O Ladrão de Canetas

O Ladrão de Canetas

O Ladrão de Canetas

Se você tem amigos de verdade, as dificuldades da vida já não pesam tanto. (Jufras Menhal)

Capítulo 1 – Prólogo
Capítulo 2 – Um pedido recusável
Capítulo 3 – Cartas para o seu amor
Capítulo 4 – Um professor desistente
Capítulo 5 – Um reserva muito louco
Capítulo 6 – Um crime descoberto
Capítulo 7 – Fazendo amigos na detenção
Capítulo 8 – Um ato heróico
Capítulo 9 – FEBEM
Capítulo 10 – A rotina atrás das grades
Capítulo 11 – O plano de fuga
Capítulo 12 – A explosão
Capítulo 13 – A fuga
Capítulo 14 – Novos rumos
Capítulo 15 – Reflexões de um Zé Ruela
Capítulo 16 – Nasce um monstro
Capítulo 17 – O dilema de Chatália
Capítulo 18 – O segredo de Chatália

Capítulo 1 – Prólogo

Érico Caguette de Oliveira corria com todas as suas forças. Estava sendo perseguido por um grupo de jovens de sua escola. Seu fôlego acabara. Caíra ao chão como um pato manco. Acabou espancado, com chutes nos testículos e na cabeça num beco a duas quadras de sua casa.

— Nunca mais olhe pra minha vadia, Retardado! — Retardado era o apelido de Érico, um garoto excêntrico, aluno do primeiro ano do ensino médio, um moleque com aparência esquizofrênica, óculos fundo de garrafa, alto e muito magro, um típico fracassado da escola.

Érico era o único aluno do professor mais estranho do colégio, Rubens Gil, que lecionava violino. A dedicação de Érico era questionável, e mesmo tendo toda a atenção da aula voltada para si, ele era um tremendo fracasso como violinista, tendo uma vez causando grande constrangimento durante uma das apresentações num evento escolar. Fato que lhe causou um enorme trauma quando lhe atiraram fezes dos animais da escola no rosto.

Érico também tinha o apelido de “Merdinha”, o mais freqüentemente usado por seus colegas de sala, também por sua cor meio marrom e pelo seu rosto meio estranho.

Suas notas eram bastante ruins, não por ser ignorante, mas, por ser extremamente desinteressado. Merdinha não valorizava a si, aprendeu a valorizar o coletivo, a ser escravo do meio, prova disso era seu amor por Evangelina, sua peixinha.

Capítulo 2 – Um pedido recusável

A professora Marta Angel, apelidada pelos alunos de “Rabo de cavalo” adentrou a sala naquela primeira aula de segunda-feira. Parecia estar numa forte ressaca, talvez por uma noite regada a bebidas para compensar uma vida sem valor ou talvez tenha tido uma noite de brigas com o marido. Independente do motivo, era evidente seu mau-humor, parecia detestar seu trabalho de docente naquela escola. Os alunos sempre a ouviam falar mal do diretor do colégio ao celular enquanto simultaneamente fumava pelos corredores.

Com os olhos inchados, uma apostila, cadernos e sua caderneta apoiadas no colo adentrou a sala empurrando um dos alunos que derrubou acidentalmente pó de giz em seu jaleco amarelado.

Marta Angel parecia arrogante, mas não tinha um ego inflado ou necessidade de atenção ou de autoridade, simplesmente sentava na cadeira de professor, passava alguma atividade leve e ignorava os “moribundos”, como sempre se referia a seus alunos.

Especialmente naquele dia havia trazido um apagador, ao invés de pedir emprestado na sala ao lado. Enquanto os alunos todos bagunçavam pela sala, arremessando bolinhas de papel mastigadas, bananas, laranjas e outros objetos e frutas, a professora solicitou que Érico — então distraído, escrevendo cartinhas de amor — que apagasse a lousa para ela, para assim, poder iniciar alguma explicação na lousa ou passar algum texto.

Érico relutou por um instante, mas, obedeceu, após dobrar cuidadosamente seus bilhetes e depositá-los no bolso de trás da calça. Começou a apagar a lousa, da esquerda para a direita, em movimentos circulares enquanto alguns objetos voavam para perto de si. Érico concentrou-se numa região da lousa e começou a apagar lentamente.

A lousa estava completamente suja e cheia de escritos, pichações eróticas, apologia às drogas, nomes de bandas de rock e grupos de rap.

Dentro de toda aquela sujeira, Érico limpou parte da lousa em formato de coração, e nela escreveu os dizeres com letras de forma: “EVANGELINA, MINHA PEIXINHA, QUER NAMORAR COMIGO?”.

Um alvoroço começou a surgiu e Érico ficou olhando para Evangelina que ainda não havia percebido os dizeres, pois se encontrava distraída com fones de ouvido ao som de algum artista pop do momento.

Os alunos começaram a perceber em massa, o riso era geral, Érico se prostrou perante a mesa de Evangelina, a primeira da quarta fileira a partir da janela e tirou do bolso, junto com seus bilhetinhos um origami de uma rosa e entregou a sua amada. Os alunos rolavam de rir e atiravam bolinhas de papel e comida em Érico, que firme como numa prova de resistência, permanecia imóvel esperando a resposta e ela logo veio: um tapa na cara bem forte que ecoou em meio ao silêncio que a turma naquele exato instante fez.

Érico caiu ao chão e mesmo acordado, permaneceu imóvel com a boca no chão enquanto os risos ecoavam como uma sinfonia descompassada.

Evangelina sorriu maleficamente, levantou-se e começou a gargalhar, moveu-se para perto de Érico e rasgou seu origami enquanto os resíduos de folha de caderno caíam no rosto do garoto apaixonado. Naquele momento até a professora, fria como uma nórdica, ficou boquiaberta.

 

 

Capítulo 3 – Cartas para o seu amor

O baile de verão estava por vir, Érico, por valorizar em demasia os eventos sociais — apesar de ser humilhado em todos eles — precisava provar a todos que não era um fracasso e preparou-se para uma grande missão: encontrar alguma garota disposta a dançar com ele no evento. Mas, quem? Quem toparia sair com ele? Apenas uma garota poderia em alguma hipótese sair com ele. Mas, era última opção.

Érico era persistente, sua prioridade era, obviamente, Evangelina, a qual ele carinhosamente chamava de peixinha, este apelido nasceu de um dia em que todos gritavam na sala chamando-a de piranha, por ter copulado carnalmente com dois times de futebol de salão do colégio, e Érico, para consolá-la de sua amargura, chamou-a carinhosamente de peixinha.

Érico não guardava mágoas, Evangelina era seu amor platônico, sua paixão súbita. Na tentativa de chamá-la ao evento para ser seu par, Érico começou a escrever uma carta de amor para seu possível par que consistia nos seguintes dizeres:

Seu pai é uma rosa

Sua mãe é um jasmim

Vamos ao baile comigo?

Te amo.

Érico havia escrito a carta em papel reciclado, meio amassado, que ele dizia ser o preço do amor, pois acreditava que bens e posses nada valiam para um homem, apenas seu caráter e valor ilibados.

Durante a aula de história, daquele primeiro ano do ensino médio, pediu a uma amiga da frente, Jussara, que a entregasse a Evangelina, o que fez com prazer, por supostamente saber da humilhação que este sofreria. Era um prazer a todos os alunos, ver Érico ser humilhado em frente aos demais.

Enquanto Jussara se distraía a entregar o papel meio amassado para Evangelina, Érico cometia um de seus pequenos delitos, roubava-lhe uma caneta. Para sua mãe, era um ladrãozinho vagabundo, mas, para ele, estava ciente que era um cleptomaníaco, como havia lido num artigo na Wikipédia. Sua mãe era a única que acompanhava seu problema psiquiatríco, visto as confusões que o garoto havia passado em outro colégio. Érico foi transferido ao colégio Eunuco Eutanásio justamente por ter sido expulso de seu colégio anterior em função de ter roubado um pato de enfeite do escritório da diretora.

Entregue a carta, Evangelina sorriu, o deboche era gigante, após alguns minutos, levantou-se de sua cadeira e fez um escândalo, dizendo estar sendo assediada e molestada pelo “Merdinha”. O professou de história assustou-se e concordou com a garota e com unhas e dentes, como um servo fiel, pôs-se a defendê-la do “sistema patriarcal opressor da sociedade machista” e colou a cartinha de amor de Érico na lousa, causando-lhe constrangimento perante todos.

Seu professor, Ostovaldo Sinbuelas, era um militante partidário, freqüentemente saía às ruas sem camisa com os dizeres pintados nas costas: “Ei, machão, me estupra”. Certa vez escreveram “estrupa” em suas costas, causando-lhe constrangimento quando foram publicadas as fotos na internet.

Érico estava consternado, na noite anterior, havia sonhado estar dançando com Evangelina num grande salão. Tinha uma sensação gigante de que ela diria sim, cansada dos insultos das pessoas e daquela vida, pensou ele, que ela tomaria jeito e iria querer um homem “direito”.

Por que pensava aquilo? Por que tudo o que ele acreditava era irreal? Por que tudo para ele era diferente das novelas que assistia? Das animações de príncipes e plebéias? Pensava ele, cabisbaixo na sala.

Érico tentou descer para o intervalo, mas, um de seus colegas de sala colou em suas costas uma folha escrita: “Chute meu rabo!”, então todos os amiguinhos de sala lhe começaram a espancar, obrigando-o a não descer. Sentiu vontade de ir ao banheiro, pegou sua carta de amor e a levou ao reservado.

Sentia-se frustrado, amargurado, caminhava em passos lentos ao banheiro do segundo andar, onde ficava sua sala, olhando o bilhete em sua mão. Érico dificilmente se importava com as coisas, sempre as afetavam pouco, mas, parecia que naquele instante, em que todo o seu plano havia descido pelo ralo, a pancada da vida havia sido maior. Uma lágrima caiu de seu rosto em cima do bilhete. Ao cruzar a entrada do banheiro um garoto de outra sala o viu chorando:

— Veadinho! Bicha!

Entrou ao banheiro, enxugou as lágrimas e defecou com a porta entreaberta. O mesmo garoto que o ofendera abriu a porta e tirou uma foto do mesmo enquanto evacuava. Érico não ligou muito. Não conseguia encontrar papel higiênico, então, sua única saída foi limpar seu reto com a cartinha de amor que escrevera para Evangelina.

Lavou as mãos e ouviu um alvoroço do lado de fora, dois garotos riam enquanto olhavam para um celular. Moveu-se até eles e num movimento súbito, deu um golpe no celular que caiu ao chão e despedaçou-se. Os garotos, boquiabertos, nada fizeram.

Acontece que ele havia destruído o celular errado, não foi aquele que havia feito a foto de Érico em posição desconfortável, o verdadeiro culpado ria do outro lado do corredor. Destruído emocionalmente, voltava à sala com um prejuízo em mãos para quitar.

