro e virou para trás
– Agora, fique meditando até virem te buscar – falou o anônimo do lado de fora, trancando a cela – Sinto muito, mas a hora chegou. Se servir de consolo, prometo que não passará nem um dia aqui.
– Eu devia ter imaginado – levantou-se e foi até a grade da cela – Não vou guardar rancor de você, Kai, mas ficar presa numa cela não fazia parte dos meus planos para hoje.
– Obrigado por estar aqui. Se eu nunca voltar a te ver, quero que saiba que isso poderia ter dado certo em outra vida.
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OS LÁBIOS DO VENENO

 Füssli, Johann Heinrich Romeo am Totenbett der Julia (1809)

“O churl! drunk all, and left no friendly drop to help me after?
I willkiss thy lips.
Haply some poison yet doth hang on them to make me die with a restorative. [Kisses him.]”

The Tragedy of  Romeo and Juliet. Shakespeare. Act V. Scene III

 

Jazia embalsamado o bom Romeu
Guardando nos seus lábios um veneno
Que no sabor fortíssimo e sereno
Foi-lhe tirado o mundo que era seu.

 

A dama Capuleto, em amor pleno,
Despertando, uma morte percebeu.
Entonces, ao punhal vil recorreu
Eternizando a dor no sangue ameno.

 

Mas, antes, contemplou bem Capuleto
O seu virgem mancebo lá deitado
Sobre o tão tenebroso e gris sepulcro.

 

Àquele resplandente rapaz pulcro,
Tomou dos lábios lúgubres do amado
O beijo como lânguido amuleto!

Além do Fim – Capítulo X

Capítulo X: Encontro

– Está mais calmo por aqui.

– Chegamos mais tarde hoje. – Disse Lufus.

Ele e Jasira atravessaram o portal e agora estavam na terra dos humanos. Usaram o mesmo portal que entraram na última vez e saíram no mesmo beco.

– Espero que esteja fácil encontrar pessoas. – Jasira se dirigia ao fim do beco.

– Podemos invadir alguma casa. – Sugere Lufus.

– Porque eu não pensei nisso?

Passavam alguns carros pela rua em frente, não havia ninguém andando.

– Vou voar e procurar alguém, ou parar um carro. – Jasira deu as costas para ele.

– Logo alguém aparece.

Ela levantou vôo e saiu.Continue reading →

Tragédia da Comédia: Capitulo 1 – The Memory Remains

Esse é o meio-começo da historia de Adna, que sendo bem honesta, é uma pessoa totalmente azarada nos relacionamentos.

 

Oque agente consegue ver do fundo do buraco? Você poderia olhar a luz lá em cima, buscar uma saída…ou poderia apreciar o buraco e aprender mais sobre fundações.Não se trata de permanecer na situação , mas extrair o máximo dela para não ter que voltar para lá mais tarde, e na próxima num buraco mais fundo. E foi isso que Adna tentou pensar. Foi assim que agiu com Basílio, uma “coisa” que apareceu um dia ai e depois de muito tempo voltou das entranhas das madrugadas das redes sociais.

De inicio era mais um pamonha de milho verde ai, com a mesma conversa doce de sempre. Oque ele tem demais? Era amigo de um ex namorado dela. Tinha péssimos antecedentes que o ex namorado sempre contava..Mas falava tudo que ela gostava de ouvir. Então,porquê não tentar?

Eis que uma semana depois do inicio do contato ,Basílio volta com a namorada.

“Bom, isso é sinal de que não tem nada” pensava Adna. Mas Basílio continuava a conversar, a abrir o coração, e vocês sabem que por mais firme que uma moça seja, ela vai ter um momento de “mulherzinha” frágil,né? E ai a merda está feita.

Adna pensava nele o dia inteiro, ficava lembrando das coisas que ele falava. Além disso, Basílio lembrava  ex-namorado dela, e isso a deixava bem feliz, porque tinha encontrado alguém com as qualidades que ela apreciava sem o defeito do ex, pelo qual ela teve que terminar o namoro..mas isso eu conto outro dia.

Enfim, a coisa entre eles estava cada vez mais linda, mais fofa, mais cheia de “meu amor” e “Minha coisa fofa” “pensei em você o dia todo”. E a namorada dele continuava lá,cada vez menos votada, indo para as paradas da madrugada no radinho dos sentimentos dele.Era a Adna nas paradas de sucesso. Ele até comentava de terminar com a namorada para ficar com Anda. Lindo,né? Mas agente sabe que isso não existe.

