O Ladrão de Canetas – Parte IV

Após ser humilhado por seu professor feminista e ter uma conversa com o diretor, Érico se viu numa situação difícil, acabou sendo pego com a boca na butija roubando uma caneta valiosa e foi parar na penitenciária abandonando seus anseios no colégio, suas aulas de violino, sua vida esportiva e seu amor platônico.

Érico, na penitenciária começa a receber constantemente visitas de Chatália e um novo patamar o aguarda. Precisa agora, depois da transferência para a FEBEM, se enturmar ou arrumar alguma forma de fugir de um dos piores presídios para jovens já feito na face da terra.

Boa leitura.

Capítulo 7 – Um ato heróico

Havia uma semana que Érico estava preso, nada evoluiu, sem notícias. Sentia-se abandonado pelo mundo, se não fosse pelas visitas de Chatália. Aquela era tênue quinta-feira ensolarada, quando foi notificado da visita da misteriosa garota.

O velho Noel havia sido transferido para o Carandiru e apenas seu companheiro traficante dorminhoco lhe servia de companhia entre uma hora e outra. Mal se falavam.

O saguão de visitas era enorme, e nele podiam ser vistos uma família visitando o pai ladrão, uma garota magra, de cabelos encaracolados visitando o irmão traficante viciado, um ex-policial viciado e assassino sendo visitado por sua mãe e lá estava ela, sentada na mesa, sem demonstrar nenhuma emoção: Chatália.

Érico começava demonstrar certo receio pela garota, poderia depositar nela esperanças de dias melhores? Poderia confiar nela como uma potencial mulher a quem poderia namorar; ter um relacionamento; copular, casar e ter filhos? Por que estaria ele pensando aquilo?

— Olá, como tem passado?

— Eu não sei… Estou desesperado nesse lugar.

— Relaxe, olha o que eu trouxe pra você, um bolo de limão, fui eu que fiz.

— Sabe cozinhar?

— Sei sim… Você aposto que só sabe fazer miojo.

— Miojo e água quente.

Os dois tinham conversas absolutamente sem valor ou significado, estava claro que havia algo mais naquela interação. Chatália preparava-se para beijá-lo quando foram interrompidos por um forte barulho vindo dos céus.

Algo bastante grande havia acertado parte do telhado que começou a desmoronar. Seu companheiro de cela e sua irmã, em visitação, seriam acidentados pelos gigantes cacos de telha que cairiam sobre eles.

Percebendo o que estava prestes a suceder, Érico levantou de sua cadeira e com grande velocidade, sem se importar com o traficante, salvou sua irmã que o visitava de ser desfigurada por um caco de telha gigante que se desprendia do teto. Érico caiu ao chão e foi atingido por diversos cacos e por pedaços do que parecia ser fragmentos de um bimotor.

Os guardam se moveram imediatamente para o local onde Érico estava, todo perfurado e sangrando, foi agradecido pela garota enquanto escoltada por guardas:

— Obrigada. — disse a garota. — Sou Dailane.

Érico não conseguia responder, estava sem fôlego algum, enquanto os guardam faziam a devida apresentação à garota, Érico, todo ensangüentado, enquanto esperava por atendimento médico, moveu-se vagarosamente até a cadeira de Chatália que não havia movido um músculo enquanto o acidente se desencadeava.

— Quem é aquela piranha? Quem é aquela puta? — Perguntava Chatália.

— O quê?

— Por que você a salvou?

— Eu… Não sei, só vi acontecendo e fui. Não sei.

— Eu vou embora, estou com dor de cabeça. Até outro dia.

Enquanto Chatália se despedia com seus motivos irracionais, Érico caía ao chão e era socorrido pelos médicos da prisão.

Capítulo 8 – FEBEM

Dois dias após o incidente, Érico havia sido transferido. Andaria mais uma vez no camburão e aquela sensação péssima voltava a ele. Começaria a cumprir sua pena no pior presídio para menores do mundo, a FEBEM, um lugar sem leis.

Ao descer do veículo, foi escoltado ao interior do recinto onde entregou alguns pertences e passou por diversas grades e ouvir aquele estralo dos portões se fechando em suas costas.