Entrado na sala, havia nesta apenas uma garota, sentada nos fundos, meio amargurada, seu nome era Chatália. Merdinha não faria aquilo, mas, aquele dia, aproximou-se e sentou uma cadeira a frente da moçoila e puxou algum assunto com ela.

— Que faz na sala?

— Nada.

— Ok.

— E você?

— Não senti vontade de descer.

— Nem eu.

Ficaram entreolhando-se, sem assunto, mas, Érico sentiu alguma coisa ali, era como se o destino tivesse querendo lhe dizer alguma coisa. “Mas, o destino realmente existiria?” Pensou. “Era besteira”, concluiu.

Érico levantou-se e rumou-se para sua cadeira, despedindo-se da garota estranha, após a mesma confirmar seu excêntrico nome, “Chatália”, a qual ele demonstrava ter algum apreço.

 

 

Capítulo 4 – Um professor desistente

Naquele dia, sua aula de violino estava marcada para as treze horas. As aulas eram feitas no pátio inferior, as aulas de música eram opcionais na grade escolar, mas, a necessidade de haver professor disponível era obrigatória, através de uma nova lei estadual.

Érico chegou à sala, abraçado de seu estojo, sentou-se, seu professor nada disse. Afinou seu instrumento em silêncio, amargurado e fora recepcionado por seu professor de forma direta e concisa:

— Lamento Érico, não dá mais. Eu tentei de tudo, não posso ficar aqui lecionando apenas para você. — Enfatizou o elegante, garbo, porém estranho professor.

— O quê? Como assim?

— Lamento, mas, estou de partida. Os últimos dois meses eu aqui permaneci imaginando que você pudesse mudar e tornar-se, talvez, um bom músico, porque genialidade eu sei que você não tem. Desculpe-me a franqueza.

— Não faça isso, Gil, violino é minha vida, por favor.

— Não é, Érico. Violino não é sua vida. Você infelizmente não se dedica, e estar somente com você como aluno é simplesmente frustrante, espero que com minha franqueza você mude, porque eu não poderei mais te ajudar.

Érico pôs-se a chorar.

— Seja homem, Érico. Aprenda a enfrentar os desafios da vida para o seu próprio bem.

O professor abriu a porta, deixou-o só lamentando e rumou para a diretoria enquanto era seguido por uma aluna.

“Droga, onde deixei minha caneta?” Pensou, apalpando os bolsos.

Quando o professor abriu a porta para adentrar a sala dos professores, eis que a aluna o interrompeu. Era Chatália.

— Posso ajudar-lhe, moça? — Indagou o mestre.

— Desculpe a intromissão, ouvi que o senhor está abandonando a música neste colégio por ter apenas um aluno. E se eu também estudasse música com o senhor? — Indagou a moça, entusiasmada como se quisesse prestar um favor a Érico.

— Eu lamento. Não há nada que possa fazer, a menos que me consiga pelo menos dez alunos…

— Dez?

— Sim, dez.

— Professor, eu conseguirei os dez alunos, só me prometa que não contará nada a Érico, por favor.

— Se conseguir os alunos, ficarei…

Chatália estava determinada a conseguir os dez alunos para o professor Rubens Gil e já sabia como fazer isso, espalhando cartazes incentivando a vinda para o curso de música do colégio e conseguir aquilo para ela era fácil.

Ela era uma garota nada discreta, apesar de portar uma vestimenta clássica, em dias normais gritava o tempo todo, puxava assunto com desconhecidos, respondia professores e tinha ciência de uma certa sensualidade excêntrica que portava, além de demonstrar em sala de aula ter um interesse ávido por favelados.

Chatália era péssima em computação, sempre cabulava suas aulas de informática para encontrar-se na sala de vídeo com os moleques da “Família Zica” e dos “Manos Colômbia”. Sabendo disso, não poderia elaborar o panfleto de chamada para atrair novos alunos. Então, de forma excepcional, participou da aula de informática naquela quinta-feira e jogando seu charme excêntrico em cima de um “nerd” conseguiu um grande favor.

— Oi, docinho. Você é o Arnandinho, não?

— Co… Como?

— Eu sou Chatália, prazer. — Disse enquanto apertava as mãos do “nerd” de forma leve e macia.

— Ah…

— Preciso de um favor seu, pode me ajudar?

— Po… Posso.

— Gostaria que criasse um cartaz para mim… — Então, Chatália, usou seu dotes femininos para conseguir que o garoto fizesse o cartaz para si. Naquele dia, seu decote e sua saia curta deram resultado. Sabia usar seu corpo em seu favor.

“Vou conseguir que o professor não desista, para não frustar Ériquinho, custe o que custar, conseguirei”. Pensou.

 

 

Capítulo 5 – Um reserva muito louco

Estavam no mês de junho, era a época do campeonato intermunicipal de futebol de salão, era semifinal, e por uma cota implantada na escola para alunos afro-brasileiros, Érico conseguiu entrar para o time, esteve presente em todos os jogos, porém, em todos eles, ficou na reserva com seu colete vermelho. Érico sequer sabia jogar futebol, mas, as regras do colégio eram claras com relação à presença de qualquer minoria dentro dos times, inclusive havia um aluno que fingia ser gay apenas para obedecer à cota.

Érico mal prestava atenção ao jogo, sabia que a confusão estava instaurada pela dificuldade do duelo com o colégio Euclides Cajado, e o empate naquele quase final de jogo deixava a situação ainda mais tensa. Chatália estava na arquibancada, colada à grade, torcendo para ele. Evangelina também estava presente, perto de Chatália conversando com suas amigas.

Num momento decisivo do jogo, o melhor jogador da equipe, Ronaldo Sobraldo, quebrou a perna e teve uma forte fratura. Tirado de quadra pela torcida e socorrido, não deixaram o jogo parar. Érico foi colocado no jogo sob tensão total para os torcedores-estudantes, já que até os outros reservas haviam sido expulsos e ele era a única alternativa.

— O que esse merda está fazendo em quadra?

— Tira esse lixo daí!

— Fora, macaco! — Gritavam em coro.

Foram alguns dos insultos que Érico ouviu e ainda assim, não se vitimou. Não se deixou humilhar, tentando lembrar-se das regras do futsal que vira pela internet, Érico, numa energia súbita que emanou de seu ego, pegou a bola e num chute estranho e sem jeito a bola fez uma curva de perto da área e foi parar no fundo das redes.

O silêncio era total. Só se ouvia Érico gritando, pulando e dedicando o gol a sua amada:

— Evangelina, eu te amo! Eu te amo! Meu amor, esse gol é para ti! — Pensando que algum heroísmo chamaria a atenção da garota. O que Érico não havia percebido é que ele havia marcado um gol no próprio goleiro. Havia marcado um gol contra.

Naquele momento, pessoas começaram a pular a grade para espancar o garoto. O colégio não ganhava um título há dez anos e aquela foi a melhor equipe que o colégio conseguiu formar, com boas chances de levar o caneco e restaurar a auto-estima daquela escola.

Os guardas tentaram intervir para proteger o garoto da fúria das massas, mas, até eles se indignaram e chutaram o garoto. A multidão invadiu a quadra, quebrou o portão e espancou Érico que ficou agonizando no chão. Com receio de ter matado o garoto, a massa dispersou-se.

Érico foi levado às pressas para o hospital municipal. Poucos se preocuparam: “vaso ruim não quebra”, foi o que disseram. Estava em estado complicado devido ao ódio da multidão explodindo sobre seu crânio.

O garoto rumava numa maca no hospital municipal, a maca não tinha rodinhas, então ele precisou ser carregado como se fosse um caixão. O garoto era impressionantemente resistente. Ainda resistia, mesmo sangrando pela boca e pela nuca.

Depois de um procedimento médico de aproximadamente duas horas, Érico já estava são e conversando com seu médico.

— Como tu foste se envolver em tamanha confusão, garoto?

— Não sei doutor… Não foi a primeira, tampouco a última.

— Precisa tomar cuidado, precisa sair dessa vida.

—…

— Olha, não estou te condenando, mas, a sociedade não vê isso com bons olhos.

— Doutor, do que está falando?

— Deixemos para lá, filho. Só não se faça de vítima. Você é mais forte do que isso.

Após o papo confuso, Érico já havia recebido alta, não foi exatamente nada tão grave, mas, deixou alguém bastante preocupado no colégio: Chatália.

 

 

Capítulo 6 – Um crime descoberto

Dois dias após o incidente Érico foi recebido de volta na escola durante o intervalo. Na abertura dos portões, foi recebido em silêncio no pátio, a escola toda parou, em silêncio observavam a entrada do garoto, todo inchado, cheio de hematomas e curativos espalhados por todo o corpo sendo acompanhado por dois seguranças do colégio até o diretor.

Rumou até a direção da escola, onde teria um encontro com “Seu João”, o diretor, que não se encontrava no momento. A reunião acabou sendo com a vice-diretora, Rose Frescunélia.

Os dois trocaram uma rápida conversa, enquanto Érico permanecia em pé, a vice-diretora Rose não dava muita atenção, por não gostar da postura do garoto. Lhe deu algumas instruções para evitar confusão, culpou-o pelos incidentes e rapidamente o liberou. Érico aproveitou um delize da professora e afanou-lhe duas coisas, uma bela caneta e uma rosa que estava num pote perto da estante. Érico foi dispensado.

— Está dispensando, Érico, volte para sua turma.

Ao voltar à sala, subiu lentamente as escadas rumo ao segundo andar, onde voltaria as aulas normalmente. Em posse de uma rosa, abriu a porta e foi recepcionado pelo mesmo professor de história.

— Você? Entre… Sente-se em sua cadeia.

Érico não havia percebido, mas, enquanto conversava com o professor, Tulio, que sentava ao lado, pintava sua cadeira com branquinho desenhando um phalus erectus no assento.

Antes de repousar-lhe à cadeia sob vaias e menosprezo da turma, entregou a rosa para Evangelina que novamente queixou-se com o professor.

— Mas, esse moleque não aprende? Vem aqui Érico. A sociedade patriarcal machista opressora, representada por cidadãos como você é que tanto afetas boas moças e pessoas como Evangelina que são perturbadas todos os dias por pessoas como você que apenas a vêem como um pedaço de carne.

— Mas, professor… Eu…

— Sem mais! Cale a boca, tire a camisa e fique de costas para a parede.

— Mas, o quê?

— Agora! — Gritou o professor com autoridade.

— Érico tirou a camisa desbotada que havia recebido de aniversário de sua avó e ficou de costas para a parede. O professor, com guache, escreveu em sua lombar: “Sou machista opressor”.

No instante em que voltava a explicar a matéria, com Érico sem camisa com um chapéu de palhaço cheirando a parede, a aula foi interrompida pelo Diretor João e pela vice-diretora Rose.