Adna percebia que não importasse o quanto ele falasse, continuava com a namorada dele. E veja bem, não estava vantajoso para Adna: ela ouvia as reclamações, a “outra” ficava com ele; a outra brigava com ele, mas não era a Anda q ele ia buscar no trabalho tarde da noite. Oque fazer? Fácil! Basta partir os sentimentozinhos dele com um “Dirty Boxing” escrito. Do jeito que começa, do jeito que termina. E no final das contas, quem ficaria com o cara de inclinações para a bigamia não seria ela.

É, mais e quem vai ficar falando coisas doces para Adna agora? Ai meu Deus! Quem poderá nos salvar? E como isso não é novela, não apareceu um galã na participação especial para salva-la. E qualquer musica daquelas que ele mandava para ela, quando tocadas seja lá onde, já faziam Anda desabar um pouquinho para o buraco. Mas o buraco não era tão ruim assim, tinha até internet lá no fundo.

Um belo dia ela cansou disso, saiu andando por ai …e foi para o capitulo 2 dessa bagunça.

Margareth, a prostituta

Margareth, a prostituta

 

Caro leitor, você está convidado a acompanhar a vida de um jovem sonhador, como você, que formula seus sonhos, estuda e trabalha almejando um futuro melhor, porém, na saga de sua vida, encontra uma mulher e passa a amá-la como se fosse a pessoa mais importante de sua vida. Carmélio viverá entre a lucidez e a insanidade buscando caminhos para conquistar o maior objeto de desejo de sua vida, Margareth.

Margareth, a prostituta

Carmélio Lontra era um rapaz determinado e inteligente, após o término do ensino médio, imediatamente passou numa universidade conceituada na capital paulista e iniciou seus estudos em engenharia mecânica. Após um ano difícil, conciliando trabalhos e estudos numa gráfica, começou a estudar junto com seu amigo de infância, Geraldo Picardi.

O pai, Joaquim Lontra, um importante político da cidade paulistana, ex-vereador, conhecido por ajudar os pobres, era o atual secretário do turismo e tinha um apreço imenso por seu filho. Lontra pai fazia de tudo para que as notícias do seu envolvimento com prostituição e os escândalos de corrupção do governo envolvendo seu nome não chegassem até o filho.

Lontra filho tinha um sonho, era um amante da literatura lusófona, em meio ao caos na educação nacional, que obrigava as crianças a lerem sem entender o Auto da Barca do Inferno, Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas, parecia ser o único apreciador da literatura entre seus amigos. Não entendia o porquê de ter começado seus estudos em algo a qual não se identificava. Na verdade, sabia, e entendia muito bem, seu pai o obrigou, mesmo sabendo que seu filho preferia ter cursado letras. “Letras não dá dinheiro, seu idiota! Cursar Letras é coisa de vagabundo, de trouxa! Quer escrever livros? Ou quer ser professorzinho? Professor não ganha dinheiro… Além de a maioria ser burra e despreparada. Não merecem nem o que comem.” Foram as palavras que ouvira de seu pai no dia da matrícula.

O pai detestava o trabalho do filho, queria bancar-lhe tudo, apesar do forte senso de independência de Carmélio, que apesar de ter aceitado a sugestão do curso, por considerar que havia certa veracidade nas palavras do pai, fazia questão de pagar metade da mensalidade com seu próprio esforço, pensava que daria mais valor se assim o fizesse.

Na gráfica em que trabalhava, surrupiava alguns livros ocasionalmente e aquilo alimentou nele um novo sonho, queria abrir uma editora e a cada dia se distanciava ainda mais do propósito da engenharia mecânica. O desânimo tomava-lhe conta.

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Os comandados

Os Comandados

Um professor de história tem a difícil missão de dar jeito em três delinqüentes que causavam terror num colégio interiorano. Ele propõe o uso do esporte, mas, como se comportará três delinqüentes juvenis na presença de alunos normais?

O descabelado diretor João Estrabulgo não mais agüentava a situação. Não dormia mais e estava prestes a entregar o cargo mais importante do colégio Laura Pina. O motivo: um grupo de delinqüentes.

Durante as aulas no verão, o mais sofrido período fora vivenciado e dois professores pediram demissão, a polícia esteve presente no colégio milhares de vezes e a situação parecia complicar-se mais e mais a cada dia.

