O Ladrão de Canetas – Parte VII

Nove meses depois O Ladrão de Canetas está de volta contando a saga de Érico e Chatália. Você pode conferir toda a história clicando no link à direita, “O Ladrão de Canetas” e acompanhar as demais partes.

Capítulo 13 – Novos rumos

Já estava amanhecendo, o sexteto desnorteado, já cansado havia deixado a empolgação de lado e avistaram um pequeno galpão de uma antiga empresa de tintas chamada “Dizoni Tintas”.

O galpão situava-se numa rua estreita, de pedras quadradas e algumas deslocadas, com várias casas também abandonadas. Ligeirinho pulou o portão e o abriu por dentro, todos entraram pelo portão desmoronando e Cátila, como último a entrar colocou o portão no lugar. Colocaram as bicicletas encostadas numa parede, completamente escura pelos efeitos do tempo.

Chatália puxou Dailane pela mão, e sentou no canto de um estreito corredor que dava passagem para a entrada oeste do prédio, que continha uma porta de ferro completamente oxidada.

Érico se preparava para derrubar a porta quando foram todos surpreendidos por uma garota, magra, com um tapa-olho, usando uma touca verde e com duas corujas equilibradas em seu ombro.

— O que querem, vândalos imundos? — Gritou a garota.

— Opa. Calma. Nós não sabíamos que tinha alguém no prédio. Só precisamos de um espaço. — Respondeu Érico. — Pessoal, vamos para outro lugar. — Continuou.

— Esperem, vermes. O que fazem por aqui? — Perguntou a garota.

— Fugimos da FEBEM com a ajuda dessas duas. — Disse Cátila.

— Seu burro, cala a boca. — Gritou Chatália.

— Ah, que interessante… Nesse caso, podem ficar por uns minutos, depois podem desaparecer. Eu gosto de vagabundos. — Completou. — Deixa eu lhes apresentar minhas amigas corujas, Concurvilda e Julinalva. São minhas preciosas. — Finalizou.

Érico fez uma expressão de desentendido, estava confuso. O que aquela garota poderia querer?

— Podemos ficar aqui essa noite? Por favor. — Suplicou o comandante da fuga.

— Com uma condição, os deixarei ficar. Está vendo esse lugar? Está imundo, está emporcalhado, há lixo por todos os lados. Se limparem esse lugar, o galpão e a pequena saleta ali, deixarei vocês ficarem essa noite. — Propôs a garota.

— Sem chance, se limparmos ficaremos por três dias, até arrumarmos um novo lugar. — Rebateu Érico.

— Dois dias, então. — Propôs a garota.

— Fechado, dois dias. Mas, nos deixa descansar então essa noite, amanhã limparemos o local. — Completou.

— Está bem… A propósito, sou Kéllera. — Se apresentou a garota, enquanto estendia a mão para Érico.

— Érico, a seu dispor. — Respondeu, apertando a mão da moçoila, cercado pelos amigos.

Algumas horas se passaram e a noite chegou, o galpão era bem grande, e estavam numa rua bastante deserta há uns oito quilômetros da FEBEM, ainda podiam ser encontrados, mas, pela parte externa do prédio, caindo aos pedaços e sem sinal de vida, imaginaram que dificilmente os achariam ali nos próximos dois dias. Não havia muito que pensar, estavam todos muito cansados Para se preocupar com a polícia. Érico conhecia as redondezas daquele local, e aquele galpão havia sido usado algumas vezes por seus primos para cheirar soda cáustica e fazer balões.

Érico permaneceu no canto e deitou ao chão, olhando para os detalhes em telha do teto, observou as vigas e alguns andaimes e objetos amarrados na parte superior da estrutura. Cátila e Romualdo foram para o outro lado enquanto Ligeirinho e Dailane, a qual ficou mais íntimo durante a viagem, ficaram na parte perto da porta. Kéllera dormiu na saleta imunda na parte norte. Chatália aproximou-se vagarosamente de Érico e dispôs-se a sentar perto dele para conversar.

A iluminação era precária, Kéllera providenciou apenas algumas velas para que se guiassem pelo galpão e alguns fósforos.

Naquele instante, Chatália deitou-se ao lado de Érico e tocou-lhe a mão, iniciando uma conversa:

— O que quer de mim, Chatália?

— Eu não sei, Érico.

—…

— Gosto de estar com você.

— Você mente.

— Por que você é assim, Érico? Nunca falou assim comigo.

—…

— Você gosta da minha irmã, né?

— O quê? Sua irmã?

— Sim, Evangelina.

— Você é irmã da Peix… Evangelina?

— Sim, nunca reparou a semelhança?

— Não há semelhança… Talvez haja. Não sei. Não acredito que você é irmã dela.

— Nem eu, ela é uma biscate.

— Não gosta de tua irmã?

— Não, e eu via o modo com que você se arrastava pra ela, babava por ela…

—…

— Eu só queria que você fizesse o mesmo por mim.

— O quê? Como tem coragem de dizer isso? Eu sou um elemento de competição entre você e aquela piranha?

— Não foi o que eu quis dizer… Desculpa.

— Não quero mais saber. — Concluiu Érico, virou-se e deitou contra a parede.

— Minha irmã está noiva. Do Carlos Peixeiro. Ele é negão, um metro e oitenta e tem dentes de ouro. Pensei que talvez quisesse saber.

— Dane-se.