— Onde está Érico? — Perguntou a vice-diretora.

— Está ali. — Apontou o professor.

— Quem lhe deu autorização para humilhar seus alunos com esses dizeres, senhor Ostovaldo Sinbuelas? — Bradou com autoridade o diretor João.

— Desculpe, diretor, mas, se alguém não ensinar para esse garoto os males da sociedade patriarcal… — Enquanto explicava acabou interrompido pelo diretor.

— Lamento informar, Ostovaldo. Se o senhor é uma bicha, isso é assunto seu. Ninguém tem nada a ver com isso. O senhor está suspenso de suas atividades como professor no colégio Eunuco Eutanásio até segunda ordem. Recolha suas coisas. Não se humilha um aluno perante os demais baseado em suas crenças ideológicas estúpidas.

— Mas, diretor…

— Cale a boca!

— Érico, me acompanhe, por favor. — Explanou a vice-diretora Rose.

Érico desceu as escadas junto com os diretores e estavam em profundo silêncio quando o diretor João quebrou-o:

— Não subimos a sala para te defender, precisamos tratar de outro assunto.

Quando chegaram à diretoria, havia dois policiais da Ronda Escolar os aguardando, rumaram para a sala do Diretor, acompanhado dos policiais.

— Érico, você pode ser o rapaz mais atrapalhado do mundo, mas, uma coisa eu admirei em você desde o tempo em que te observei aqui, a sua capacidade como homem. — Bradou o diretor, sob o silêncio de Érico, sentado e assustado. — Nós demos falta de um objeto importante que foi subtraído da diretoria hoje e gostaríamos de perguntar se você sabe quem o subtraiu.

— Um objeto, diretor? — Perguntou em voz baixa.

— Uma caneta tinteiro. Uma Mont Blanc, avaliada em dois mil reais, de valor inestimável para mim, pois ganhei de meu pai em seu último ano de vida.

— Uma caneta vale tanto assim?

— Vale, meu jovem.

— Eu não saberia… Eu, eu…

— Revistem-no! — Gritou a vice-diretora Rose.

Os policiais prontamente revistaram Érico e acharam a caneta tinteiro em sua cueca. Érico estava preso por furto.

— Podem levá-lo! — Exclamou Rose, para a decepção do diretor João.

Érico foi levado, enquanto esperneava e gritava ao ser levado.

*

O professor e maestro Rubens Gil adentrava sua sala para cumprir seu horário e ao acender a luz deparou-se com uma grande surpresa. Chatália havia conseguido mais de vinte alunos interessados em aprender música para o professor. Curiosamente, a maioria eram jogadores de alguns times de futebol de salão do colégio.

— Estou espantado, surpreso, Chatália! Conseguiste em alguns dias o que eu não faria em vários. Estou espantado com sua eficiência. — Disse o professor, enquanto os jogadores se entreolham.

— Não foi nada, professor. Mas, onde está Érico? — Perguntou Chatália. — Não está aqui com o senhor?

— Eu lhes faço a mesma pergunta. — Não o vi hoje.

A sala de música ficava bem ao lado da diretoria no pátio inferior e o professor Rubens Gil chamou o diretor. Em pouco instantes a situação estava para ser esclarecida, o diretor chegou pronto a fazer um pronunciamento:

— Lamento, alunos, mas, Érico foi preso, foi levado à polícia militar acusado de furto. Ele não faz mais parte desse colégio.

 

 

Capítulo 7 – Fazendo amigos na detenção

Érico estava numa pequena cela aguardando os trâmites legais de sua prisão. Havia com ele dois infratores: um velho senhor de barbas brancas e um jovem rapaz traficante que delirava em sonhos profundos. Érico, apesar de ser menor de idade, foi colocado em uma cela comum da penitenciária da cidade.

— Olá, meu jovem. Seja bem vindo. — Cumprimentou-o, o velho.

— Obrigado, senhor. — Respondeu-o, ainda com os olhos vermelhos resultado do choro.

— Sem formalidades, meu jovem. Sente-se.

Érico sentou-se e pôs-se a conversar com o velho barbudo de apelido “Noel” que lhe deu alguns conselhos.

— Você provavelmente vai cumprir pena na FEBEM, por ser menor de idade, em dois dias te tiram daqui.

— Dois dias? FEBEM?

— É, meu caro. Dois dias. Sim, você será enviada para a Fundação, e de lá não sairá por um bom tempo, apesar de este país proteger o menor, um pouco de sofrimento o aguarda. O que fizeste? Assassinato? Estupro? Terrorismo? Latrocínio? Roubo? Conspiração?

— Não… Nada disso. Eu roubei uma caneta.

— Roubou uma caneta, jovem? Sei…

É sério, sei que parece absurdo, mas, parece que era uma caneta valiosa, feita de ouro sei lá mais o quê…

— Claro, claro.

— E você, Noel, por que está aqui?

— Invadi uma casa… Pela chaminé. Os vizinhos acionaram a polícia e cá estou eu. Amanhã serei transferido ao Carandirú.

— Invasão a domicílio. Isso é terrível, senhor.

— Olha quem fala… O ladrãozinho de canetas. Diga-me, por que roubaste a caneta?

— Eu não sei… Tenho essa mania, e ela se acentua quando estou apaixonado. Amando, sabe…

— Amando? Quem é a garota?

Os dois conversaram sobre Evangelina por uns dez minutos, Érico contou a história sobre o apelido de “peixinha”, os trejeitos da garota, o esforço que fez para conquistá-la e nada deu certo.

— Mas, você é um grande veado, meu rapaz. Tem agido como uma bichinha apaixonada, elas nunca te respeitarão se agir como veadinho.

— Como assim, Noel?

— Entregou cartinha para uma garota que não dava bola para você? Dedicou um gol a uma garota que o menospreza? Deu-lhe flores? Qual é o seu problema? Diga-me, a vadia cai de amores por alguém?

— Sim, ela gosta do Marcão Caveira. Ele foi suspenso duas vezes, é o maior baderneiro da escola, a humilhou algumas vezes, ele a chamou de piranha na frente de todos… Não entendo, fico revoltado, como ela pode gostar de um animal que a humilha e me desprezar tanto?

— Lamento, Bunda Fresca, mas, você não tem percepção da realidade. Acho que passou muito tempo assistindo novelas.

— Sim, sim, eu gosto, sim.

— Tem feito tudo ao contrário, lembre-se, nem tudo é o que parece. Dou-lhe um conselho: Seja homem.

— Obrigado, velho, me ajudou bastante.

Algumas horas se passaram e o guarda da prisão chamou Érico aos gritos:

— Érico Oliveira, tens visita.

— Visita? Só pode ser minha mãe.

Érico foi transferido para uma ala destinada a visitações. Era ela, Chatália.

— Chatália, a garota da sala? O que faz aqui?

— Vim te ver.

— Me ver?

— Não se acanhe. Você é um garoto diferente, um menino especial. Consegui que o professor Rubens não abandonasse as aulas de música.

— Você fez isso?

— Não foi nada, só queria ajudar.

Chatália e Érico conversaram por alguns instantes. Érico não entendia o motivo do interesse repentino de Chatália por ele.

— Érico, quando tempo ficarás aqui?

— Ainda não sei…

— Queria te dizer que sei que foi você que roubou minha caneta. É um gatuno profissional, Érico. — Disse Chatália, enquanto esfregava lentamente suas pernas nuas contra as pernas do prisioneiro.

— Não entendo… O que quer dizer?

— Não se preocuope, não quero diminuir sua coleção de canetas. Provavelmente você ainda não tinha uma caneta com tinta rosa.

— Nem sei o que dizer, Chatália.

— Não diga nada. — Chatália, ao terminar de dizer as palavras, inclinou-se de leve contra Érico e o beijou intensamente.

— Ei, mocinha, saia de cima da mesa! Agora! — Gritou o guarda, interrompendo o ato.

— Espero que saia logo daqui, tenho uma proposta a lhe fazer. — Concluiu, enquanto era levada por um guarda a parte externa da penitenciária.

Érico ficou confuso, absolutamente embasbacado. A última vez que beijara uma garota estava na segunda-série. O que será que Chatália queria para tratá-lo daquela forma, tão bem? Abandonaria suas pretensões com Evangelina para dedicar-se exclusivamente a nova pretensa?

 

 

Capítulo 8 – Um ato heróico

Havia uma semana que Érico estava preso, nada evoluiu, sem notícias. Sentia-se abandonado pelo mundo, se não fosse pelas visitas de Chatália. Aquela era tênue quinta-feira ensolarada, quando foi notificado da visita da misteriosa garota.

O velho Noel havia sido transferido para o Carandiru e apenas seu companheiro traficante dorminhoco lhe servia de companhia entre uma hora e outra. Mal se falavam.

O saguão de visitas era enorme, e nele podiam ser vistos uma família visitando o pai ladrão, uma garota magra, de cabelos encaracolados visitando o irmão traficante viciado, um ex-policial viciado e assassino sendo visitado por sua mãe e lá estava ela, sentada na mesa, sem demonstrar nenhuma emoção: Chatália.

Érico começava demonstrar certo receio pela garota, poderia depositar nela esperanças de dias melhores? Poderia confiar nela como uma potencial mulher a quem poderia namorar; ter um relacionamento; copular, casar e ter filhos? Por que estaria ele pensando aquilo?

— Olá, como tem passado?

— Eu não sei… Estou desesperado nesse lugar.

— Relaxe, olha o que eu trouxe pra você, um bolo de limão, fui eu que fiz.

— Sabe cozinhar?

— Sei sim… Você aposto que só sabe fazer miojo.

— Miojo e água quente.

Os dois tinham conversas absolutamente sem valor ou significado, estava claro que havia algo mais naquela interação. Chatália preparava-se para beijá-lo quando foram interrompidos por um forte barulho vindo dos céus.

Algo bastante grande havia acertado parte do telhado que começou a desmoronar. Seu companheiro de cela e sua irmã, em visitação, seriam acidentados pelos gigantes cacos de telha que cairiam sobre eles.

Percebendo o que estava prestes a suceder, Érico levantou de sua cadeira e com grande velocidade, sem se importar com o traficante, salvou sua irmã que o visitava de ser desfigurada por um caco de telha gigante que se desprendia do teto. Érico caiu ao chão e foi atingido por diversos cacos e por pedaços do que parecia ser fragmentos de um bimotor.

Os guardam se moveram imediatamente para o local onde Érico estava, todo perfurado e sangrando, foi agradecido pela garota enquanto escoltada por guardas:

— Obrigada. — disse a garota. — Sou Dailane.

Érico não conseguia responder, estava sem fôlego algum, enquanto os guardam faziam a devida apresentação à garota, Érico, todo ensangüentado, enquanto esperava por atendimento médico, moveu-se vagarosamente até a cadeira de Chatália que não havia movido um músculo enquanto o acidente se desencadeava.

