O Ladrão de Canetas – Parte I

Capítulo 1 – Prólogo

Érico Caguette de Oliveira corria com todas as suas forças. Estava sendo perseguido por um grupo de jovens de sua escola. Seu fôlego acabara. Caíra ao chão com um pato manco. Acabou espancado, com chutes nos testículos e na cabeça num beco a duas quadras de sua casa.

— Nunca mais olhe pra minha vadia, Retardado! — Retardado era o apelido de Érico, um garoto excêntrico, aluno do primeiro ano do ensino médio, um moleque com aparência esquizofrênica, óculos fundo de garrafa, alto e muito magro, um típico fracassado da escola.

Érico era o único aluno do professor mais estranho do colégio, Rubens Gil, que lecionava violino. A dedicação de Érico era questionável, e mesmo tendo toda a atenção da aula voltada para si, ele era um tremendo fracasso como violinista, tendo uma vez causando grande constrangimento durante uma das apresentações num evento escolar. Fato que lhe causou um enorme trauma quando lhe atiraram fezes dos animais da escola no rosto.

Érico também tinha o apelido de “Merdinha”, o mais freqüentemente usado por seus colegas de sala, também por sua cor meio marrom e pelo seu rosto meio estranho.

Suas notas eram bastante ruins, não por ser ignorante, mas, por ser extremamente desinteressado. Merdinha não valorizava a si, aprendeu a valorizar o coletivo, a ser escravo do meio, prova disso era seu amor por Evangelina, sua peixinha.

 

 

Capítulo 2 – Cartas para o seu amor

O baile de verão estava por vir, Érico, por valorizar em demasia os eventos sociais — apesar de ser humilhado em todos eles — precisava provar a todos que não era um fracasso e preparou-se para uma grande missão: encontrar alguma garota disposta a dançar com ele no evento. Mas, quem? Quem toparia sair com ele? Apenas uma garota poderia em alguma hipótese sair com ele. Mas, era última opção.

A prioridade de Érico era, obviamente, Evangelina, a qual ele carinhosamente chamava de peixinha, este apelido nasceu de um dia em que todos gritavam na sala chamando-a de piranha, por ter copulado carnalmente com dois times de futebol de salão do colégio, e Érico, para consolá-la de sua amargura, chamou-a carinhosamente de peixinha.

Evangelina era seu amor platônico, sua paixão súbita. Na tentativa de chamá-la ao evento para ser seu par, Érico começou a escrever uma carta de amor para seu possível par que consistia nos seguintes dizeres:

Seu pai é uma rosa

Sua mãe é um jasmim

Vamos ao baile comigo?

Te amo

Érico havia escrito a carta em papel reciclado, meio amassado, que ele dizia ser o preço do amor, pois acreditava que bens e posses nada valiam para um homem, apenas seu caráter e valor ilibados.

Durante a aula de história, daquele primeiro ano do ensino médio, pediu a uma amiga da frente, Jussara, que a entregasse a Evangelina, o que fez com prazer, por supostamente saber da humilhação que este sofreria. Era um prazer a todos os alunos, ver Érico ser humilhado em frente aos demais.

Enquanto Jussara se distraía a entregar o papel meio amassado para Evangelina, Érico cometia um de seus pequenos delitos, roubava-lhe uma caneta. Para sua mãe, era um ladrãozinho vagabundo, mas, para ele, estava ciente que era um cleptomaníaco, como havia lido num artigo na Wikipédia. Sua mãe era a única que acompanhava seu problema psiquiatríco, visto as confusões que o garoto havia passado em outro colégio. Érico fora transferido ao colégio Eunuco Eutanásio justamente por ter sido expulso de seu colégio anterior em função de ter roubado um pato de enfeite do escritório da diretora.

Entregue a carta, Evangelina sorriu, o deboche era gigante, após alguns minutos, levantou-se de sua cadeira e fez um escândalo, dizendo estar sendo assediada e molestada pelo “Merdinha”. O professou de história assustou-se e concordou com a garota e com unhas e dentes, como um servo fiel, pôs-se a defendê-la do “sistema patriarcal opressor da sociedade machista” e colou a cartinha de amor de Érico na lousa, causando-lhe constrangimento perante todos.

Seu professor, Ostovaldo Sinbuelas, era um militante partidário, freqüentemente saía às ruas sem camisa com os dizeres pintados nas costas: “Ei, machão, me estupra” . Certa vez escreveram “estrupa” em suas costas, causando-lhe constrangimento quando foram publicadas as fotos na internet.

Érico estava consternado, na noite anterior, havia sonhado estar dançando com Evangelina num grande salão. Tinha uma sensação gigante de que ela diria sim, cansada dos insultos das pessoas e daquela vida, pensou ele, que ela tomaria jeito e iria querer um homem “direito”.

Por que Érico pensava aquilo? Por que tudo o que ele acreditava era irreal? Por que tudo para ele era diferente das novelas que assistia? Das animações de príncipes e plebéias?

Érico tentou descer para o intervalo, mas, um de seus colegas de sala colou em suas costas uma folha escrita: “Chute meu rabo!”, então todos os amiguinhos de sala lhe começaram a espancar, obrigando-o a não descer. Sentiu de vontade de ir ao banheiro, pegou sua carta de amor e levou ao reservado.

Sentia-se frustrado, amargurado, caminhava em passos lentos ao banheiro do segundo andar, onde ficava sua sala, olhando o bilhete em sua mão. Érico dificilmente se importava com as coisas, sempre as afetavam pouco, mas, parecia que naquele instante, em que todo o seu plano havia descido pelo ralo, a pancada da vida havia sido maior. Uma lágrima caiu de seu rosto em cima do bilhete. Ao cruzar a entrada do banheiro um garoto de outra sala o viu chorando:

— Veadinho! Bicha!

Entrou ao banheiro, enxugou as lágrimas e defecou com a porta entreaberta. O mesmo garoto que o ofendera abriu a porta e tirou uma foto do mesmo enquanto evacuava. Érico não ligou muito. Não conseguia encontrar papel higiênico, então, sua única saída foi limpar seu reto com a cartinha de amor que escrevera para Evangelina.

Lavou as mãos e ouviu um alvoroço do lado de fora, dois garotos riam enquanto olhavam para o celular que havia feito a foto de Érico em posição desconfortável. Moveu-se até eles e num movimento súbito, deu um golpe no celular que caiu ao chão e despedaçou-se. Os garotos, boquiabertos, nada fizeram.

Acontece que ele havia destruído o celular errado, o verdadeiro culpado ria do outro lado do corredor. Érico, destruído emocionalmente, voltava à sala com um prejuízo em mãos para quitar.

Havia nesta sala apenas uma garota, sentada nos fundos, meio amargurada, seu nome era Chatália. Merdinha não faria aquilo, mas, aquele dia, aproximou-se e sentou uma cadeira a frente da moçoila e puxou algum assunto com ela.

— Que faz na sala?

— Nada.

— Ok.

— E você?

— Não senti vontade de descer.

— Nem eu.

Ficaram entreolhando-se, sem assunto, mas, Érico sentiu alguma coisa ali, era como se o destino tivesse querendo lhe dizer alguma coisa. “Mas, o destino realmente existiria?” Pensou. “Era besteira”, concluiu.

Érico levantou-se e rumou-se para sua cadeira, despedindo-se da garota estranha, após a mesma confirmar seu excêntrico nome, “Chatália”, a qual ele demonstrava ter algum apreço.