Jeferson Pino, Carlos Bucho e Giovane Diabo iam à escola apenas para comer, usar drogas, vandalizar e bater nos colegas. A escola estava completamente pichada. Não havia muito que se fazer, suspensões e advertências não eram suficientes, pois naquele fim de mundo da cidade de Pirapora de Serafim até a autoridade era limitada. Os professores os temiam, e todos estavam coagidos, como se estivessem reféns.

Naquela manhã de fevereiro, num dia bem chuvoso, estava reunida sob sigilo numa sala escondida e trancada a cadeado um grupo seleto: o diretor, todos os professores, o delegado da cidade, diversos pais de alunos e um representante do sindicato de professores.

— João! Você é um frouxo, a culpa disso é toda sua! Você é um bundão! — Gritou Ricardo Cornim, o sindicato.

— Não é assim Ricardo, você não conhece os moleques, não há na terra alguém que consiga domá-los, parecem terem saído da orla do inferno. — Rebateu Marco Midus, professor de geografia.

Todos na sala estavam cabisbaixos, o diretor sofrendo da cabeça, beirando a loucura, os professores ameaçando abandonar o cargo e até o caseiro ameaçando morar debaixo da ponte para não ver a cara do “trio do inferno”, como foram chamados.

Estavam a ponto de decidir pelo pior quando o professor de história, Genuíno da Silva propôs uma solução:

— Vou propor uma solução.

— Eles são crianças, não podemos matá-los, eles têm 14 anos! — Rebateu uma das mães, em desespero.

— Não vou matá-los! Acalme-se! Vamos montar uma equipe de futebol de salão e assim integrá-los, esses meninos precisam gastar suas energias. Como o professor de educação física nos abandonou após seu colapso nervoso, eu assumirei a equipe.

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O menino que comia areia

Duque Caminha

O detetive mirim Duque Caminha é colocado à prova para descobrir o porquê de seu amigo voltar todos os dias no mesmo horário para casa com a boca cheia de areia. Resolveu segui-lo e com sua lupa pretende descobrir o infortúnio que não o deixa mais dormir.

Duque Caminha vangloriava-se! Era considerado “detetive” por seus amiguinhos de infância, tinha apenas 13 anos e orgulhava-se de ter solucionado o caso do rapto das pantufas de estimação de sua irmã, que fora encontrada nos pés de Marculina, a ex-faxineira.

Passara vários anos de sua vida contemplando, ao dormir, as histórias de Hercule Poirot e Sherlock Holmes, contadas por seu pai, que narrava lentamente tentando adormecer seu filho, que atento, não desgrudava da narrativa intensa dos casos. Seu pai lhe dava atenção para tentar compensar o nome de cachorro que dera ao filho.

Duque cresceu e deixou-se inspirar pelos detetives da ficção para solucionar casos bem reais, ele sempre era solicitado por seus dois irmãos mais novos — uma menina de sete anos, e um garoto de cinco — para encontrar pertences perdidos pela casa. Porém, num dia, um caso especificamente o intrigou, seu amigo Carlotas de nove anos apareceu com a boca entupida de areia. Não comentava o fato.

Nos últimos dias da semana o caso se repetia: seu amigo todos os dias chegava em casa com a boca e nariz sujos de areia e olhos arregalados. Duque o interrogou:

— Carlotas, por que sua boca está suja de areia?

— Não te interessa.

— Pensei que fôssemos amigos.

— Pensou.

— Vamos ser amiguinhos de novo?

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Dilastácia contra o Império do Pó – Parte I

 

Dilastácia está de volta, com novos amigos, novas aventuras e sua obsessão por drogas. A história agora se passa simultaneamente na capital paulista com Dilastácia ajudando a polícia a capturar a mais poderosa traficante de todos os tempos, Dulcetéia e também em Agrolândia, com Cadulco, Lorenstência e Adrinete tentando resolver problemas numa floresta com o objetivo de voltar a São Paulo e resgatar sua amiga famigerada.


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NO FIM DA NOITE

 

 

Fonte da imagem

NO FIM DA NOITE

                                                 Good night!

No fim da noite, escorre a maquiagem,
O perfume desliza e perde o brilho,
O príncipe revela-se selvagem,
E à casa volta o pródigo e bom filho.