Érico foi empurrado por um guarda para o interior do grande pátio. Paralisou-se e prostrou-se ao chão. O lugar era imenso, completamente pixado com menções à facções criminosas. Havia brigas por todo o espaço e colchões pegando fogo. O lugar estava em rebelião eterna e os guardas não moviam um dedo. Parecia haver uma norma: os guardas não se metiam com os detentos e vice-versa.

Perplexo, começou a passear pelos corredores, o uso de drogas era contínuo e Érico começou a lembrar de sua infância. Com dez anos, por influência de um primo marginal, ganhou um pequeno pilão e aprendeu a preparar o que foi o seu maior vício durante um breve período: Soda cáustica. Érico lembrava-se com horror dos tempos em que ajoelhado a beira da cama socava o pilão para moer o produto e depois, com suas narinas, sugá-la para dentro de seu corpo com a força que ainda lhe restava. Com tenra idade a droga corroeu parte de seu cérebro e tornou o futuro intelectual a ser apenas mais um lesado a jogar o futuro no lixo em troca de um prazer momentâneo.

Érico sentiu-se naquele momento, assim como em tantos outros, um grande imbecil. Aquele era seu fardo. Usou a droga por apenas dois meses e entrou em coma, com o hidróxido de sódio corroendo parte de seu cérebro. Érico foi freqüentemente menosprezado após isso por ter-se tornando estrábico em função do uso excessivo de soda cáustica, aliado de seu comportamento no colégio no período pós-drogas, resultando em limitações, começou a ser chamado, inclusive por seus professores, de Retardado.

Lembrou-se de tudo o que passou na escola, no sanatório e em duas clínicas de reabilitação, nunca se importou com a zombaria. Talvez a soda cáustica tivesse destruído a parte do cérebro que se importava com isso, era o que pensava.

Naquele momento, mais do que qualquer outro, Érico precisava ser forte, sabia disso, era o pior momento de sua vida. Precisava fazer o que sempre fez: levar aquela situação com tranqüilidade, coisa que ele fazia muito bem, mas, pela primeira vez estava sentindo algo que nunca sentiu: medo.

Sua cela era a de número 71, que ficava no andar de cima, rumou vagarosamente evitando contato ocular com qualquer arruaceiro, passava por todos eles enquanto chutavam outros detentos no chão, tacando fogo em papéis ou plásticos e fazendo algazarra. Érico desviava de muitos detritos fétidos, havia fezes por todo o recinto, o cheiro era praticamente insuportável.

Em sua cela havia uma cama beliche, mas, não havia colchão, que os detentos haviam queimado. Érico deitou-se e começou a refletir enquanto alguns detentos da cela ao lado urinavam em sua roupa para lhe dar as boas vindas.

Após o banho quente de urina Érico pôs-se a pensar no papel a qual a vida lhe desempenhara.

Dois dias se passaram e a situação se tranqüilizou no presídio, Érico conseguiu se enturmar com um grupo de jovens estrábicos que o respeitavam e o protegiam, tentou ao máximo evitar conflitos e começou a entender a política que regia o lugar: “se cada um cuidar do seu não haverá problemas”, foi o que lhe disse um garoto enorme.

Mais alguns dias havia se passado, sua mãe, dona Eleanor, soube de sua prisão e foi visitá-lo na cadeia. Sua mãe era uma senhora de aparentes sessenta anos, uma dona já usada pela vida, desgastada e de poucas palavras, uma senhora deprimida com uma voz extremamente fanha e rouca. Demonstrou tristeza profunda com a prisão do filho, mas, este parecia decidido, não se importou com a tristeza da mãe e lhe fez alguns pedidos.

— Mãe, como sabe a senhora, estou encarcerado e não sei quando vou sair daqui, mas, preciso que faça algo por mim. — Sua mãe nada disse, parecia extremamente frustrada, porém, disposta a realizar os pedidos do filho único. — Utilize meu bolsa-presídio concedido pelo governo federal para suas despesas com seus remédios e use o Bolsa Cultura para me comprar livros, lhe farei a listagem dos livros que preciso, os temas são diversos.

— Tudo bem, meu filho, tudo bem. — Concordou a mãe, em poucas palavras.