— Quem é aquela piranha? Quem é aquela puta? — Perguntava Chatália.

— O quê?

— Por que você a salvou?

— Eu… Não sei, só vi acontecendo e fui. Não sei.

— Eu vou embora, estou com dor de cabeça. Até outro dia.

Enquanto Chatália se despedia com seus motivos irracionais, Érico caía ao chão e era socorrido pelos médicos da prisão.

 

 

Capítulo 9 – FEBEM

Dois dias após o incidente, Érico havia sido transferido. Andaria mais uma vez no camburão e aquela sensação péssima voltava a ele. Começaria a cumprir sua pena no pior presídio para menores do mundo, a FEBEM, um lugar sem leis.

Ao descer do veículo, foi escoltado ao interior do recinto onde entregou alguns pertences e passou por diversas grades e ouvir aquele estralo dos portões se fechando em suas costas.

Érico foi empurrado por um guarda para o interior do grande pátio. Paralisou-se e prostrou-se ao chão. O lugar era imenso, completamente pixado com menções à facções criminosas. Havia brigas por todo o espaço e colchões pegando fogo. O lugar estava em rebelião eterna e os guardas não moviam um dedo. Parecia haver uma norma: os guardas não se metiam com os detentos e vice-versa.

Perplexo, começou a passear pelos corredores, o uso de drogas era contínuo e Érico começou a lembrar de sua infância. Com dez anos, por influência de um primo marginal, ganhou um pequeno pilão e aprendeu a preparar o que foi o seu maior vício durante um breve período: Soda cáustica. Érico lembrava-se com horror dos tempos em que ajoelhado a beira da cama socava o pilão para moer o produto e depois, com suas narinas, sugá-la para dentro de seu corpo com a força que ainda lhe restava. Com tenra idade a droga corroeu parte de seu cérebro e tornou o futuro intelectual a ser apenas mais um lesado a jogar o futuro no lixo em troca de um prazer momentâneo.

Érico sentiu-se naquele momento, assim como em tantos outros, um grande imbecil. Aquele era seu fardo. Usou a droga por apenas dois meses e entrou em coma, com o hidróxido de sódio corroendo parte de seu cérebro. Érico foi freqüentemente menosprezado após isso por ter-se tornando estrábico em função do uso excessivo de soda cáustica, aliado de seu comportamento no colégio no período pós-drogas, resultando em limitações, começou a ser chamado, inclusive por seus professores, de Retardado.

Lembrou-se de tudo o que passou na escola, no sanatório e em duas clínicas de reabilitação públicas, nunca se importou com a zombaria. Talvez a soda cáustica tivesse destruído a parte do cérebro que se importava com isso. Era o que pensava.

Naquele momento, mais do que qualquer outro, Érico precisava ser forte, sabia disso, era o pior momento de sua vida. Precisava fazer o que sempre fez: levar aquela situação com tranqüilidade, coisa que ele fazia muito bem, mas, pela primeira vez estava sentindo algo que nunca sentiu: medo.

Sua cela era a de número 71, que ficava no andar de cima, rumou vagarosamente evitando contato ocular com qualquer arruaceiro, passava por todos eles enquanto chutavam outros detentos no chão, tacando fogo em papéis ou plásticos e fazendo algazarra. Érico desviava de muitos detritos fétidos, havia fezes por todo o recinto, o cheiro era praticamente insuportável.

Em sua cela havia uma cama beliche, mas, não havia colchão, que os detentos haviam queimado. Érico deitou-se e começou a refletir enquanto alguns detentos da cela ao lado urinavam em sua roupa para lhe dar as boas vindas.

Após o banho quente de urina Érico pôs-se a pensar no papel a qual a vida lhe desempenhara.

Dois dias se passaram e a situação se tranqüilizou no presídio, Érico conseguiu se enturmar com um grupo de jovens estrábicos que o respeitavam e o protegiam, tentou ao máximo evitar conflitos e começou a entender a política que regia o lugar: “se cada um cuidar do seu não haverá problemas”, foi o que lhe disse um garoto enorme.

Mais alguns dias havia se passado, sua mãe, dona Eleanor, soube de sua prisão e foi visitá-lo na cadeia. Sua mãe era uma senhora de aparentes sessenta anos, uma dona já usada pela vida, desgastada e de poucas palavras, uma senhora deprimida com uma voz extremamente fanha e rouca. Demonstrou tristeza profunda com a prisão do filho, mas, este parecia decidido, não se importou com a tristeza da mãe e lhe fez alguns pedidos.

— Mãe, como sabe a senhora, estou encarcerado e não sei quando vou sair daqui, mas, preciso que faça algo por mim. — Sua mãe nada disse, parecia extremamente frustrada, porém, disposta a realizar os pedidos do filho único. — Utilize meu bolsa-presídio concedido pelo governo federal para suas despesas com seus remédios e use o Bolsa Cultura para me comprar livros, lhe farei a listagem dos livros que preciso, os temas são diversos.

— Tudo bem, meu filho, tudo bem. — Concordou a mãe, em poucas palavras.

 

 

Capítulo 10 – A rotina atrás das grades

Érico sabia que com o Bolsa Cultura não poderia comprar grandes coisas, o dinheiro mal dava para comprar uma revista erótica. Pediu a sua mãe que lhe comprasse um livro sobre química, como não tinha muita idéia pediu apenas isso, um “livro sobre química”, listou outros temas para sua mãe comprar, mas, sabia que não seria possível obtê-lo.

Érico anseava mudar de vida, apesar de estar no pior momento, não queria deixar que aquela marca fosse definir o rumo de sua vida para algo negativo, precisava a qualquer custo criar uma rotina ali dentro que lhe proporcionasse algum aprendizado que lhe fosse útil para sair.

Havia ali dentro um setor privilegiado, a cozinha, pois ela também servia os guardas e a sala de limpeza, que era protegida por servir as alas do presídio onde os internos não podiam se aproximar.

Pensava ele em montar uma bomba, era a única coisa que pensava precisar para sair e extravasar sua raiva à sociedade. Érico tinha um conhecimento razoável em química, já que passou a infância em contato com alguns químicos que eventualmente suas narinas sugavam, mas na prática, não conseguia criar nada útil.

Começou a se enturmar melhor com os amigos estrábicos, em especial com Romualdo Vergalhão, um menino magro e cor de amendoim assim como ele e de cabelos encaracolados, que tinha uma mania compulsiva por desenho. Usava qualquer coisa similar a uma caneta para deixar alguns riscos na parede representando alguma forma qualquer.

— Romualdo, como eu faço para trabalhar na cozinha?

— Ai, mermão, por que quer trabalhar na cozinha, bro?

— Digamos que estou com mais fome que o normal.

— Ai, tio, pra ir pra cozinha tu tem que ser amigo do Mulambo.

— Quem?

— O guarda, o Carlos, ele é amigo do diretor.

Érico ignorou Romualdo por uns instantes e tentou aproximar-se do guarda Carlos durante o banho de sol. O máximo que conseguiu foi um murro na boca por tentar adentrar a ala dos guardas.

— Nunca mais volte aqui, moleque fedido.

Não sabia o que fazer, precisava vasculhar a cozinha para ver se encontrava alguns produtos, mas, nem ao menos sabia o que procurar. Estava batendo-lhe o desespero. “Por onde andaria Evangelina? Será que estaria saindo com outro homem? Onde estaria Chatália, será que o esqueceu? Sua mãe estaria bem? E seu professor de violino? Como estaria o diretor João? Esse era o destino que estaria reservado a ele ser um presidiário, um fracassado?”

Érico se encontrava amargurado, sentado ao pátio com seus amigos estrábicos, começaram a contar algumas histórias, Romualdo começou contando que antes do tráfico era o melhor aluno de química e biologia do colégio, já que seu pai era dono de uma empresa de produtos de limpeza e ele acabou tornando-se especialista em fazer lança-perfume.

— Por que tu não me disseste antes, Romualdo? — Gritou Érico.

Continuaram a conversar e um garoto aparentemente humilde, de nome Cátila, disse que cursava ensino técnico de eletrônica na cidade antes de matar seu pai.

— Você cursava eletrônica? Será que consegue criar um detonador, Cátila? E você, Romualdo, conseguiria montar uma bomba capaz de derrubar uma parede desse colégio? — Indagou Érico entusiasmado.

— Você quer criar uma bomba? Quer sair daqui criando uma bomba? — Gritou Cátila.

— Está maluco? Essas paredes devem ser mais espessas que os cofres do Banco Central. — Completou Romualdo.

— O que você sabe sobre o Banco Central? — Perguntou Érico.

— Nada, só o que vi no filme.

— A idéia é a seguinte, somos menores de idade e logo completamos dezoito anos, podemos fazer o que quisermos, já estamos presos e em pouco tempo já estaremos nas ruas de novo. Não sejam tolos, deixará essa oportunidade que será a maior aventura de nossas vidas passar assim em branco? — Enfatizou com grande entusiasmo. — Cátila, tenho certeza que era um dos melhores alunos de eletrônica de seu colégio, olha pra você, era todo certinho e Romualdo, você mesmo disse, manja muito de química, o que nós temos a perder? Me diga! — Completou em pé, gesticulando bastante.

Permaneciam todos mudou e espantados, tremendo de medo com a possibilidade de criar uma bomba, era só uma idéia, mas, sólida o bastante para parecer real. Havia com eles, naquela conversa, mais um garoto, seu apelido era Ligeirinho, quase não falava, mas, era o gatuno mais rápido da cidade, podia roubar as calças de um prefeito discursando em uma cerimônia de posse sem ninguém perceber. Iriam precisar dele.

Os guardas gritavam mandando todos de volta às celas. Naquela noite, o quarteto foi dormir pensando seriamente em explodir o presídio, escapar e reescrever a história de suas vidas para sempre.

 

 

Capítulo 11 – O plano de fuga

Fugir dali não seria uma tarefa fácil, mas, nada impossível, visto que os guardas não se importavam tanto assim com a segurança do local, muitos portavam celulares, usavam drogas, roupas diferentes, videogames, etc. Praticamente não existia revista aos visitantes.

Érico foi dar uma volta com Romualdo pelo pátio no banho de sol para acertar alguns detalhes quando ouviu o anúncio de que teria uma “visita conjugal”.

— Visita conjugal? Do que estão falando? Nem sou casado. — Indagou ao amigo.

— Parece que foi uma lei do governo federal, mermão… Tá reclamando? Tira lá o atraso, mermão. — Gritou Romualdo.

— Só podia ser Chatália. — Disse.

Passando pelos guardas em direção a sala especial de visitação pôde notar a localização da cozinha, foi solicitado para que assinasse alguns documentos enquanto o guarda Carlos lhe dava um tapa nas costas.

— Puta sacanagem desse governo inútil! Esses marginais delinqüentes precisam é de uma surra nas costas para aprender e não receber mordomias. — Gritou o guarda.