O meu castelo volta a ser miragem,
Transforma-se a madrinha em maltrapilho,
Desaparece a minha carruagem
E resta escura a estrada que bem trilho.

No fim da noite, a Lua desfalece…
A vida vai perdendo a florescência…
A morte vai virando mulher bela…

E parte tão veloz a Cinderela,
Embalsamada em tanta consciência,
Que nem mesmo os sapatos ela esquece!

Rommel  Werneck

www.poesiaretro.blogspot.com
A Poesia de Sempre para Sempre

 

 

 

O mendigo, o sonho e a tragédia

Mendigo

Tôni era calmo, um doente. Quase feliz era, apesar do fato. O complemento que precisava estava muito além de seu alcance, na pútrida vila onde morava, o Jardim São Paulo.

— Haha! Seu cagão! — Gritava um dos meninos que denegriam o pobre.

— Sou miserável, mas, sou honrado, como o pão que o diabo amassou porque o prefeito se esqueceu de nosso bairro. Não importa a lama, a fossa, tenho minha casa sob o teto que Deus proferiu, a “ponte dos milagres”.

Tôni passou a morar nas ruas após um “acidente financeiro”, morava ora debaixo de ponte, ora dentro de latas de lixo, era uma vida indígna, não sabia o que havia feito para merecer tal infortúnio.

Mal sabia Tôni que o raciocínio popular é errôneo, não se pode obter algo sem mérito. Não se pode.

Tôni resolveu abraçar o horizonte, saiu de sua vila, rumo à avenida, começou a atravessar a rua fora da faixa de pedestres, quando não viu e foi estraçalhado por uma carreta, uma Scania Azul, parte de seus fragmentos voaram contra as vestes negras de um padre que caminhava na calçada.

— Santo Deus! — Gritou o padre. — O sonho acabou.

Dilastácia – Parte III

9, 21, 23 de janeiro, 7 de fevereiro, 4, 12, 17 de março, 4 de abril de 2010

Depois de tanto tempo sem postar nada da história dos goianos mais queridos do Brasil, estou cá, eu, para publicar mais dois capítulos da história, lançarei de forma curta a não tornar a leitura cansativa. Criei duas páginas semelhantes à páginas de revista para relembrar os capítulos anteriores, ou para você que não leu, e quer “pegar o bonde andando” e não ficar perdido na história.Continue reading →

Lula de mel

Lula de mel

Flávia Balbucio era uma empresária de sucesso, prestes a se casar, estava no apogeu de sua vida, comandava uma companhia bem sucedida que importava bacalhau do Porto, na Europa, estava feliz, e por suas mãos cheirarem sempre à bacalhau deixava louco o pobre Leonardo de Pilão, trabalhador, pescador, tinha uma cicatriz na testa, o que lhe rendera o apelido de “Réri Pote”. Estava se casando apenas por um motivo, Flávia tinha uma tara quase incontrolável por “idiotas ao relento”, enrustidos, ou qualquer similar, e foi assim que achou Leonardo, ao relento, na calada da noite, numa praia em Santos. “Conquistou” Flávia quase sem falar, voltando de uma pescaria frustrada.

Era uma bela noite, muitos enfeites, muitos convidados distintos, era o casamento de Flávia,  e Leonardo, a empresária forte e imponente e o pescador, baixo, manco e caolho, ele cada vez mais vergonhoso por estar numa situação fora de seu controle, onde ele não tinha tirado um centavo do bolso, nem precisaria, afinal, aquele casamento era um mero capricho da herdeira dos Balbucio que solicitou que sua festa e cerimônia fossem na praia de Santos, banhados pelo luar majestoso daquele benigno dia. Para ela.

— Que chique ela, né benhê? — Comentava uma das grã-finas à mesa.

— Não sei onde esse mulherão arrumou aquele maltrapilho… — Comentava o esposo.

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Dilastácia – Parte II

Rubiano Hermoso, São Paulo – SP, 29 de dezembro de 2009

História dedicada aos goianos Dilayla, Lorenna, Juliany e Bruno.

Cadulco, em Dilastácia
Cadulco, em Dilastácia

Dilastácia

Parte II

Capítulo 4 – Conhecendo os novos amigos (A confusão no restaurante)

— Então, não a está incomodando?

— Na verdade estava, mas, não estou mais, ninguém tem culpa dos meus problemas e só vim até Goiás para espairecer, é um retiro para apaziguar meus ânimos. Não posso caçar confusão aqui, perdoem-me.

