O Ladrão de Canetas – Parte VIII

Capítulo 14 – Reflexões enquanto pessoa e o pavio da sobriedade

Érico, cabisbaixo, atentou contra a serenidade outrora demonstrada a Chatália e abandonou-a ao chão gélido e úmido rumando para fora do galpão lentamente guiando-se pela luz de alguns buracos na parte superior do galpão, enquanto a sonolenta dormia como uma defunta no sono dos justos. Érico precisava de ar, precisa de luz, precisava pensar.

Nao poderia ser verdade que sua amada estaria copulando com um afro-descendente de família zulu oriunda da Guiné-Bissau. Era inconcebível, só poderia estar fazendo para provocar, pensou.

Nem mesmo sabia se o rapaz era mesmo zulu, mas, a sensação de traição o fazia pensar milhares de coisas. E por que Chatália havia contado? Queria feri-lo? Sua cabeça era apenas indagações.

Resolveu caminhar pelas ruas próximas ao galpão quando notou um pequeno guri de aparentes quatro anos tentando vender-lhe um baseado.

— Moço, compra essa porra? É pra ajudar minha família.

Érico surpreendeu-se.

— Moleque, o segredo do comércio é fazer o comprador sentir vantagem no negócio. Que está comprando, nunca que você está vendendo…

— Mas tio, minha mãe é puta, meu pai, traficante.

Olha garoto, eu quero que sua família se foda. Eu só estou interessado nos meus objetivos, assim como você nos seus. Sua mãe vai morrer e seu pai também e eu quero que se foda. Não ligo. Quanto custa essa merda?

— Custa seis reais, senhor.

_ Bagulho caro da porra, seu viado. Pelo menos não tem impostos, se não, seria 12. Governo de merda… E você deveria estar na escola, seu filho da puta.

— Eu já como buceta, tio.

— Que porra de buceta, moleque. Você é um neném ainda, uma criança. Usa fralda ainda, seu merda. Você tem nome?

— Meu nome é Silas.

— Silas Cou, só se for. Seu merda, seu moleque fodido. Para de vender droga e vai pra igreja.

Érico encerrou o assunto com o garoto e acendeu o baseado. Tinha ele suas implicações com o Estado, depois de sair da cadeia e comprar maconha no tráfico e fumar aquele baseado o fez pensar sobre mercado, droga e política e chegou a uma conclusão: “legalize já”.

A maconha fez efeito bem rápido. Érico começou a viajar e sonhar… Em seus sonhos mirabolantes via Chatália lhe prestando uma sucção peniana enquanto Evangelina de cabeça para baixo balançava numa macieira completamente nua.

Caiu num muro baixo invadindo um terreno baldio e começava a fumar ainda mais, caído sobre folhas de árvore e fezes de cães, gatos e bêbados decadentes.

Começou a gritar na rua.

— Quando crescer quero ser filho da puta! Quando crescer quero ser deputado, carregar uma estrela no peito e foder todos vocês, macacos de circo. — Gritava em frente as casas mais luxuosas da rua.

Foi silenciado por um banho de fezes atiradas de um balde num caminhão de adubo encostado ao lado da mureta.

— Cala a boca, seu maconheiro do caralho! Filho da puta! Estou tentando dormir para trabalhar e sustentar uma família de parasitas vagabundos que ficam coçando o olho do saco o dia todo e uma mulher vagabunda, uma puta, uma piranha, que usa o dinheiro da pensão para comprar saia curta e sapatos!

Érico apenas retrucou antes de cair desmaiado: “foda-se”.

E sucedeu que naquela noite, uma moça andara pelas ruas procurando um dos jovens mais procurados pela polícia. Era Chatalia. Uma forte neblina dificultava sua desesperada busca pelo foragido do momento.

Passava ela por um cruzamento que daria num bairro residencial quando deparou-se com a polícia que buscava os suspeitos.

— Temos que achar aqueles trombadinhas! Só podem estar por aqui. Estava comendo minha mulher quando o sargento ligou me interrompendo. Quando eu pegar aquele moleque, o tal Érico, vou quebrar o cabo da minha doze na cabeça dele, QSL?

Chatália ouvia a conversa dos agentes enquanto se escondida atrás de uma caçamba de lixo numa rua mal iluminada. Torcia para irem embora. Um dos agentes, o mais novo, até então em silêncio, desceu do carro, atravessou a rua e começou a urinar na caçamba. Quase metade da urina ia para a boca de Chatália, que não podia se deslocar para não chamar atenção. Enquanto tomava um banho quente de fluido corporal dourado, irritou-se e deu um nó na genitália do rapaz e um soco no testículo esquerdo (na perspectiva dele) e correu enquanto o jovem policial gritou:

— Corra atrás daquela rapariga, Nicolau!

Érico não gostava de drogas. Cresceu comendo atum em lata e tapando o nariz quando o pai fumava cigarros. Fumou maconha para desafiar o Estado.

Érico, totalmente influenciado pelo narcótico, desenhou um A com urina na porta de um estabelecimento antes de cair desmaiado. Érico, apenas mais tarde reconheceria que se tornou naquele momento um anarco-capitalista e compraria maconha com bitcoins.