— Pois é, Mulambo, saciar os direitos humanos… — Completou o companheiro.

— Direitos humanos é um soco na cara desses vagabundos. Você não vê esses manifestantes vagabundos trabalhando, mas, em plena segunda-feira você acha esses merdas nas ruas protestando por marginal. Vagabundos… — Completou, revoltado.

Érico ouviu o monólogo de cabeça baixa, foi empurrado para dentro da sala, ao que parecia, Érico havia sido o primeiro contemplado pela nova lei federal. A porta foi fechada e Érico estava na presença da obscura Chatália, a qual começava a lhe atrair mais a cada dia.

— Oi. — Disse.

— Olá. — Respondeu Chatália.

— Não esperava vê-la por aqui… — Completou, um pouco distante.

— Vem cá, moço. — Retrucou Chatália com um olhar suspeito e rindo de canto de boca quando Érico a interrompeu.

— Nós vamos fugir. — Disse, para a surpresa da moçoila.

Érico explicou todos os detalhes que havia em sua mente sobre a fuga e pediu um favor à garota, que lhe trouxesse três bicicletas que ajudaria os demais a fugir.

— Não seria melhor um carro? — Indagou.

— Não… Eu não tenho habilitação. — Completou.

Chatália nada disse, não argumentou, balançou a cabeça concordando e aproximou-se do rapaz e o beijou.

Érico estava um tanto imóvel, mas, mas, a partir dali, sentiu seu ímpeto animal acordando com a presença da garota. Agarrou-a como se personificasse a fúria de seus ancestrais e jogou-a na cama.

— Pára, pára! — Gritou a garota. — Não, agora não… Não posso. — Completou Chatália. — Empurrando as mãos de Érico para longe de seu corpo.

— O quê? — Surpreendeu-se o rapaz.

Naquele instante, Érico estaria contemplando o famoso “doce” que a garota estaria fazendo, super valorizando-se, mesmo tendo ido até ele num encontro conjugal. Érico estava percebendo, estava se sentindo manipulado, mas, preferiu não se importar, sentiu que não valia à pena. Virou as costas e saiu da sala, para o espanto total de Chatália.

— Perdão! — Disse Chatália, enquanto Érico saía à porta.

— Piranha, se está aqui para me fazer perder tempo, nem venha. — Bradou Érico com ênfase, a falta de exatidão o deixou furioso.

— Quem você pensa que eu sou, seu merda? — Completou a garota enfurecida.

— Eu não penso nada e não vou discutir, se pretende me fazer de palhaço vai procurar outro trouxa. — Completou.

— Esse lugar te mudou. — Completou piamente, enquanto via Érico abandonar o local e voltar ao pavilhão.

Érico rumou meio enfurecido de volta a seus amigos no pátio enquanto era agraciado por todos.

— Comedor! — Gritavam.

— Esse é o cara! Machão! — Diziam alguns.

Érico havia ganhado o respeito das pessoas por ter inaugurado as visitas conjugais.

— E aí, cara, como foi, comeu? — Perguntou Romualdo.

— A vadia me fez perder tempo. Deixa pra lá. — Ponderou.

Reuniram-se para pôr em prática o plano de fuga. Ligeirinho havia ouvido os guardas reclamarem certa vez dos pratos servidos aos guardas, e Érico pôs-se a tentar um plano onde diria ser cozinheiro, diria ser especialista em fazer queijos.

— Queijos? — Perguntou Cátila.

— Bom, é a única coisa que aprendi a fazer lendo uns tutoriais na internet. — Completou.

Conversaram imaginando os ingredientes que precisaria para fazer a bomba. Cátila precisaria de pelo menos dois celulares, ele mesmo tinha um e pegou o outro de Romualdo, precisariam agora de nitroglicerina e mais alguns componentes químicos.

Após alguns instantes Érico foi ter-se com o guarda Carlos.

— Ei, guarda, não tem um emprego pra mim na cozinha? Sei cozinhar… Soube que estão precisando de um bom cozinheiro. Não sei como vocês comem essa gororoba.

— Hahaha… Comedor, comedor. Então, quer dizer que tu sabe cozinhar? — O guarda Carlos parecia ter respeitado Érico em espelho ao comportamento dos detentos que passaram a enaltecer o rapaz por ter-se encontrado com uma guria na conjugal.

— Sim, eu sei, com especialidade em queijos.

— Tu sabes fazer queijo, comedor?

— O pai da minha mãe é mineiro, aprendi a fazer queijo desde criança.

— Vamos fazer um teste com você, quero comer esse tal queijo que tu dizes saber fazer.

— Não vai se arrepender, só precisa trazer alguns ingredientes.

— Está bem, comedor, diga-me quais ingredientes.

— Leite, sal, nitroglicerina…

— Nitroglicerina? Está maluco?

— É, sim, sim. É para deixar o queijo com sabor explosivo.

— Acha que eu tenho cara de palhaço?

— Se não quiser, guarda, tudo bem. Mas, posso fazer um queijo diferente de tudo o que já comeu. A quantidade de nitroglicerina é pouca, quase imperceptível, só para dar sabor mesmo, eu sei do que estou falando. Ganhei dois prêmios de culinária com meu trabalho. Nem devia estar te contando isso, já que é um ingrediente secreto…

— Se me sacanear, seu lixo, o farei comer sua própria merda.

— Não vai se arrepender. — Garantiu.

Érico comemorou, enquanto via Cátila preparar um detonador com as peças do celular e de uma televisão antiga jogada ao pátio, usaria o bluetooth do celular para ativar o explosivo.

Romualdo fazia alguns desenhos detalhados do plano e preparava a fórmula que faria o composto explodir, estava testando as doses com água em pequenos potes encontrados no lixo do pátio e algumas sacolas. Ligeirinho os ajudava conseguindo os componentes que precisavam e furtando de alguns detentos algumas peças que poderiam ser usadas no plano.

*

Dois dias se passaram e Érico começaria a fazer o queijo para o guarda. A realidade é que jamais havia ganhado prêmio algum, muito menos sabia fazer um queijo. Então, Érico, supervisionado por Carlos e mais Rafael, um guardinha franzino, começou a preparar, criou uns pequenos moldes com um ralador de coco e uma sacola, picou cebola e arroz cru, bateu leite na batedeira, misturou leite com óleo, canela, pimenta e tudo o que via pela frente.

— Seu doente, você sabe o que está fazendo? — Perguntou o guarda Carlos.

— Tenha paciência, seu guarda, este é sem dúvida o melhor queijo que já comeste.

— Não comi nada ainda.

— Mas, vai comer.

Érico estava preparando o queijo junto com ligeirinho, e perguntou ao guarda onde estava a nitroglicerina. Recebeu-a das mãos do guarda num pequeno pote.

— Se o diretor souber disso eu estou morto, peguei isso no depósito, não vai me ferrar, seu moleque.

— Não se preocupe, guarda Carlos.

Érico disse estar colocando a substância no queijo, realmente numa quantidade bem pequena, a meleca do suposto queijo estava numa forma de bolo, pastosa e com cor alaranjada. Legeirinho, que poderia trocar a gravata de um pastor evangélico sem ser notado, transferiu o conteúdo do frasco para outro recipiente enquanto Érico distraía o guarda Carlos lhe explicando que a consistência do queijo antes de pronto realmente era realmente aquela e com uma tonalidade alaranjada. Carlos desconfiava.

— Não acredita em mim, guarda? Alguma vez eu dei mancada?

— Você entrou aqui o mês passado, zarolho.

Éricou explicou que deveria deixar a massa na cozinha e pegá-la em algumas horas para experimentar. Foi o que fez, saiu da cozinha, e com o pretexto de deixar os detentos experimentarem primeiro, pegou algumas porções e levou para os amigos, após algumas horas.

— Isso é o que você chama de queijo? Essa merda está estranha, seu retardado! — Gritou Carlos.

— Isso é queijo norueguês, prove. — Rebateu, Érico parecia confiar plenamente na ingenuidade do grande guarda, enquanto até Ligeirinho se mostrava apreensivo. “E se der errado?”, mas, Érico estava demasiadamente confiante.

Ligeirinho levou os pedaços daquela massa estranha para os amigos, que já estava terminando de montar a bomba, os circuitos e as misturas estavam prontas e os recipientes também. Ligeirinho chegou com o suposto queijo e com a nitroglicerina.

— Me dá isso aqui. — Gritou Romualdo, que colocava um pequeno pote de plástico dentro do queijo e nele colocava nitroglicerina.

— Onde está Érico? — Gritou Cátila. — Vamos fugir essa noite. Onde ele está? — Perguntou.

— Eu não sei, está preso com os guardas lá, deve ter dado algo errado, não sei. — Disse, preocupado.

Os dois terminavam a montagem da bomba posta dentro do queijo, ainda meio mole, num pequeno banheiro desativado, no pátio.

— Merda, cadê o Érico? — Perguntavam.

— Não podemos ir sem ele, não seria certo. — Completaram.

Ligeirinho iria dar prosseguimento no plano quando soube, Érico estava sendo espancado na cozinha pelos dois guardas, por tê-los feito comer algo tão ruim e vomitado um no outro. O plano precisava ser adiado.

 

 

Capítulo 12 – A explosão

— Eu estava gostando dessa merda, não antes de eu vomitar e cagar nas minhas próprias calças e sujar minhas meias. Você é o pior cozinheiro do mundo, seu animal! — Gritava o guarda Carlos enquanto atirava Érico ao chão, levou-o ao banheiro desativado na presença de seus amigos.

— O que estão fazendo aqui, seus merdas? Sumam! — Gritava e esperneava o guarda enquanto arrastava Érico pela camiseta.

— Eu falei que ia fazer você comer sua própria merda, mas, mudei de idéia, você vai é comer a minha.

Naquele instante, Érico já podia sentir o gosto da humilhação quando o guarda Carlos foi interrompido por um barulho à porta, era o diretor da prisão.

— Dr. Rubião Pereira Peixoto, a que devo a honra? — Disse, enquanto prostrava de joelhos o guarda.

— O que está fazendo? Tentando fazer este detento comer a merda, Carlos? — Indagou o poderoso.

— Sr. Diretor, o senhor não sabe o que este moleque fez… — Disse o guarda, sem mencionar os detalhes.

— Carlos, quero que me acompanhe, parece que sumiu um frasco de nitroglicerina que eu guardei no depósito na semana passada. Preciso da sua ajuda. — Completou o diretor.

O guarda engoliu em seco, será que o diretor descobriria? Naquele instante largou Érico e o deixou junto aos outros e seguiu o poderoso diretor, que de longe, com sua vestimenta e postura impecáveis poderia fazer até com que os animais o respeitassem.

Érico, Cátiga, Romualdo e Ligeirinho estavam mais próximos e temerosos do que nunca após do fatídico episódio.

