O Ladrão de Canetas – Parte II

Érico é um garoto problemático, mas, como boa parte das pessoas a qual está reservado algo de interessante, uma certa polêmica é necessária, com o “Merdinha” não é diferente.

Nestes dois capítulos desta segunda parte abordaremos as tentativas de Érico de se tornar um grande violinista e sua relação com seu professor Rubens Gil que está prestes a abandonar o ensinamento deste instrumento ao garoto e uma partida de futebol de salão onde Érico pode se tornar o herói ou o vilão, pode ir à glória ou ao hospital, além do início de um peculiar relacionamento com uma garota muito estranha e de intenções ocultas chamada Chatália.

Boa leitura.

(A próxima parte será publicada dia 23 de janeiro, quarta-feira, às 20:00h.)

Capítulo 3 – Um professor desistente

Naquele dia, sua aula de violino estava marcada para as treze horas. As aulas eram feitas no pátio inferior, as aulas de música eram opcionais na grade escolar, mas, a necessidade de haver professor disponível era obrigatória, através de uma nova lei estadual.

Érico chegou à sala, abraçado de seu estojo, sentou-se, seu professor nada disse. Afinou seu instrumento em silêncio, amargurado e fora recepcionado por seu professor de forma direta e concisa:

— Lamento Érico, não dá mais. Eu tentei de tudo, não posso ficar aqui lecionando apenas para você. — Enfatizou o elegante, garbo, porém estranho professor.

— O quê? Como assim?

— Lamento, mas, estou de partida. Os últimos dois meses eu aqui permaneci imaginando que você pudesse mudar e tornar-se, talvez, um bom músico, porque genialidade eu sei que você não tem. Desculpe-me a franqueza.

— Não faça isso, Gil, violino é minha vida, por favor.

— Não é, Érico. Violino não é sua vida. Você infelizmente não se dedica, e estar somente com você como aluno é simplesmente frustrante, espero que com minha franqueza você mude, porque eu não poderei mais te ajudar.

Érico pôs-se a chorar.

— Seja homem, Érico. Aprenda a enfrentar os desafios da vida para o seu próprio bem.

O professor abriu a porta, deixou-o só lamentando e rumou para a diretoria enquanto era seguido por uma aluna.

“Droga, onde deixei minha caneta?” Pensou, apalpando os bolsos.

Quando o professor abriu a porta para adentrar a sala dos professores, eis que a aluna o interrompeu. Era Chatália.

— Posso ajudar-lhe, moça? — Indagou o mestre.

— Desculpe a intromissão, ouvi que o senhor está abandonando a música neste colégio por ter apenas um aluno. E se eu também estudasse música com o senhor? — Indagou a moça, entusiasmada como se quisesse prestar um favor a Érico.

— Eu lamento. Não há nada que possa fazer, a menos que me consiga pelo menos dez alunos…

— Dez?

— Sim, dez.

— Professor, eu conseguirei os dez alunos, só me prometa que não contará nada a Érico, por favor.

— Se conseguir os alunos, ficarei…

Chatália estava determinada a conseguir os dez alunos para o professor Rubens Gil e já sabia como fazer isso, espalhando cartazes incentivando a vinda para o curso de música do colégio e conseguir aquilo para ela era fácil.

Ela era uma garota nada discreta, apesar de portar uma vestimenta clássica, em dias normais gritava o tempo todo, puxava assunto com desconhecidos, respondia professores e tinha ciência de uma certa sensualidade excêntrica que portava, além de demonstrar em sala de aula ter um interesse ávido por favelados.

Chatália era péssima em computação, sempre cabulava suas aulas de informática para encontrar-se na sala de vídeo com os moleques da “Família Zica” e dos “Manos Colômbia”. Sabendo disso, não poderia elaborar o panfleto de chamada para atrair novos alunos. Então, de forma excepcional, participou da aula de informática naquela quinta-feira e jogando seu charme excêntrico em cima de um “nerd” conseguiu um grande favor.

— Oi, docinho. Você é o Arnandinho, não?

— Co… Como?

— Eu sou Chatália, prazer. — Disse enquanto apertava as mãos do “nerd” de forma leve e macia.

— Ah…

— Preciso de um favor seu, pode me ajudar?

