O Ladrão de Canetas – Parte VI

Nos episódios anteriores vimos o planejamento de Érico, Cátila, Romualdo e Ligeirinho para fugir da FEBEM e sua relação com Chatália piorar a cada dia. Nestes capítulos veremos uma determinada explosão que poderá ou não dar a liberdade para os nossos amigos e os colocar em liberdade.

Boa leitura.

Capítulo 11 – A explosão

— Eu estava gostando dessa merda, não antes de eu vomitar e cagar nas minhas próprias calças e sujar minhas meias. Você é o pior cozinheiro do mundo, seu animal! — Gritava o guarda Carlos enquanto atirava Érico ao chão, levou-o ao banheiro desativado na presença de seus amigos.

— O que estão fazendo aqui, seus merdas? Sumam! — Gritava e esperneava o guarda enquanto arrastava Érico pela camiseta.

— Eu falei que ia fazer você comer sua própria merda, mas, mudei de idéia, você vai é comer a minha.

Naquele instante, Érico já podia sentir o gosto da humilhação quando o guarda Carlos foi interrompido por um barulho à porta, era o diretor da prisão.

— Dr. Rubião Pereira Peixoto, a que devo a honra? — Disse, enquanto prostrava de joelhos o guarda.

— O que está fazendo? Tentando fazer este detento comer a merda, Carlos? — Indagou o poderoso.

— Sr. Diretor, o senhor não sabe o que este moleque fez… — Disse o guarda, sem mencionar os detalhes.

— Carlos, quero que me acompanhe, parece que sumiu um frasco de nitroglicerina que eu guardei no depósito na semana passada. Preciso da sua ajuda. — Completou o diretor.

O guarda engoliu em seco, será que o diretor descobriria? Naquele instante largou Érico e o deixou junto aos outros e seguiu o poderoso diretor, que de longe, com sua vestimenta e postura impecáveis poderia fazer até com que os animais o respeitassem.

Érico, Cátiga, Romualdo e Ligeirinho estavam mais próximos e temerosos do que nunca após do fatídico episódio.

A hora estava passando, com o caos instaurado no calabouço juvenil os detentos ficavam livres à noite por todo o pátio, por este motivo, a noite era conhecida como “inferno preto”, já que sempre pela noite, enquanto eles tentavam dormir, um ou outro detento aparecia morto.

Naquele instante correram ao local para pegar os pertences explosivos, os manejando com cuidado, dentro de uma sacola plástica de supermercado, aliviados, comemoraram o fato do guarda não os ter descoberto, após estar tão perto dos artefatos. A bomba estava absolutamente pronta e o queijo ganhava um aspecto esponjoso, alaranjado, grudento e extremamente fétido. Conhecendo parte da prisão, Ligeirinho sugeriu o melhor lugar para colocar a bomba, era a parede no lado sul do pátio, onde dava para uma saleta inativa que saía perto da estação de trem, ao lado de uma praça.

Érico não sabia se poderia contar com Chatália, tendo anotado seu número de celular anteriormente, usou o celular de Ligueirinho para enviar um SMS para a dita cuja: “Vai acontecer, agora”.

Cátila e Romualdo terminavam de ajeitar a bomba, ao lado de dentro da parede do banheiro enquanto os outros detentos tentavam dormir em suas celas, aquela até parecia uma noite diferente, mais calma, e isso os assustava. As instalações do artefato foram inseridas dentro do bolor alimentar à base de laticínios.

— Está pronto, irmãos. — Gritou Cátila.

— É agora ou nunca, mermão. — Completou Romualdo.

Naquele instante, com uma sacola em mãos cobrindo a parte debaixo do queijo, Érico movia-se para a parede enquanto foi interrompido por Ligeirinho.

— É a minha vez de fazer algo pelo grupo. — Completou.

Érico entregou-o o artefato e Ligueirinho moveu-se na calada para a parede ao sul do pátio entre dois detentos que tentavam dormir ao pé de uma grande pilastra. O rápido garoto grudou o queijo que continha o artefato na parede e ajeitou alguns fios ao lado de fora com um receptor eletrônico.

Voltou correndo para perto dos demais, atrás da parede do banheiro para ativar o receptor através do celular e ver a bomba explodir. Já era quase uma da manhã.

Um SMS chegou ao celular de Ligueirinho enviado por Chatália: “Não posso sair à noite”, que foi respondido logo em seguida por Érico: “Vem logo, biscate. Não me lasque”. Chatália morava há pelo menos uns cinco minutos da prisão.

Esconderam-se atrás de uma grande pilastra em frente a uma pequena saleta de vigia, onde havia apenas um guarda dormindo, com seu quepe tapando os olhos e um jornal do dia anterior sobre seu colo. A ansiedade era imensa, eram poucos no pátio e não podiam despertar atenção.

Entreolharam-se e como num ato imediato Érico sugeriu algo que jamais imaginou fazer: uma pequena oração. Aquele ato envolveria fé e esperança e para alguns deles, justiça.

Uma nova SMS veio, Chatália havia concordado, estava há poucos minutos da cadeia.

Ligeirinho estava afoito com o detonador em mãos, Cátila e Romualdo suavam frios e Érico os tenta manter calmos sem conseguir esconder a ansiedade.

Romualdo tentou segurar a mão de Cátila, mas, tomou um tabefe no pé do ouvido. — Bicha! — Gritou. A tensão aumentava e Ligeirinho estava pronto para detonar quando Érico viu e não acreditou, um guarda vinha correndo em sua direção. O que poderia ser?