A hora estava passando, com o caos instaurado no calabouço juvenil os detentos ficavam livres à noite por todo o pátio, por este motivo, a noite era conhecida como “inferno preto”, já que sempre pela noite, enquanto eles tentavam dormir, um ou outro detento aparecia morto.

Naquele instante correram ao local para pegar os pertences explosivos, os manejando com cuidado, dentro de uma sacola plástica de supermercado, aliviados, comemoraram o fato do guarda não os ter descoberto, após estar tão perto dos artefatos. A bomba estava absolutamente pronta e o queijo ganhava um aspecto esponjoso, alaranjado, grudento e extremamente fétido. Conhecendo parte da prisão, Ligeirinho sugeriu o melhor lugar para colocar a bomba, era a parede no lado sul do pátio, onde dava para uma saleta inativa que saía perto da estação de trem, ao lado de uma praça.

Érico não sabia se poderia contar com Chatália, tendo anotado seu número de celular anteriormente, usou o celular de Ligueirinho para enviar um SMS para a dita cuja: “Vai acontecer, agora”.

Cátila e Romualdo terminavam de ajeitar a bomba, ao lado de dentro da parede do banheiro enquanto os outros detentos tentavam dormir em suas celas, aquela até parecia uma noite diferente, mais calma, e isso os assustava. As instalações do artefato foram inseridas dentro do bolor alimentar à base de laticínios.

— Está pronto, irmãos. — Gritou Cátila.

— É agora ou nunca, mermão. — Completou Romualdo.

Naquele instante, com uma sacola em mãos cobrindo a parte debaixo do queijo, Érico movia-se para a parede enquanto foi interrompido por Ligeirinho.

— É a minha vez de fazer algo pelo grupo. — Completou.

Érico entregou-o o artefato e Ligueirinho moveu-se na calada para a parede ao sul do pátio entre dois detentos que tentavam dormir ao pé de uma grande pilastra. O rápido garoto grudou o queijo que continha o artefato na parede e ajeitou alguns fios ao lado de fora com um receptor eletrônico.

Voltou correndo para perto dos demais, atrás da parede do banheiro para ativar o receptor através do celular e ver a bomba explodir. Já era quase uma da manhã.

Um SMS chegou ao celular de Ligueirinho enviado por Chatália: “Não posso sair à noite”, que foi respondido logo em seguida por Érico: “Vem logo, biscate. Não me lasque”. Chatália morava há pelo menos uns cinco minutos da prisão.

Esconderam-se atrás de uma grande pilastra em frente a uma pequena saleta de vigia, onde havia apenas um guarda dormindo, com seu quepe tapando os olhos e um jornal do dia anterior sobre seu colo. A ansiedade era imensa, eram poucos no pátio e não podiam despertar atenção.

Entreolharam-se e como num ato imediato Érico, esquecendo-se de seu período como ladrão, sugeriu algo que jamais imaginou fazer: uma pequena oração. Aquele ato envolveria fé e esperança e para alguns deles, justiça.

Uma nova SMS veio, Chatália havia concordado, estava há poucos minutos da cadeia.

Ligeirinho estava afoito com o detonador em mãos, Cátila e Romualdo suavam frios e Érico os tenta manter calmos sem conseguir esconder a ansiedade.

Romualdo tentou segurar a mão de Cátila, mas, tomou um tabefe no pé do ouvido. — Bicha! — Gritou. A tensão aumentava e Ligeirinho estava pronto para detonar quando Érico viu e não acreditou, um guarda vinha correndo em sua direção. O que poderia ser?

Alguém os haveria denunciado? Será que alguém os havia delatado em troca de uma televisão, rádio ou comida? Não era possível. Era o guarda mais novo que a toda velocidade corria rumando em direção a eles. Adentrou ao banheiro desativado e com a descarga quebrada fez ali suas necessidades fisiológicas enquanto os quatro se equilibravam num pequeno beco antes da pilastra mais larga da prisão, de frente para a guarita interna do guarda, que percebeu a movimentação e acordou. Não tinha mais como se esconder, se algum guarda pegasse um grupo de menores reunidos em atividade em plena noite ou madrugada certamente os espancaria.

O turno da guarita naquela noite era do terrível Carlos, que saiu esbravejando com o parceiro cagão no banheiro.

O quarteto só ouviu o novato com diarréia denunciando, dizendo que quando adentrou ao banheiro viu o grupo maquinando escondido. Não havia alternativa, trancaram os dois no banheiro.

— Abram essa porta, miseráveis ou vamos comê-los vivos! — Gritava Carlos.

— Eu não vou comer ninguém. — Retrucou o novato.

— Cala a boca, verme e me ajude a arrombar essa porta, seu inútil saco de merda! — Retrucou Carlos enquanto dava uma bordoada no rosto do novato.

O cheiro insuportável do queijo grudado na parede começou a incomodar os dois internos que dormiam apenas alguns poucos metros da parede sul. Não havia mais tempo, alguém poderia mexer no queijo, os guardas já estavam prestes a escapar da saleta com murros e chutes na porta. Aquele era o momento.

Érico fechou os olhos e deu a ordem para Ligeirinho: — É agora. — Naquele instante o botão foi apertado e a ansiedade que os fazia tremer os fez ainda mais. Nada aconteceu.

Ligeirinho apertava os botões freneticamente, algo estava errado. Cátila suava muito e logo apontou o problema: — Esse Bluetooth usado no detonador só tem alcance de apenas dez metros e não cem como eu havia imaginado… Terá que chegar mais perto. Não tem jeito. — Completou.

— Mas, se eu chegar a dez metros da parede morrerei na explosão. — Todos engoliram em seco. Não sabiam o que fazer. A esperança os estava deixando quando Ligeirinho correu e gritou: — É minha responsabilidade. — Então Érico respondeu calmamente. — Faça acontecer que eu farei valer à pena. — Sem retrucar, Ligeirinho correu, os três restantes viram o amigo ser engolido pela escuridão e se abrigaram atrás da pilastra. Em menos de um minuto, um estrondo muito forte veio, destroços de alvenaria voaram por todos os cantos, resíduos de concreto, pedras, ferragens tomaram conta do pátio e uma fumaça gigante enevoava o local.

O estrondo foi tanto que permaneciam completamente surdos e caminhavam em direção ao pó, tapando o nariz com suas camisetas, o buraco estava lá. Ligeirinho conseguiu.

 

 

Capítulo 13 – A fuga

O tremor agora era de emoção, com certa dose de receio por Ligeirinho e uma euforia pela aventura e pela certeza da impunidade perante as leis, já que eram menores de idade. Estavam livres.

Olharam para trás, pelo buraco onde passaram com certa dificuldade e viram outras dezenas de delinqüentes fugindo e gritando palavras de ódio em busca de auto-afirmação: — Abaixo o sistema! — Correram os três mais a frente e Chatália os esperava com quatro bicicletas médias.

— Como trouxeste essas bicicletas para cá? — Indagou Érico.

— Não vai me agradecer? — Refutou Chatália em seguida.

— Responda a pergunta. — Rebateu Érico.

— Ai, como você é insuportável! Ela me ajudou. — Disse apontando para uma jovem mocinha hiperativa, de aparentes 27 kg, cabelos encaracolados e com um leve sorriso no rosto. A garota que Érico havia salvado na cadeia, Dailane.

— Naquele dia na visita fui tirar satisfação com ela por ter se metido, mas, ela queria retribuir seu ato, então, concordou em vir. — Explicou Chatália.

— Como a trouxe em cinco minutos com essas bicicletas se estava em casa? Como conseguiste as bicicletas? — Gritou Érico, desconfiado.

— Érico, — Interrompeu Cátila — vocês podiam resolver seus problemas depois? Nós temos que dar o fora daqui agora. — Terminou gritando, furioso.

O alvoroço era enorme, alarmes, sirenes e pessoas agitadas para todos os lados, pedras sendo atiradas em vidraças, fogo em repartições públicas.

Alguém vinha em direção a eles correndo, ofegante e o braço aparentemente machucado. Era Ligeirinho. O espanto transformou-se em alegria, o amigo estava vivo.

— Achávamos que estava morto… — Gritou Érico, abraçando-o.

— Eu entreguei o detonador para o Max apertar e me escondi. O consegui convencer, já que ele estava na zona de alcance. Ele virou picadinho. Bom, antes ele do que eu. — E completou rindo.

Após os esclarecimentos, todos montaram nas bicicletas, os quatro com Dailane se apoiando na parte traseira da bicicleta de Ligeirinho.

Chatália permanecia imóvel enquanto Érico a convidava: — Vem logo, senta no cano. — Disse, referindo-se ao quadro da bicicleta.

E assim, aqueles seis jovens corriam contra o vento, alguns gritando com as mãos para cima andando nas ruas escuras e becos para evitar a polícia tentando chegar à outra parte da cidade, onde um bom plano poderia ser montado para marcar suas vidas para sempre.

 

 

Capítulo 14 – Novos rumos

Já estava amanhecendo, o sexteto desnorteado, já cansado havia deixado a empolgação de lado e avistaram um pequeno galpão de uma antiga empresa de tintas chamada “Dizoni Tintas”.

O galpão situava-se numa rua estreita, de pedras quadradas e algumas deslocadas, com várias casas também abandonadas. Ligeirinho pulou o portão e o abriu por dentro, todos entraram pelo portão desmoronando e Cátila, como último a entrar colocou o portão no lugar. Colocaram as bicicletas encostadas numa parede, completamente escura pelos efeitos do tempo.

Chatália puxou Dailane pela mão, e sentou no canto de um estreito corredor que dava passagem para a entrada oeste do prédio, que continha uma porta de ferro completamente oxidada.

Érico se preparava para derrubar a porta quando foram todos surpreendidos por uma garota, magra, com um tapa-olho, usando uma touca verde e com duas corujas equilibradas em seu ombro.

— O que querem, vândalos imundos? — Gritou a garota.

— Opa. Calma. Nós não sabíamos que tinha alguém no prédio. Só precisamos de um espaço. — Respondeu Érico. — Pessoal, vamos para outro lugar. — Continuou.

— Esperem, vermes. O que fazem por aqui? — Perguntou a garota.

— Fugimos da FEBEM com a ajuda dessas duas. — Disse Cátila.

— Seu burro, cala a boca. — Gritou Chatália.

— Ah, que interessante… Nesse caso, podem ficar por uns minutos, depois podem desaparecer. Eu gosto de vagabundos. — Completou. — Deixa eu lhes apresentar minhas amigas corujas, Concurvilda e Julinalva. São minhas preciosas. — Finalizou.

Érico fez uma expressão de desentendido, estava confuso. O que aquela garota poderia querer?

— Podemos ficar aqui essa noite? Por favor. — Suplicou o comandante da fuga.