— Está tudo bem, Educa, já está calminho depois do maracujá?Continue reading →

Dilastácia

Dilastácia

Parte I

Capítulo 1 – União pelo contraste

Dilastácia era uma garota interiorana muito infeliz, morava em Anápolis no Estado de Goiás, num bairro onde a zona rural era evidente, estudava na “cidade”, onde saia de madrugada em cima de um burro enquanto comia maracujás colhidos junto ao pé na janela de seu quarto.

Seu maior sonho era se casar com um “príncipe” encantado, vivia em função disso, imaginava um goiano semi-cabeçudo vindo num cavalo branco buscando-a na escola, na frente de todos… Sabia que era praticamente impossível, em sua terra só havia burros ou jegues marrons, branco só cabrito, e ainda encardido, mas, ela se contentaria, desde que o “príncipe” não tivesse a cabeça muito pequena e tivesse pelo menos 18 dentes na boca. No fundo, era otimista.

Era amiga inseparável da menina mais bela do colégio, Lorenstência, apelidada apenas de “Lo“. Seu encanto era impossível de não notar, o reflexo de sua beleza era visível a uma distância imensa, o exalar de seu perfume estremecia até o mais seguro dos “pegadores” cheios de hormônios à flor da pele em seu colégio.

— A cobra é um vampiro que entrou pelo cano… — Dizia Dilastácia… Sozinha aos murmúrios encostada numa parede suja do colégio… Abordada por Lorenstência, que em seguida notou seu desânimo.

— Ânimo, uai! Que houve, Dila?

— Sei não… uai, sô! Estou desanimadinha… uai!

— Mas, aconteceu alguma coisa, goiabinha de goiabeira?

— Estou carente, estou pensando, estou sonhando…

Lorenstência sabia que a sua amiga não estava bem, não estava raivosa como de costume, andava pensativa há vários dias…

Dilastácia virou-se, lhe dando às costas. Lorenstência a entendia, sabia o que aquilo significava, sua confidente precisava de um complemento importante, estava na hora de arrumar um homem, um cabra macho, um garanhão insaciável, pensou Lorenstência.

O sinal tocava, em seu barulho ensurdecedor, todos voltavam às salas. Dilastácia e Lorenstência sentavam lado-a-lado, passavam cola, trocavam bilhetinhos, falavam de meninos semi-cabeçudos, trocavam dicas de xampus e cremes, compartilhavam tudo, menos se surgisse um garoto bonitinho com cabeça mediana, aquilo era pessoal. Lorenstência poderia estar com quem quisesse, ela divina, era “absoluta”, enquanto Dilastácia nunca soube o que era um beijo, mas, imaginava como nas cenas de novela e dormia chorando, pois em sua concepção, morreria com uma veia estourada no pescoço e nunca teria a chance de namorar um goianinho com pelo menos alguns dentes na boca.

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Dilastácia

Rubiano Hermoso, São Paulo – SP, 7, 25, 26 de outubro, 16 de novembro, 23, 24 de dezembro de 2009

Dilastácia
Dilastácia

Dilastácia

Parte I

Capítulo 1 – União pelo contraste

Dilastácia era uma garota interiorana muito infeliz, morava em Anápolis no Estado de Goiás, num bairro onde a zona rural era evidente, estudava na “cidade”, onde saia de madrugada em cima de um burro enquanto comia maracujás colhidos junto ao pé na janela de seu quarto.

Seu maior sonho era se casar com um “príncipe” encantado, vivia em função disso, imaginava um goiano semi-cabeçudo vindo num cavalo branco buscando-a na escola, na frente de todos… Sabia que era praticamente impossível, em sua terra só havia burros ou jegues marrons, branco só cabrito, e ainda encardido, mas, ela se contentaria, desde que o “príncipe” não tivesse a cabeça muito pequena e tivesse pelo menos 18 dentes na boca. No fundo, era otimista.Continue reading →

Apresentando o novo conto: “Dilastácia”

Rubiano Hermoso | 26 de outubro de 2009 | São Paulo – SP

Depois de Dulcetéia, A Banda  Godofredo, O Mistério do Penedo e O Perjúrio um conto novo será postado aqui no blog da Casa do Maker: “Dilastácia“.

A história de Dilastácia se baseia em paródia com a vida real, acrescida a vários aspectos fictícios desenvolvidos posteriormente, digamos apenas que a essência da história se baseia em fatos reais e possibilidades ilusórias foram criadas em interações interestaduais através da internet, sempre num tom divertido.

