Iasmin e Julia – O inimigo mora ao lado (IV)

Não podia estar acontecendo. Não podia. Julia acordou apavorada, tentando gritar, absolutamente desesperada. Mal conseguia, estava com uma mordaça na boca.

Julia e Iasmin estavam amarradas a uma cadeira, Iasmin sem fôlego ou forças, desmaiada, apenas ilustrava uma desesperada cena. Não se podia fazer nada.

Estavam numa sala, num ambiente diferente, algo como um estúdio de fotografias onde a luz era fortemente vermelha. Havia um líquido espalhado ao chão, por causa luz vermelha não se podia ter certeza se era sangue ou qualquer coisa.

“Com cheguei até aqui?”, pensava Julia, inúmeras indagações infestavam sua mente. “Como saí da escola?”, “Quem nos amarrou aqui?”, “Será que Iasmin está morta?”, inúmeras perguntas sem respostas aterrorizavam ainda mais sua mente enquanto esperava pelo derradeiro golpe que resultaria em sua morte. Os pecados haviam de ser pagos.

Estava completamente imobilizada, a corda era muito forte e mal conseguia coçar o pulso, resultado de uma picada de pernilongo.

Na sala não havia janelas, apenas uma porta mais baixa que o normal, a porta estava arranhada, e meio torta, como se alguém tivesse tentando arrombá-la várias vezes ou escapar dali.

Havia olhado para o chão… Não via muito além daquele líquido meio seco de cor forte espalhado por alguns cantos daquele apertado quarto, notava também alguns exercícios de informática sobre Access no chão, galões médios vazios, ratoeiras, funis, e algumas bolotas irreconhecíveis que mais pareciam carne. “Seria carne humana?”, pensou. Seu corpo não mais parecia responder, começara a sangrar pelas narinas e a vontade lhe viver lhe havia esvaído.

Seu corpo havia travado após ouvir um terrível barulho vindo de fora, suas pernas estavam duras, seu sangue passava com toda a força possível por suas veias e artérias, quase as estourando, parecia sangrar pelos olhos.

Estaria pagando um pecado pela morte de Talita caolha?

O Poderoso a estaria punindo por algo, ela tinha certeza. Seu tremor aumentou aumenta mais, Iasmin acordou e em poucos segundos entrou em pânico e começou a gritar de forma histérica e desesperada balançando a cadeira com uma fúria absurda. Girava na cadeira e gritava com todas as suas forças conseguindo arrancar parte da corda, o impulso foi tão forte que ela se desprendeu e bateu a cabeça em uma prateleira fincada à parede e desmaiou. Julia continuava presa, as cordas estavam amarradas juntas a cadeiras separadas, dificultando o escape.

A cabeça de Iasmin começava a sangrar, enquanto suas pernas tremiam de forma rígida e com poucos movimentos.

Alguns segundos mais se passaram e num silêncio tenebroso a porta do quarto parecia querer abrir, observara a maçaneta, que começou a girar vagarosamente e um ranger forte da porta cutucou-lhe a alma. Era o fim, pensou.

Podia ouvir as fortes batidas de seu coração, um homem baixo com a cabeça coberta por um pano preto entrou no recinto com um taco na mão, sem reação, apenas observou o corpo de Iasmin ao chão e pisou em sua cabeça levemente, com se quisesse tirar os cabelos que cobriam partes de seu rosto.

Julia estava imóvel, seus olhos arregalados apenas acompanhavam com a visão periférica os movimentos do possível cruel homem que rondava sua amiga, que ficou observando as nádegas da caída. O misterioso deixou o taco num armário escondido mais ao fundo e tirou dali um grande facão e apontou para a cabeça de Julia.

— Tua hora é chegada! — O pânico extremo dominou Julia, era a pior de todas as sensações que um ser humano poderia sentir, era indescritível. A voz não era tão grossa, mas, era cruel e cheia de ódio. Seguiram-se alguns segundo quando o homem retirou o pano preto que cobria seu rosto e deixou seus óculos cair ao chão.

— Satanás! — Pensou Julia, era Amarildo.

— Vagabundas! Piranhas! Me deixaram bebendo meu próprio mijo! Suas putas! Tudo o que está acontecendo é culpa de vocês! — Gritava Amarildo. Alguma coisa parecia muito diferente nele, seus olhos estavam muito claros, suas feições denotavam um ódio extremo, diferente do bobalhão que conheciam na escola.

— Vão pagar de seu próprio remédio, também vão beber mijo e vou sacrificar vocês, ninguém vai perceber. — Explanou o revoltado.

Julia sentiu-se levemente mais calma, o desconhecido a aterrorizava, com a revelação conseguia se manter em lucidez.

— Amarildo, eu não entendo. O que está havendo? E não te deixamos, nós iríamos te buscar!

— Puta mentirosa! Só pensa no próprio rabo, sua vagabunda, piranha!

