O Ladrão de Canetas – Parte III

Após estar em cheque com suas aulas de violino e ser praticamente massacrado por todos os alunos do colégio em função do gol contra que fez e desclassificar o time do campeonato Érico volta as aulas nesta parte da história.

Nestes dois próximos capítulos abordaremos um problema que Érico carrega desde criança, ele é cleptomaníaco e isso já lhe rendeu uma expulsão. Afana canetas e outros objetos e nesta parte a história começa a se complicar para Érico que pode, inclusive parar na cadeia. Chatália o ajudará? Qual a intenção deste estranha garota ao se aproximar de um fracassado como Érico?

Boa leitura.

(Próxima parte será postada dia 25 de janeiro, sexta-feira, às 20:00h.)

Capítulo 5 – Um crime descoberto

Dois dias após o incidente Érico foi recebido de volta na escola durante o intervalo. Na abertura dos portões, foi recebido em silêncio no pátio, a escola toda parou, em silêncio observavam a entrada do garoto, todo inchado, cheio de hematomas e curativos espalhados por todo o corpo sendo acompanhado por dois seguranças do colégio até o diretor.

Rumou até a direção da escola, onde teria um encontro com “Seu João”, o diretor, que não se encontrava no momento. A reunião acabou sendo com a vice-diretora, Rose Frescunélia.

Os dois trocaram uma rápida conversa, enquanto Érico permanecia em pé, a vice-diretora Rose não dava muita atenção, por não gostar da postura do garoto. Lhe deu algumas instruções para evitar confusão, culpou-o pelos incidentes e rapidamente o liberou. Érico aproveitou um delize da professora e afanou-lhe duas coisas, uma bela caneta e uma rosa que estava num pote perto da estante. Érico foi dispensado.

— Está dispensando, Érico, volte para sua turma.

Ao voltar a sala, subiu lentamente as escadas rumo ao segundo andar, onde voltaria as aulas normalmente. Em posse de uma rosa, abriu a porta e foi recepcionado pelo mesmo professor de história.

— Você? Entre… Sente-se em sua cadeia.

Érico não havia percebido, mas, enquanto conversava com o professor, Tulio, que sentava ao lado, pintava sua cadeira com branquinho desenhando um phalus erectus no assento.

Antes de repousar-lhe à cadeia sob vaias e menosprezo da turma, entregou a rosa para Evangelina que novamente queixou-se com o professor.

— Mas, esse moleque não aprende? Vem aqui Érico. A sociedade patriarcal machista opressora, representada por cidadãos como você é que tanto afetas boas moças e pessoas como Evangelina que são perturbadas todos os dias por pessoas como você que apenas a vêem como um pedaço de carne.

— Mas, professor… Eu…

— Sem mais! Cale a boca, tire a camisa e fique de costas para a parede.

— Mas, o quê?

— Agora! — Gritou o professor com autoridade.

— Érico tirou a camisa desbotada que havia recebido de aniversário de sua avó e ficou de costas para a parede. O professor, com guache, escreveu em sua lombar: “Sou machista opressor”.

No instante em que voltava a explicar a matéria, com Érico sem camisa com um chapéu de palhaço cheirando a parede, a aula foi interrompida pelo Diretor João e pela vice-diretora Rose.

— Onde está Érico? — Perguntou a vice-diretora.

— Está ali. — Apontou o professor.

— Quem lhe deu autorização para humilhar seus alunos com esses dizeres, senhor Ostovaldo Sinbuelas? — Bradou com autoridade o diretor João.

— Desculpe, diretor, mas, se alguém não ensinar para esse garoto os males da sociedade patriarcal… — Enquanto explicava acabou interrompido pelo diretor.

— Lamento informar, Ostovaldo. Se o senhor é uma bicha, isso é assunto seu, ninguém tem nada a ver com isso. O senhor está suspenso de suas atividades como professor no colégio Eunuco Eutanásio até segunda ordem. Recolha suas coisas. Não se humilha um aluno perante os demais baseado em suas crenças ideológicas estúpidas.