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O Mistério do Penedo

Rubiano Hermoso, São Paulo, SP, 30 de setembro, 1, 5, 6, 7 e 8 de outubro de 2009

Aos infiéis pobres amigos, a piedade
Aproveitem e contemplem as novas fontes
E adquiram de verdade a lealdade

Qualquer semelhança é mero deboche ou coincidência.

“O Mistério do Penedo”


Capítulo 1 – Reencontrando velhos amigos

Era uma tarde ensolarada, amigos vindos de várias regiões do Brasil se alojavam no litoral do Rio Grande do Norte para um encontro após longo tempo. Há cinco anos não se viam, desde a formatura do ensino médio feita em Osasco no Estado de São Paulo todos partiram com suas famílias para regiões distintas, após terem comemorado sua formatura num salão na cidade onde houve um grave incidente culminando com a morte dos pais de um dos alunos. Estavam ali para a realização do casamento de Latita com Pimpaldo, seu patrão, escravo, amor, vizinho, amante, comediante, fonte de renda, melhor amigo.Continue reading →

O Perjúrio – Parte II

Rubiano Hermoso, São Paulo – SP, 3 de outubro de 2009

“À Dilayla”

Os fatos a seguir são meramente ficcionais tomando emprestado alguns nomes e cenários que por vez não coincidem de fato com a realidade.

Fomos em direção — através das escadas — a um dos quartos à esquerda, quando novamente com uma chave abriu uma nova porta, me pedindo para segurar a lanterna.

Abria-se a porta. — É isso que você tanto quer ver, Miguel. — Dizia enquanto eu derrubava a lanterna boquiaberto…

(“Diário de Romeu Cupertino”, Página) 4

Estava abismado, à minha frente uma garota — uma linda garota — sentava numa cadeira de madeira, amordaçada e completamente imobilizada por cordas. Parecia surrada, estava muito abatida, provavelmente por relutar tanto em tentar sua liberdade.Continue reading →

O perjúrio – Parte I

Rubiano Hermoso, São Paulo, SP, 24, 27, 28 e 29 de setembro de 2009

Os fatos a seguir são meramente ficcionais tomando emprestado alguns nomes e cenários que por vez não coincidem de fato com a realidade.

— Achei, pessoal! É o diário do homem! — Dizia Afonso,  detetive particular, enquanto retirava um diário empoeirado e sujo do altar de uma capela abandonada. — Creio que aqui obteremos respostas importantes para solucionarmos o caso, para que a dona possa descansar em paz, aqui diz: “endereçado ao povo”, veremos se isto nos diz algo a respeito. — Tomara mesmo! — Disse um dos presentes. — Afonso, creio que chegamos a uma etapa importante da investigação, abra na primeira página e comece a ler para nós, em voz alta.Continue reading →

Dulcetéia (Parte 3 de 3)

Rubiano Hermoso, São Paulo, 19, 21, 23 e 24 de setembro de 2009

Dulcetéia

Parte 3 de 3

“O Grand Finale”

Leia o episódio 1 de 3 e 2 de 3.

Nos episódios anteriores: Dulcetéia foge de sua terra natal, o sertão da Bahia, para encontrar-se com seu amado idealizado, Eribélton de Cherimpimpim, muitas surpresas aconteceram no caminho, conhece no ônibus um traficante paulista, Tanero, com quem desenvolve uma forte amizade em apenas poucas horas, na rodoviária, para sua surpresa encontra seu amor da internet,  ambos haviam se enganado quanto ao aspecto físico de cada um, o que acaba  gerando um certo desconforto. Eribélton e Tanero se desentendem, este, saca uma arma e começa a atirar contra o casal que foge num táxi, com Eribélton ao volante.

Eribélton numa coragem que não lhe pertencia dominou o táxi enquanto tiros acertavam o vidro traseiro, a velocidade só aumentava por este não saber dirigir. — Meu tênis prendeu no acelerador, droga! — Gritava Eribélton, enquanto o desespero parecia estampado nos olhos de ambos. — Satanáááááás — Gritava Dulcetéia! — Por que está invocando o diabo? — Indagou Eribélton. — Sei lá, aprendi com o motorista do ônibus. — Respondeu, enquanto um dos tiros varava o vidro traseiro e frontal espirrando sangue por toda a parte que restava intacta do carro.