— Amarildo! É hora de nos unirmos agora contra esses zumbis.

— Zumbis? Que diabos de zumbis, rapariga?

— Você não sabe? Não viu? Estamos em meio a um apocalipse!

Após proferir a frase Amarildo lhe golpeava fortemente com o cabo do facão na cabeça, desmaiando Julia que caía na cadeira com o rosto na banda esquerda da nádega de sua amiga.

Amarildo parecia preocupado, começara a andar de um lado para o outro, após alguns segundos notou que havia um forte barulho do lado de fora, parecia barulho de pessoas querendo entrar, tentando espancar a porta da frente, que era de metal.

O revoltado resolveu que haveria de acabar com aquilo e abriu as calças e começou a urinar no rosto de Iasmin, que acordou assustada.

— Oh… Quê?

— Piranha, lembra de mim?

— Amarildo?!

— Sim, meu amor, minha putinha!

— Amarildo… Que está fazendo?

— Cale a boca, piranha! Sabe por que está aqui? Você sabe, sim. — Gritava Amarildo — Porque tu és uma puta! Uma biscate!

— Do que está falando, Amarildinho? — Dizia Iasmin enquanto mudava as feições e parecia meiga.

— Você me usou, quantas vezes não comprei lanches pra você no intervalo? Comprei seu uniforme escolar, carregava sua mochila, seus sapatos, te carregava nas costas como um burro de carga, fazia suas unhas, escovava seu cabelo, dava banho no seu pônei… Não se lembra disso ano passado? — Explanava aos berros.

— Amadinho, somos amigos. Amigos. Amigos se ajudam. Apenas isso.

— Você é uma puta, sabia que eu morria de amores, que eu era um bosta e se aproveitou da situação.

— Não, docinho de leite, você ainda é meu migo.

— Mesmo depois de eu ter mijado na sua cara? Sua mentirosa!

Enquanto os dois discutiam, Julia já estava acordada ao chão e num movimento súbito deu uma cabeçada contra a genitália de Amarildo, que caiu ao chão, as duas saíram correndo, da saleta e ao correr pelo extenso corredor com manchas pelas paredes se depararam com desconhecidos querendo entrar. Seriam zumbis?

Resolveram não arriscar a entrada e partiram em sentido oposto. Não parecia haver saída, estavam tão tensas que não conseguiam pensar direito, defronte de outra saleta com várias janelas e bem apertas, viram uma pequena estante deslocada com uma pequena porta na parte traseira semi-aberta com um corredor escuro. Percebendo que Amarildo estava se recompondo e começou a correr em direção à saleta adentraram o túnel escuro com tochas nas paredes de barro e começaram a correr de mãos dadas. O caminho era bastante escuro, mas, havia iluminação por toda a sua extensão, permitindo a localização entre o caminho, desviando dos bichos e pisando fundo nas poças d’água.

Algo as fez caminhar lentamente… Não podiam parar, Amarildo estava armado, vindo pelas costas… Mas, haviam de parar, era Talita caolha.

Não podia ser. Ela estava morta. Havia uma garota desfigurada com óculos, cheia de sangue se movendo em frente elas… Não tinha como escapar, as paredes eram demasiadas estreitas para permitir à esquiva. Haveriam de enfrentar. Matar ou ser mortas.

Seria uma visão? Teria ela sobrevivido? Estaria ela almejando uma punição à dupla por tê-la sido deixada devorar por zumbis?

Iasmin não pensou duas vezes, estava faminta, delirante com a situação e mordeu o braço da moribunda enquanto Julia lhe socou na altura do estômago. O que não perceberam foi a velocidade com que veio Amarildo lascando em Julia uma forte facada. Com uma rápida esquiva e um girar rápido a fugitiva havia levado um forte golpe na barriga. Uma grande facada que fora amaciada por certo excesso de gordura presente na região torácica.

Após o rápido e confuso golpe, a caolha havia pulado em cima de Amarildo e abocanhou-lhe o ombro, que não mais conseguia desgrudar, brigando com a semi-defunta, passaram a digladiar enquanto a dupla fugia pela extensão do corredor.

Iasmin e Julia correram pela extensão do corredor ao se deparem em uma saleta escura, as paredes eram de barro, imaginaram estar de baixo da terra, aquilo era um calabouço, havia correntes, penicos, sangue e diversas ferramentas espalhadas por todo o local. “Que diabo de lugar seria aquele?” — pensaram.

Pegaram uma vela, ao lado direito de uma pequena mesa de madeira, Iasmin tremula, quase nada conseguia fazer. Havia no centro da sala dois caixões, pareciam ser sob medida para as duas amigas.

Não sabiam o que fazer, o pânico era geral, enquanto se abraçavam chorando um forte estrondo veio do corredor escuro, zumbis pareciam ter invadido o recinto e destruído tudo.

Para Iasmin e Julia não havia outra saída, senão — na sala sem saída — adentrar para a morte, em seus próprios caixões.