— Mas, diretor…

— Cale a boca!

— Érico, me acompanhe, por favor. — Explanou a vice-diretora Rose.

Érico desceu as escadas junto com os diretores e estavam em profundo silêncio quando o diretor João quebrou-o:

— Não subimos a sala para te defender, precisamos tratar de outro assunto.

Quando chegaram à diretoria, havia dois policiais da Ronda Escolar os aguardando, rumaram para a sala do Diretor, acompanhado dos policiais.

— Érico, você pode ser o rapaz mais atrapalhado do mundo, mas, uma coisa eu admirei em você desde o tempo em que te observei aqui, a sua capacidade como homem. — Bradou o diretor, sob o silêncio de Érico, sentado e assustado. — Nós demos falta de um objeto importante que foi subtraído da diretoria hoje e gostaríamos de perguntar se você sabe quem o subtraiu.

— Um objeto, diretor? — Perguntou em voz baixa.

— Uma caneta tinteiro. Uma Mont Blanc, avaliada em dois mil reais, de valor inestimável para mim, pois ganhei de meu pai em seu último ano de vida.

— Uma caneta vale tanto assim?

— Vale, meu jovem.

— Eu não saberia… Eu, eu…

— Revistem-no! — Gritou a vice-diretora Rose.

Os policiais prontamente revistaram Érico e acharam a caneta tinteiro em sua cueca. Érico estava preso por furto.

— Podem levá-lo! — Exclamou Rose, para a decepção do diretor João.

Érico foi levado, enquanto esperneava e gritava ao ser levado.

*

O professor e maestro Rubens Gil adentrava sua sala para cumprir seu horário e ao acender a luz deparou-se com uma grande surpresa. Chatália havia conseguido mais de vinte alunos interessados em aprender música para o professor. Curiosamente, a maioria eram jogadores de alguns times de futebol de salão do colégio.

— Estou espantado, surpreso, Chatália! Conseguiste em alguns dias o que eu não faria em vários. Estou espantado com sua eficiência. — Disse o professor, enquanto os jogadores se entreolham.

— Não foi nada, professor. Mas, onde está Érico? — Perguntou Chatália. — Não está aqui com o senhor?

— Eu lhes faço a mesma pergunta. — Não o vi hoje.

A sala de música ficava bem ao lado da diretoria no pátio inferior e o professor Rubens Gil chamou o diretor. Em pouco instantes a situação estava para ser esclarecida, o diretor chegou pronto a fazer um pronunciamento:

— Lamento, alunos, mas, Érico foi preso, foi levado à polícia militar acusado de furto. Ele não faz mais parte desse colégio.

Capítulo 6 – Fazendo amigos na detenção

Érico estava numa pequena cela aguardando os trâmites legais de sua prisão. Havia com ele dois infratores: um velho senhor de barbas brancas e um jovem rapaz traficante que delirava em sonhos profundos. Érico, apesar de ser menor de idade, foi colocado em uma cela comum da penitenciária da cidade.

— Olá, meu jovem. Seja bem vindo. — Cumprimentou-o, o velho.

— Obrigado, senhor. — Respondeu-o, ainda com os olhos vermelhos resultado do choro.

— Sem formalidades, meu jovem. Sente-se.

Érico sentou-se e pôs-se a conversar com o velho barbudo de apelido “Noel” que lhe deu alguns conselhos.

— Você provavelmente vai cumprir pena na FEBEM, por ser menor de idade, em dois dias te tiram daqui.

— Dois dias? FEBEM?

— É, meu caro. Dois dias. Sim, você será enviada para a Fundação, e de lá não sairá por um bom tempo, apesar de este país proteger o menor, um pouco de sofrimento o aguarda. O que fizeste? Assassinato? Estupro? Terrorismo? Latrocínio? Roubo? Conspiração?

