Iasmin e Julia – Funeral Coletivo (Parte V, final)

Os ruídos eram altíssimos, sentir os caixões chacoalhando e respirar devagar para não perder completamente o ar ali dentro as estava sufocando. Julia mal agüentava, estava com a barriga aberta pelo golpe do agressor e sua dor era insuportável. Sangue pingava da popa de suas gorduras localizadas.

Escutavam gritos aterrorizantes de Amarildo que parecia estar sendo devorado pelos seres bizarros.

Em menos de vinte minutos um terrível silêncio pairou sobre o lugar e Iasmin abriu a tampa do caixão e gritou por Julia que já estava ao chão com um pano, uma roupa de zumbi tapando o corte na barriga.

A horda estava toda ao chão, os seres espalhados por todo o recinto caídos, sem cabeça, com braços estraçalhados, pareciam ter sido esmagados por Amarildo.

As duas amigas caminharam lentamente em direção ao corredor, fazendo o caminho de volta, já que não conseguiram encontrar uma saída na saleta final e ao voltarem se depararam com Amarildo entre o caminho e a saída, em frente à porta de metal por onde entraram. Estava todo machucado, com a certeza de morte.

— Deixe-nos sair, Amarildo, Julia está ferida. — Implorou Iasmin.

— Cala a boca, piranha! — Resmungou Amarildo.

Amarildo pretendia matar as duas e levá-las consigo ao inferno antes que pudessem se livrar dele. Amarildo mostrou-lhe às mãos, uma carregava agora uma faca menor e na outra, a cabeça de Talita Caolha, o desespero tornou-se era enorme.

Começaram a voltar de costas, enquanto o odioso largava a cabeça da morta ao chão e caminhava ele devagar, mancando, em direção a seu alvo, as duas intrometidas.

Julia estava quase desmaiando e deitou ao chão.

— Deixe-me, salve-se, Iasmin. Não posso mais agüentar. — Disse, em prantos.

Iasmin não queria deixar a amiga, mas, não havia solução, largou-a e correu para a saleta novamente, sabendo que ali havia muitas ferramentas, pegou uma chave de fenda e correu novamente ao local onde Amarildo estava mas tropeçou em meio aos zumbis.

Amarildo estava quase alcançando Julia quando Iasmin como num golpe de caratê pulou sobre o moribundo e cravou a chave em sua têmpora. O agressor caiu.

Iasmin, toda ensangüentada, cheia de urina sentiu uma mão acaricando sua nádega e gritou. Era apenas uma mão morta e decepada com espasmos musculares grudada na parede. Sem muita ação, pegou Julia ao ombro e rumou para a porta, quase não se agüentavam em pé.

Julia e Iasmin abriram a porta e a grande claridade do sol quase as cegaram. Era dia. Olharam para o horizonte e uma vida normal se seguia, pessoas se cumprimentavam nas ruas, crianças jogavam futebol, o leiteiro passava, cachorros corriam atrás de bolinhas enquanto o caminhão de lixo fazia seu serviço. Foram as últimas imagens das duas antes de cair ao chão sentindo, nos últimos instantes, o calor exuberante do sol da manhã.