— Com uma condição, os deixarei ficar. Está vendo esse lugar? Está imundo, está emporcalhado, há lixo por todos os lados. Se limparem esse lugar, o galpão e a pequena saleta ali, deixarei vocês ficarem essa noite. — Propôs a garota.

— Sem chance, se limparmos ficaremos por três dias, até arrumarmos um novo lugar. — Rebateu Érico.

— Dois dias, então. — Propôs a garota.

— Fechado, dois dias. Mas, nos deixa descansar então essa noite, amanhã limparemos o local. — Completou.

— Está bem… A propósito, sou Kéllera. — Se apresentou a garota, enquanto estendia a mão para Érico.

— Érico, a seu dispor. — Respondeu, apertando a mão da moçoila, cercado pelos amigos.

Algumas horas se passaram e a noite chegou, o galpão era bem grande, e estavam numa rua bastante deserta há uns oito quilômetros da FEBEM, ainda podiam ser encontrados, mas, pela parte externa do prédio, caindo aos pedaços e sem sinal de vida, imaginaram que dificilmente os achariam ali nos próximos dois dias. Não havia muito que pensar, estavam todos muito cansados Para se preocupar com a polícia. Érico conhecia as redondezas daquele local, e aquele galpão havia sido usado algumas vezes por seus primos para cheirar soda cáustica e fazer balões.

Érico permaneceu no canto e deitou ao chão, olhando para os detalhes em telha do teto, observou as vigas e alguns andaimes e objetos amarrados na parte superior da estrutura. Cátila e Romualdo foram para o outro lado enquanto Ligeirinho e Dailane, a qual ficou mais íntimo durante a viagem, ficaram na parte perto da porta. Kéllera dormiu na saleta imunda na parte norte. Chatália aproximou-se vagarosamente de Érico e dispôs-se a sentar perto dele para conversar.

A iluminação era precária, Kéllera providenciou apenas algumas velas para que se guiassem pelo galpão e alguns fósforos.

Naquele instante, Chatália deitou-se ao lado de Érico e tocou-lhe a mão, iniciando uma conversa:

— O que quer de mim, Chatália?

— Eu não sei, Érico.

—…

— Gosto de estar com você.

— Você mente.

— Por que você é assim, Érico? Nunca falou assim comigo.

—…

— Você gosta da minha irmã, né?

— O quê? Sua irmã?

— Sim, Evangelina.

— Você é irmã da Peix… Evangelina?

— Sim, nunca reparou a semelhança?

— Não há semelhança… Talvez haja. Não sei. Não acredito que você é irmã dela.

— Nem eu, ela é uma biscate.

— Não gosta de tua irmã?

— Não, e eu via o modo com que você se arrastava pra ela, babava por ela…

—…

— Eu só queria que você fizesse o mesmo por mim.

— O quê? Como tem coragem de dizer isso? Eu sou um elemento de competição entre você e aquela piranha?

— Não foi o que eu quis dizer… Desculpa.

— Não quero mais saber. — Concluiu Érico, virou-se e deitou contra a parede.

— Minha irmã está noiva. Do Carlos Peixeiro. Ele é negão, um metro e oitenta e tem dentes de ouro. Pensei que talvez quisesse saber.

— Dane-se.

 

 

Capítulo 15 – Reflexões de um Zé Ruela

Érico, cabisbaixo, atentou contra a serenidade outrora demonstrada a Chatália e abandonou-a ao chão gélido e úmido rumando para fora do galpão lentamente guiando-se pela luz de alguns buracos na parte superior do galpão, enquanto a sonolenta dormia como uma defunta no sono dos justos. Érico precisava de ar, precisa de luz, precisava pensar.

Nao poderia ser verdade que sua amada estaria copulando com um afro-descendente de família zulu oriunda da Guiné-Bissau. Era inconcebível, só poderia estar fazendo para provocar, pensou.

Nem mesmo sabia se o rapaz era mesmo zulu, mas, a sensação de traição o fazia pensar milhares de coisas. E por que Chatália havia contado? Queria feri-lo? Sua cabeça era apenas indagações.

Resolveu caminhar pelas ruas próximas ao galpão quando notou um pequeno guri de aparentes quatro anos tentando vender-lhe um baseado.

— Moço, compra essa porra? É pra ajudar minha família.

Érico surpreendeu-se.

— Moleque, o segredo do comércio é fazer o comprador sentir vantagem no negócio. Que está comprando, nunca que você está vendendo…

— Mas tio, minha mãe é puta, meu pai, traficante.

Olha garoto, eu quero que sua família se foda. Eu só estou interessado nos meus objetivos, assim como você nos seus. Sua mãe vai morrer e seu pai também e eu quero que se foda. Não ligo. Quanto custa essa merda?

— Custa seis reais, senhor.

_ Bagulho caro da porra, seu viado. Pelo menos não tem impostos, se não, seria 12. Governo de merda… E você deveria estar na escola, seu filho da puta.

— Eu já como buceta, tio.

— Que porra de buceta, moleque. Você é um neném ainda, uma criança. Usa fralda ainda, seu merda. Você tem nome?

— Meu nome é Silas.

— Silas Cou, só se for. Seu merda, seu moleque fodido. Para de vender droga e vai pra igreja.

Érico encerrou o assunto com o garoto e acendeu o baseado. Tinha ele suas implicações com o Estado, depois de sair da cadeia e comprar maconha no tráfico e fumar aquele baseado o fez pensar sobre mercado, droga e política e chegou a uma conclusão: “legalize já”.

A maconha fez efeito bem rápido. Érico começou a viajar e sonhar… Em seus sonhos mirabolantes via Chatália lhe prestando uma sucção peniana enquanto Evangelina de cabeça para baixo balançava numa macieira completamente nua.

Caiu num muro baixo invadindo um terreno baldio e começava a fumar ainda mais, caído sobre folhas de árvore e fezes de cães, gatos e bêbados decadentes.

Começou a gritar na rua.

— Quando crescer quero ser filho da puta! Quando crescer quero ser deputado, carregar uma estrela no peito e foder todos vocês, macacos de circo. — Gritava em frente as casas mais luxuosas da rua.

Foi silenciado por um banho de fezes atiradas de um balde num caminhão de adubo encostado ao lado da mureta.

— Cala a boca, seu maconheiro do caralho! Filho da puta! Estou tentando dormir para trabalhar e sustentar uma família de parasitas vagabundos que ficam coçando o olho do saco o dia todo e uma mulher vagabunda, uma puta, uma piranha, que usa o dinheiro da pensão para comprar saia curta e sapatos!

O esnobe ladrão apenas retrucou antes de cair desmaiado: “foda-se”.

E sucedeu que naquela noite, uma moça andara pelas ruas procurando um dos jovens mais procurados pela polícia. Era Chatalia. Uma forte neblina dificultava sua desesperada busca pelo foragido do momento.

Passava ela por um cruzamento que daria num bairro residencial quando deparou-se com a polícia que buscava os suspeitos.

— Temos que achar aqueles trombadinhas! Só podem estar por aqui. Estava comendo minha mulher quando o sargento ligou me interrompendo. Quando eu pegar aquele moleque, o tal Érico, vou quebrar o cabo da minha doze na cabeça dele, QSL?

Chatália ouvia a conversa dos agentes enquanto se escondida atrás de uma caçamba de lixo numa rua mal iluminada. Torcia para irem embora. Um dos agentes, o mais novo, até então em silêncio, desceu do carro, atravessou a rua e começou a urinar na caçamba. Quase metade da urina ia para a boca de Chatália, que não podia se deslocar para não chamar atenção. Enquanto tomava um banho quente de fluido corporal dourado, irritou-se e deu um nó na genitália do rapaz e um soco no testículo esquerdo (na perspectiva dele) e correu enquanto o jovem policial gritou:

— Corra atrás daquela rapariga, Nicolau!

Érico não gostava de drogas. Cresceu comendo atum em lata e tapando o nariz quando o pai fumava cigarros. Fumou maconha para desafiar o Estado.

Érico, totalmente influenciado pelo narcótico, desenhou um A com urina na porta de um estabelecimento antes de cair desmaiado. Érico, apenas mais tarde reconheceria que se tornou naquele momento um anarco-capitalista e compraria maconha com bitcoins.

 

 

Capítulo 16 – Nasce um monstro

Ligeirinho acordou naquela chuvosa manhã de quinta-feira ao lado de Dailane, enquanto ouvia os passos da “moça dos periquitos” ecoar dentro de sua cabeça.

— Acorda, cambada de filhos da puta! Está na hora de darem linha na pipa. — Gritou Kéllera.

— Mas você disse que eram dois dias. — retrucou Cátila, levantando do chão, demonstrando ouvir a conversa há tempos.

— Dois dias é o caralho, seu bastardo de merda. Eu dei palavra de homem que ia sacanear vocês. E eu sou homem, vou mostrar.

A outrora “donzela” baixou suas calças e mostrou um falo para os presentes que se enojaram enormemente. Kéllera parecia realmente mulher. Uma mulher, agora, com um falo.

Todos pegaram suas bicicletas e correram dali. Os maltrapilhos saíram em disparada. Cátila e Romualdo tentavam arrastar Ligeirinho, ainda bastante machucado em função da explosão enquanto Dailane ia à frente abrindo portões e tirando obstáculos do caminho enquanto escorregava no chão de limo.

Kéllera, a estranha, como agora era chamada corria atrás do grupo balançando sua genitália masculina. Todos correram para as ruas que cortavam a linha do trem para um bairro industrial. O algoz ficou para trás, parecia só querer proteger seu território.

Em alguns minutos se deram conta que haviam perdido Érico e também Chatália. Começaram a se desesperar. Não sabiam o que fazer sem ele, sem o cabeça da operação.

Na outra parte da cidade, no bairro residencial de Vila Rhyca estava Érico dormindo como um mendigo cheio de fezes debaixo do caminhão de esterco. Não havia ninguém por perto e mal se lembrava dos acontecimentos da noite passada.

Pegou um dos muitos montes de esterco e atirou contra o vidro do caminhão antes de sair em disparada e cansar-se 40 segundos depois.

Havia algo errado. Onde estavam as pessoas daquela cidade? Mesmo para uma manhã chuvosa como aquela, não fazia sentido as casas estarem abertas e aparentar ausência de todos os habitantes com bolsas e pertences deixados para trás. Ele tinha a sensação de ter estado acompanhado noite passada, mas, não se lembrava muito bem disso.

Chegou ele perto de uma viatura policial aberta e solitária. Temeu e correu para o galpão.

Chegando ao galpão deparou-se com a ex-moça:

— Ei, onde estão meus amiguinhos?

— Eles não te avisaram? Disseram que iam embora e que encontrariam você no caminho. — Respondeu Kéllera.

— Mas que porra é essa? Como assim? Aqueles viados deveriam ter me esperado!