— Não… Nada disso. Eu roubei uma caneta.

— Roubou uma caneta, jovem? Sei…

É sério, sei que parece absurdo, mas, parece que era uma caneta valiosa, feita de ouro sei lá mais o quê…

— Claro, claro.

— E você, Noel, por que está aqui?

— Invadi uma casa… Pela chaminé. Os vizinhos acionaram a polícia e cá estou eu. Amanhã serei transferido ao Carandirú.

— Invasão a domicílio. Isso é terrível, senhor.

— Olha quem fala… O ladrãozinho de canetas. Diga-me, por que roubaste a caneta?

— Eu não sei… Tenho essa mania, e ela se acentua quando estou apaixonado. Amando, sabe…

— Amando? Quem é a garota?

Os dois conversaram sobre Evangelina por uns dez minutos, Érico contou a história sobre o apelido de “peixinha”, os trejeitos da garota, o esforço que fez para conquistá-la e nada deu certo.

— Mas, você é um grande veado, meu rapaz. Tem agido como uma bichinha apaixonada, elas nunca te respeitarão se agir como veadinho.

— Como assim, Noel?

— Entregou cartinha para uma garota que não dava bola para você? Dedicou um gol a uma garota que o menospreza? Deu-lhe flores? Qual é o seu problema? Diga-me, a vadia cai de amores por alguém?

— Sim, ela gosta do Marcão Caveira. Ele foi suspenso duas vezes, é o maior baderneiro da escola, a humilhou algumas vezes, ele a chamou de piranha na frente de todos… Não entendo, fico revoltado, como ela pode gostar de um animal que a humilha e me desprezar tanto?

— Lamento, Bunda Fresca, mas, você não tem percepção da realidade. Acho que passou muito tempo assistindo novelas.

— Sim, sim, eu gosto, sim.

— Tem feito tudo ao contrário, lembre-se, nem tudo é o que parece. Dou-lhe um conselho: Seja homem.

— Obrigado, velho, me ajudou bastante.

Algumas horas se passaram e o guarda da prisão chamou Érico aos gritos:

— Érico Oliveira, tens visita.

— Visita? Só pode ser minha mãe.

Érico foi transferido para uma ala destinada a visitações. Era ela, Chatália.

— Chatália, a garota da sala? O que faz aqui?

— Vim te ver.

— Me ver?

— Não se acanhe. Você é um garoto diferente, um menino especial. Consegui que o professor Rubens não abandonasse as aulas de música.

— Você fez isso?

— Não foi nada, só queria ajudar.

Chatália e Érico conversaram por alguns instantes. Érico não entendia o motivo do interesse repentino de Chatália por ele.

— Érico, quando tempo ficarás aqui?

— Ainda não sei…

— Queria te dizer que sei que foi você que roubou minha caneta. É um gatuno profissional, Érico. — Disse Chatália, enquanto esfregava lentamente suas pernas nuas contra as pernas do prisioneiro.

— Não entendo… O que quer dizer?

— Não se preocuope, não quero diminuir sua coleção de canetas. Provavelmente você ainda não tinha uma caneta com tinta rosa.

— Nem sei o que dizer, Chatália.

— Não diga nada. — Chatália, ao terminar de dizer as palavras, inclinou-se de leve contra Érico e o beijou intensamente.

— Ei, mocinha, saia de cima da mesa! Agora! — Gritou o guarda, interrompendo o ato.

— Espero que saia logo daqui, tenho uma proposta a lhe fazer. — Concluiu, enquanto era levada por um guarda a parte externa da penitenciária.

Érico ficou confuso, absolutamente embasbacado. A última vez que beijara uma garota estava na segunda-série. O que será que Chatália queria para tratá-lo daquela forma, tão bem? Abandonaria suas pretensões com Evangelina para dedicar-se exclusivamente a nova pretensa?