— Po… Posso.

— Gostaria que criasse um cartaz para mim… — Então, Chatália, usou seu dotes femininos para conseguir que o garoto fizesse o cartaz para si. Naquele dia, seu decote e sua saia curta deram resultado. Sabia usar seu corpo em seu favor.

“Vou conseguir que o professor não desista, para não frustar Ériquinho, custe o que custar, conseguirei”. Pensou.

Capítulo 4 – Um reserva muito louco

Estavam no mês de junho, era a época do campeonato intermunicipal de futebol de salão, era semifinal, e por uma cota implantada na escola para alunos afro-brasileiros, Érico conseguiu entrar para o time, esteve presente em todos os jogos, porém, em todos eles, ficou na reserva com seu colete vermelho. Érico sequer sabia jogar futebol, mas, as regras do colégio eram claras com relação à presença de qualquer minoria dentro dos times, inclusive havia um aluno que fingia ser gay apenas para obedecer à cota.

Érico mal prestava atenção ao jogo, sabia que a confusão estava instaurada pela dificuldade do duelo com o colégio Euclides Cajado, e o empate naquele quase final de jogo deixava a situação ainda mais tensa. Chatália estava na arquibancada, colada à grade, torcendo para ele. Evangelina também estava presente, perto de Chatália conversando com suas amigas.

Num momento decisivo do jogo, o melhor jogador da equipe, Ronaldo Sobraldo, quebrou a perna e teve uma forte fratura. Tirado de quadra pela torcida e socorrido, não deixaram o jogo parar. Érico foi colocado no jogo sob tensão total para os torcedores-estudantes, já que até os outros reservas haviam sido expulsos e ele era a única alternativa.

— O que esse merda está fazendo em quadra?

— Tira esse lixo daí!

— Fora, macaco! — Gritavam em coro.

Foram alguns dos insultos que Érico ouviu e ainda assim, não se vitimou. Não se deixou humilhar, tentando lembrar-se das regras do futsal que vira pela internet, Érico, numa energia súbita que emanou de seu ego, pegou a bola e num chute estranho e sem jeito a bola fez uma curva de perto da área e foi parar no fundo das redes.

O silêncio era total. Só se ouvia Érico gritando, pulando e dedicando o gol a sua amada:

— Evangelina, eu te amo! Eu te amo! Meu amor, esse gol é para ti! — Pensando que algum heroísmo chamaria a atenção da garota. O que Érico não havia percebido é que ele havia marcado um gol no próprio goleiro. Havia marcado um gol contra.

Naquele momento, pessoas começaram a pular a grade para espancar o garoto. O colégio não ganhava um título há dez anos e aquela foi a melhor equipe que o colégio conseguiu formar, com boas chances de levar o caneco e restaurar a auto-estima daquela escola.

Os guardas tentaram intervir para proteger o garoto da fúria das massas, mas, até eles se indignaram e chutaram o garoto. A multidão invadiu a quadra, quebrou o portão e espancou Érico que ficou agonizando no chão. Com receio de ter matado o garoto, a massa dispersou-se.

Érico foi levado às pressas para o hospital municipal. Poucos se preocuparam: “vaso ruim não quebra”, foi o que disseram. Estava em estado complicado devido ao ódio da multidão explodindo sobre seu crânio.

O garoto rumava numa maca no hospital municipal, a maca não tinha rodinhas, então ele precisou ser carregado como se fosse um caixão. O garoto era impressionantemente resistente. Ainda resistia, mesmo sangrando pela boca e pela nuca.

Depois de um procedimento médico de aproximadamente duas horas, Érico já estava são e conversando com seu médico.

— Como tu foste se envolver em tamanha confusão, garoto?

— Não sei doutor… Não foi a primeira, tampouco a última.

— Precisa tomar cuidado, precisa sair dessa vida.

— …

— Olha, não estou te condenando, mas, a sociedade não vê isso com bons olhos.

— Doutor, do que está falando?

— Deixemos para lá, filho. Só não se faça de vítima. Você é mais forte do que isso.

Após o papo confuso, Érico já havia recebido alta, não foi exatamente nada tão grave, mas, deixou alguém bastante preocupado no colégio: Chatália.