Érico saiu em disparada pelas ruas do bairro e encontrou uma senhora de aparentes 218 anos numa cadeira de rodas andando sozinha vagamente.
—Ei senhora. Viu alguns adolescentes correndo nessa direção?

A velha moribunda não respondeu.

A senhora apenas urinou e o líquido esverdeado corria direto para o chão. Ela usava uma cadeira especial para fazer necessidades fisiológicas, e estava sem as roupas de baixo.

Érico não entendeu. A velha parecia assustada.

Érico observou em uma casa, abandonada uma televisão ligada numa reportagem especial falando sobre o “menor-bomba”, uma versão ocidental de Osama Bin Laden. Segundo a reportagem, numa explosão da FEBEM havia morrido 17 detentos, 12 vizinhos e um prédio havia sido implodido com todos os habitantes dentro. Ao total, 42 pessoas haviam morrido em função de uma bomba “minuciosamente arquitetada pela mente criminosa mais brilhante e maléfica do ocidente”. Érico viu sua foto na TV.

— Ei, porra! A história não é bem essa, não sou terrorista. Não sei de prédio algum.

O pânico foi generalizado. Logo de madrugada ao ligarem a TV no momento de acordar, viram a matéria, um vizinho ligou para o outro e denunciou a presença do terrorista.

O pânico se alastrou, mas ninguém denunciou. Até alguns policiais fugiram. Érico era uma lenda, um mito, o criminoso menor mais procurado do mundo, segundo a emissora.

 

 

Capítulo 17 – O dilema de Chatália

Chatália abria os olhos vagarosamente. Estava deitada, completamente nua numa enorme cama, de claríssimos e leves lençóis. Não havia ninguém na cama ao lado dela, apenas uma bandeja de frutas há alguns centímetros de si.

O chuveiro estava ligado. Apesar de não lembrar-se muito já imaginava o que havia acontecido. Ao perder-se de Érico, provavelmente passou perto de um restaurante nos picos mais burgueses da cidade e encontrou ali algum velho endinheirado que tentaria compensar sua falta de jovialidade com muito dinheiro, luxo e outros mimos.

O sujeito terminou o banho e voltou-a se a ter com ela. Era um senhor de aparentes 50 anos, bem conservados, apresentou-se como Daniel Denaro.

— Como dormiste, donzela? — Indagou calmamente.

— Dormi bem, onde estou? — Retrucou Chatália em seguida.

— Está no Hotel Condón em Vila Rhyca. Não se lembra? Suponho que as taças de vinho que lhe dei a deixaram um tanto esquecida. Aliás, posso imaginar que não entendo o porquê ninguém diz se lembrar de uma noite regada a bebedeiras… Tenho uma teoria de que elas se lembram, mas, para evitar o constrangimento negam ter lembranças das noites anteriores.

— Realmente não me lembro, seu Daniel Denaro.

— Não me chame assim, apenas Daniel.

Chatália demonstrava, talvez pela primeira vez, grande arrependimento de estar ali. — O que houve ontem à noite… Nós…? — Completou, com a voz cheia de rouquidão.

— Quer saber se…? Oh, não. De forma alguma. Perdoe-me. Eu sou… você sabe, baitola, como vocês jovens dizem. Estou carente por ter perdido Richard, meu mordomo. Você está nua porque bebeu e sentiu calor. Eu não toquei em você. É muito démodé para um jovem senhor como eu aproveitar-se de uma jovem moça.

Chatália alegrou-se como nunca. Sabia que não havia traído suas emoções, realmente amava Érico, podia sentir o vínculo mais forte. Agradeceu ao sujeito.

— Gostaria de agradecer a companhia da senhorita. Posso pagar-lhe uma quantia como agradecimento. Prefiro dar presentes em forma de poder de compra. Presentes as pessoas nunca dão valor ou gostam. É muito démodé presentar nos tempos atuais. A senhorita aceita bitcoins?

— Bit quem?

— Bitcoins… (Risos) É uma moeda virtual, desvinculada às moedas estatais como o Real brasileiro ou o dólar americano. Um dinheiro livre de controle por parte do Estado, não há inflação por desperdício monetário do governo.

— Não entendi nada do que falou, senhor. Onde eu posso usar isso?

— Em lugar nenhum. Quase ninguém aceita. Mas, no futuro aceitarão.

— Não tem dinheiro?

— É muito démodé andar com dinheiro hoje em dia, moçoila. Pedirei aos meus empregados que te encontrem na internet e te paguem em bitcoins. Garanto que não se arrependerá.

Chatália não se importou, correu descendo as escadas para a porta do estabelecimento e viu um mar gigante de pessoas e um tumulto generalizado na rua.

Estava do outro lado da cidade, havia perdido contato com todos os demais. Estava sozinha no mundo.

 

 

Capítulo 18 – O segredo de Chatália

Chatália nasceu na periferia da cidade, no bairro de Jardim Brocólia, filha de um abestado caiçara com uma bóia fria ex-guerrilheira fanática dos anos 80. Seus pais não a quiseram no momento e a tentaram abortar várias vezes. Já tinham como filha Evangelina, a mais velha e até então, única filha, nascida no litoral.

A garota tinha quatro anos mas já persuadia a mãe a abortar, queria ser filha única.

— Aborta mamãe. Seu corpo, suas regras. — dizia a pequena.

Chatália nasceu aparentemente normal, no entanto seria mal tratada nos primeiros anos de vida, quando sua irmã tentou lhe cortar o pescoço com linha de cerol. Os conflitos entre as duas eram intensos. Chatália foi enviada a morar com a avó, Dona Choréia que tinha dotes amistosos e serenos. A vida com a avó, a sete km de casa teve uma influência absolutamente impactante na vida da pequena rapariga.

Chatália foi bem educada, logo na pré-puberdade fazia cursos de inglês, espanhol, francês, informática, além do ensino médio num caro colégio no Jardim das Palmeiras. Tinha um gosto especial pela filosofia sendo fã incondicional de Maquiável, Nietzsche e Bertrand Russel. Participava das discussões filosóficas nos centros acadêmicos como revelação proeminente na área de humanas. Freqüentava a universidade como convidada logo aos doze anos.

Passou a ter amizade com grupos rebeldes como os Pink Blocks, um grupo que se vestia de rosa para depredar patrimônio público e privado e dos comunistas do UUU (União Única Universal), além da Ação Redentora, uma ala social jovem da igreja. Chatália passou a ser mentora intelectual desses grupos.

Descrita como uma garota altamente manipuladora, era além de venerada por seus seguidores, detestada pela maioria das pessoas que freqüentava a universidade, a escola e a igreja. Quando notava perder o controle e a liderança usava táticas controversas para angariar apoio como o uso de decotes generosos e danças sensuais nas festas de fraternidade e nas confraternizações da UUU.

Notando que sua personalidade causava fascínio fundou uma seita que se reunia na extinta sala de vídeo do colégio em que estudava que servia como depósito de livros velhos. A seita tinha inicialmente sete membros, porém, com o aumento da popularidade dela seus membros começaram a crescer exponencialmente, tendo em seu auge 37 integrantes.

Seu grupo, conhecido como “A Base”, se concentrava em táticas de dissimulação, mentiras e interpretação. Chatália defendia que, “para fazer o bem, é necessário praticar o mal por uma justa causa justificando o fim, que seria o bem”, como descrito no parágrafo número um do “Manifesto baseado”.

Juntos, “A Base” derrubou quatro professores e um diretor, reformou as finanças da escola e influenciou a queda do reitor da universidade. O grupo perdeu influencia quando Chatália, ameaçada de ser morta e expulsa, mudou-se para o colégio Eunuco Eutanásio onde encontrou Érico e sua própria irmã, a qual ignorava.

Sabendo de seu comportamento marginal, não restou a ela apreciar outra face dos acontecimentos, outra máscara do protagonismo: a discrição, o anonimato. Chatália deixaria de ser o centro das atenções para se tornar uma discreta observadora influenciando os acontecimentos apenas quando lhe convir. A prudência havia sido o que aprendera com os disformes acontecidos daqueles anos passados quando quase levou um prego no olho por destruir uma família no seio da comunidade onde morava.

O episódio que lhe abrira os olhos foi quando ao terminar um relacionamento secreto com um pastor de uma igreja ao sul da cidade, que mantinha por internet, resolveu viajar ao sul das longínquas terras do norte onde um primo, professor Falumba era conhecido como Rasga-xana, mesmo sendo casado. A fama varava por todas as cidades circunvizinhas e Chatália resolveu provar o sabor do pecado. Falumba, apesar da fama, tentava ser discreto, mas, Chatália o expôs de vez, apenas para provar a si mesmo e a todos que poderia fazê-lo e para aproveitar se alimentando da desgraça alheia.

Viajou 27 horas apenas para fazer frente entre às demais garotas urbanas e resolveu passar uma tarde no sítio do tal primo. Passaram o dia conhecendo-se profundamente enquanto as roupas ficavam na margem do lago, cada peça em uma parte. Debaixo de uma macieira o amendoim foi colocado no buraco do amendoim, coisa que a mulher do professor nunca havia permitido.  Ela percebeu quando uma menina se espantou com a cena e colocou a mão na boca e saindo correndo para contar a todos que chegaram surpreendendo a toupeira cavocando o terreno. Entre elas, a esposa. Uma lágrima caiu, Chatália sorriu.

A cidade tinha costumes conservadores e Chatália foi detida por populares, com um olhar diabólico seguiu escoltada até um celeiro bem grande de propriedade de um influente empresário da região naquela esquecida comunidade rural. Chatália foi açoitada com inúmeras chibatadas enquanto dava pequenos gemidos ao sentir suas costas rasgando e mantendo um olhar diabólico parcialmente escondido pelo suor que escorria de seu rosto. Ela gostava.

 

 

Capítulo 19 – Dailane cheira a pão

Com apenas 37 quilos, Dailane era uma ágil moçoila criada a leite com manga na periferia da cidade perto da padaria do Seu Lingüinha.

Seus pais lhe deram de comer e beber até que a “pequena magriça” começou a usar narguilé, segundo seus pais, porta de entrada para maconha, LSD e crocodil.

Foi expulsa de casa e condenada a morar com a amiga que mais detestava onde era obrigada a dormir de conchinha e tirar foto no espelho para colocar nas redes sociais.

Mirela Mirola era alta e sardenta, lhe emprestava meias e saias brancas curtas, no entanto, lhe tratava como um brinquedo, lhe apertava as bochechas, lhe dava pequenos tapas e apertava sua bunda.

Dailane não aguentou muito tempo, num domingo de forte ventania foi convidada pela amiga a visitar um estranho rapaz, morador de mesmo bairro, perto de um ponto de venda de drogas onde Mirela Mirola estava com intenções de uma cópula.

Um forte vento levantou a saia de Dailane que nem ao menos disfarçou mostrando sua calcinha de pequenos pôneis. Dailane ficou vermelha, o sujeito que as atendia não.

(continua…)