Alguém os haveria denunciado? Será que alguém os havia delatado em troca de uma televisão, rádio ou comida? Não era possível. Era o guarda mais novo que a toda velocidade corria rumando em direção a eles. Adentrou ao banheiro desativado e com a descarga quebrada fez ali suas necessidades fisiológicas enquanto os quatro se equilibravam num pequeno beco antes da pilastra mais larga da prisão, de frente para a guarita interna do guarda, que percebeu a movimentação e acordou. Não tinha mais como se esconder, se algum guarda pegasse um grupo de menores reunidos em atividade em plena noite ou madrugada certamente os espancaria.

O turno da guarita naquela noite era do terrível Carlos, que saiu esbravejando com o parceiro cagão no banheiro.

O quarteto só ouviu o novato com diarréia denunciando, dizendo que quando adentrou ao banheiro viu o grupo maquinando escondido. Não havia alternativa, trancaram os dois no banheiro.

— Abram essa porta, miseráveis ou vamos comê-los vivos! — Gritava Carlos.

— Eu não vou comer ninguém. — Retrucou o novato.

— Cala a boca, verme e me ajude a arrombar essa porta, seu inútil saco de merda! — Retrucou Carlos enquanto dava uma bordoada no rosto do novato.

O cheiro insuportável do queijo grudado na parede começou a incomodar os dois internos que dormiam apenas alguns poucos metros da parede sul. Não havia mais tempo, alguém poderia mexer no queijo, os guardas já estavam prestes a escapar da saleta com murros e chutes na porta. Aquele era o momento.

Érico fechou os olhos e deu a ordem para Ligeirinho: — É agora. — Naquele instante o botão foi apertado e a ansiedade que os fazia tremer os fez ainda mais. Nada aconteceu.

Ligeirinho apertava os botões freneticamente, algo estava errado. Cátila suava muito e logo apontou o problema: — Esse Bluetooth usado no detonador só tem alcance de apenas dez metros e não cem como eu havia imaginado… Terá que chegar mais perto. Não tem jeito. — Completou.

— Mas, se eu chegar a dez metros da parede morrerei na explosão. — Todos engoliram em seco. Não sabiam o que fazer. A esperança os estava deixando quando Ligeirinho correu e gritou: — É minha responsabilidade. — Então Érico respondeu calmamente. — Faça acontecer que eu farei valer à pena. — Sem retrucar, Ligeirinho correu, os três restantes viram o amigo ser engolido pela escuridão e se abrigaram atrás da pilastra. Em menos de um minuto, um estrondo muito forte veio, destroços de alvenaria voaram por todos os cantos, resíduos de concreto, pedras, ferragens tomaram conta do pátio e uma fumaça gigante enevoava o local.

O estrondo foi tanto que permaneciam completamente surdos e caminhavam em direção ao pó, tapando o nariz com suas camisetas, o buraco estava lá. Ligeirinho conseguiu.

Capítulo 12 – A fuga

O tremor agora era de emoção, com certa dose de receio por Ligeirinho e uma euforia pela aventura e pela certeza da impunidade perante as leis, já que eram menores de idade. Estavam livres.

Olharam para trás, pelo buraco onde passaram com certa dificuldade e viram outras dezenas de delinqüentes fugindo e gritando palavras de ódio em busca de auto-afirmação: — Abaixo o sistema! — Correram os três mais a frente e Chatália os esperava com quatro bicicletas médias.

— Como trouxeste essas bicicletas para cá? — Indagou Érico.

— Não vai me agradecer? — Refutou Chatália em seguida.

— Responda a pergunta. — Rebateu Érico.

— Ai, como você é insuportável! Ela me ajudou. — Disse apontando para uma jovem mocinha hiperativa, de aparentes 27 kg, cabelos encaracolados e com um leve sorriso no rosto. A garota que Érico havia salvado na cadeia, Dailane.

— Naquele dia na visita fui tirar satisfação com ela por ter se metido, mas, ela queria retribuir seu ato, então, concordou em vir. — Explicou Chatália.

— Como a trouxe em cinco minutos com essas bicicletas se estava em casa? Como conseguiste as bicicletas? — Gritou Érico, desconfiado.

— Érico, — Interrompeu Cátila — vocês podiam resolver seus problemas depois? Nós temos que dar o fora daqui agora. — Terminou gritando, furioso.

O alvoroço era enorme, alarmes, sirenes e pessoas agitadas para todos os lados, pedras sendo atiradas em vidraças, fogo em repartições públicas.

Alguém vinha em direção a eles correndo, ofegante e o braço aparentemente machucado. Era Ligeirinho. O espanto transformou-se em alegria, o amigo estava vivo.

— Achávamos que estava morto… — Gritou Érico, abraçando-o.

— Eu entreguei o detonador para o Max apertar e me escondi. O consegui convencer, já que ele estava na zona de alcance. Ele virou picadinho. Bom, antes ele do que eu. — E completou rindo.

Após os esclarecimentos, todos montaram nas bicicletas, os quatro com Dailane se apoiando na parte traseira da bicicleta de Ligeirinho.

Chatália permanecia imóvel enquanto Érico a convidava: — Vem logo, senta no cano. — Disse, referindo-se ao quadro da bicicleta.

E assim, aqueles seis jovens corriam contra o vento, alguns gritando com as mãos para cima andando nas ruas escuras e becos para evitar a polícia tentando chegar na outra parte da cidade, onde um bom plano poderia ser montado para marcar suas vidas para sempre.