O ladrão de canetas – Parte X

A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas. (Miguel de Cervantes)

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento. (Machado de Assis)

Capítulo 17 – A vida e os imbrólios de Chatália

Chatália nasceu na periferia da cidade, no bairro de Jardim Brocólia, filha de um abestado caiçara com uma bóia fria ex-guerrilheira fanática dos anos 80. Seus pais não a quiseram no momento e a tentaram abortar várias vezes. Já tinham como filha Evangelina, a mais velha e até então, única filha, nascida no litoral.

A garota tinha quatro anos mas já persuadia a mãe a abortar, queria ser filha única.

— Aborta mamãe. Seu corpo, suas regras. — dizia a pequena.

Chatália nasceu aparentemente normal, no entanto seria mal tratada nos primeiros anos de vida, quando sua irmã tentou lhe cortar o pescoço com linha de cerol. Os conflitos entre as duas eram intensos. Chatália foi enviada a morar com a avó, Dona Choréia que tinha dotes amistosos e serenos. A vida com a avó, a sete km de casa teve uma influência absolutamente impactante na vida da pequena rapariga.

Chatália foi bem educada, logo na pré-puberdade fazia cursos de inglês, espanhol, francês, informática, além do ensino médio num caro colégio no Jardim das Palmeiras. Tinha um gosto especial pela filosofia sendo fã incondicional de Maquiável, Nietzsche e Bertrand Russel. Participava das discussões filosóficas nos centros acadêmicos como revelação proeminente na área de humanas. Freqüentava a universidade como convidada logo aos doze anos.

Passou a ter amizade com grupos rebeldes como os Pink Blocks, um grupo que se vestia de rosa para depredar patrimônio público e privado e dos comunistas do UUU (União Única Universal), além da Ação Redentora, uma ala social jovem da igreja. Chatália passou a ser mentora intelectual desses grupos.

Descrita como uma garota altamente manipuladora, era além de venerada por seus seguidores, detestada pela maioria das pessoas que freqüentava a universidade, a escola e a igreja. Quando notava perder o controle e a liderança usava táticas controversas para angariar apoio como o uso de decotes generosos e danças sensuais nas festas de fraternidade e nas confraternizações da UUU.

Notando que sua personalidade causava fascínio fundou uma seita que se reunia na extinta sala de vídeo do colégio em que estudava que servia como depósito de livros velhos. A seita tinha inicialmente sete membros, porém, com o aumento da popularidade dela seus membros começaram a crescer exponencialmente, tendo em seu auge 37 integrantes.

Seu grupo, conhecido como “A Base”, se concentrava em táticas de dissimulação, mentiras e interpretação. Chatália defendia que, “para fazer o bem, é necessário praticar o mal por uma justa causa justificando o fim, que seria o bem”, como descrito no parágrafo número um do “Manifesto baseado”.

Juntos, “A Base” derrubou quatro professores e um diretor, reformou as finanças da escola e influenciou a queda do reitor da universidade. O grupo perdeu influencia quando Chatália, ameaçada de ser morta e expulsa, mudou-se para o colégio Eunuco Eutanásio onde encontrou Érico e sua própria irmã, a qual ignorava.

Sabendo de seu comportamento marginal, não restou a ela apreciar outra face dos acontecimentos, outra máscara do protagonismo: a discrição, o anonimato. Chatália deixaria de ser o centro das atenções para se tornar uma discreta observadora influenciando os acontecimentos apenas quando lhe convir. A prudência havia sido o que aprendera com os disformes acontecidos daqueles anos passados quando quase levou um prego no olho por destruir uma família no seio da comunidade onde morava.

O episódio que lhe abrira os olhos foi quando ao terminar um relacionamento secreto com um pastor de uma igreja ao sul da cidade, que mantinha por internet, resolveu viajar ao sul das longínquas terras do norte onde um primo, professor Falumba era conhecido como Rasga-xana, mesmo sendo casado. A fama varava por todas as cidades circunvizinhas e Chatália resolveu provar o sabor do pecado. Falumba, apesar da fama, tentava ser discreto, mas, Chatália o expôs de vez, apenas para provar a si mesmo e a todos que poderia fazê-lo e para aproveitar se alimentando da desgraça alheia.

Viajou 27 horas apenas para fazer frente entre às demais garotas urbanas e resolveu passar uma tarde no sítio do tal primo. Passaram o dia conhecendo-se profundamente enquanto as roupas ficavam na margem do lago, cada peça em uma parte. Debaixo de uma macieira o amendoim foi colocado no buraco do amendoim, coisa que a mulher do professor nunca havia permitido.  Ela percebeu quando uma menina se espantou com a cena e colocou a mão na boca e saindo correndo para contar a todos que chegaram surpreendendo a toupeira cavocando o terreno. Entre elas, a esposa. Uma lágrima caiu, Chatália sorriu.

A cidade tinha costumes conservadores e Chatália foi detida por populares, com um olhar diabólico seguiu escoltada até um celeiro bem grande de propriedade de um influente empresário da região naquela esquecida comunidade rural. Chatália foi açoitada com inúmeras chibatadas enquanto dava pequenos gemidos ao sentir suas costas rasgando e mantendo um olhar diabólico parcialmente escondido pelo suor que escorria de seu rosto. Ela gostava.