*

A partir de agora você conhecerá o desfecho, a conclusão, o grand finale de toda essa confusão evolvendo um triângulo bizarro de pessoas distintas envolvidas num caso de amizade, repúdio, afeição, loucura, paranóia, paixão e bizarrice. Dulcetéia ou Eribélton terão morrido com os disparos contra o veículo? Tanero será preso? Eribélton conseguirá tirar o atraso e contará vantagem a seus amigos? Dulcetéia voltará à Bahia ou ficará em São Paulo como os milhares de migrantes conterrâneos? Dulcetéia reencontrará seus pais? Os pais de Eribélton avisarão à polícia de seu sumiço? Tudo isso você confere nas próximas linhas.Continue reading →

Dulcetéia (Parte 2 de 3)

Rubiano Hermoso, São Paulo, SP, 13, 14 e 15 de setembro de 2009

Dulcetéia

Parte 2 de 3

No episódio anterior: Dulcetéia de Pimpolho Pilão apaixonou-se através da internet por Eribélton de Cherimpimpim e contra tudo e todos resolveu pegar o cofre de porco de sua mãe e partir do interior da Bahia para encontrar “ursinho quente”, o tocador de violão, seu amor platônico na periferia de São Paulo.

Dulcetéia mostra-se encatanda ao olhar para uma grande placa verde a frente que os felicita por estarem entrando em território paulista, a alegria, o desespero e várias emoções se misturavam, quando de repente o ônibus para… Dulcetéia se desespera imaginando o que havia motivado o motorista a tal ato, não mais sabia o que fazer, enquanto o senhor que guiava se dirige aos presentes e prepara-se para dizer-lhes algumas palavras.

Leia o episódio anterior: Parte 1 de 3

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Dulcetéia

Dulcetéia

Capítulo I

Dulcetéia de Pimpolho Pilão era uma típica menina do nordeste brasileiro, tinha ambições baseadas em imitar a arte, mais exatamente os dramalhões das artes cênicas, queria mesmo era se apaixonar pelo mocinho engomadinho de São Paulo, e morar num apê no Morumbi enquanto o transporte buscava os filhos na escola, era a perspectiva que tinha de seu futuro, um sonho distante, como na maioria das meninas de sua idade.

Donzela, 15 anos, estava feliz, podia sonhar bastante, pois sua mãe — que portara um nome menos aprazível que o seu, Alfarrinhas — havia ganho um computador pelas “Casas Paulista“. Uma humilde família baiana: água de coco, pés no chão, areia, regatas e pele queimada de sol, um primo da vizinha conhecia algo de computadores e ajudou-os a configurar seu novo equipamento. Um espanto para a pobre família. — Olhem isso! o peixinho se mexeu! — Dulcetéia eufórica, grita após a instalação do equipamento, se espantava com a “proteção de tela”.

Um mês se passou e o que era encanto tornou-se um certo comodismo, água de coco voltara a reinar junto com a rede, e seu pai, um pedreiro não muito bem sucedido, Raimufundos, mal ligava para a “tevê inútil”, como costumava chamar o aparelho. Bem o oposto de Dulcetéia, que através do “orcuti.com“, um espaço destinado à interação social, havia conhecido um jovem rapaz, chamado Eribélton de Cherimpimpim, não sabia se este era seu nome de fato, ou se era um apelido, mas, gostara, e encantava-se pelas fotos do jovem tocando violão em seu álbum virtual de fotografias, podia escutar o som de Roberto Jarros, saindo das imagens estáticas, se deliciava e a paixão, e o tesão por ele aumentava.

Os dois se correspondiam incessantemente, e a cada dia encurtavam ainda mais a distância entre o interior da Bahia e a periferia da capital paulista, até que um dia a loucura tornara-se fato, Dulcetéia com os hormônios flamejando, foge de casa, com a cara, a coragem e o cofre de porco de sua mãe, para encontrar o galã de sua fantasia, Eribélton, ou “ursinho quente”, como ela o chamava. Este, por sua vez, não sabia da surpresa que o esperava, mas, havia lhe entregado dados como endereço e informações suficientes como uma esperança de que um dia se encontrassem, mesmo sabendo que aquela paixão súbita poderia resultar em algo nada aprazível para ambos. Eribélton desesperou-se por sua amada não conectar-se à internet aquela noite.

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