Iasmin e Julia e o infortúnio tempestuoso (III)

Aquele não era um dia normal para Julia. Acordara no meio da madrugada, em plena forte chuva com um pressentimento maligno em seu peito. Havia sonhado que sua amiga estaria morta, extirpada numa banheira com o coração dentro do vaso sanitário.

O sonho era tão real, podia jurar ter sentido o cheiro de sangue. Julia começou a chorar fortemente. Seus pés trêmulos tocavam o chão com sua meia de elefantinhos. O medo de que algo lhe pegasse o pé era imenso. Caiu de joelhos ao chão e rumou junto à janela, abriu-a lentamente, sentia, a chuva era intensa.

Julia precisava ter certeza que sua amiga estaria bem — fora criada com ela, desde a infância, chegando a morar junto de Iasmin durante dois anos, em meio a um período conturbado de uma separação dos pais, que se reconciliaram em seguida — portanto, abriu a janela e desceu, com uma cópia da chave em mãos abriu o portão e rumou para a rua de cima num temporal que mais parecia um dilúvio sem Noé.

Após passar a esquina de sua rua, uma árvore despencou acertando o carro de um vizinho e bloqueando a passagem da estreita rua, o pânico era surreal, o barulho também.

Julia sentia os espasmos do pânico, não conseguia abrir a boca para gritar, seu coração batia muito forte, e a sensação de morte se aproximava. A afoita começou a correr pelas poças d’água na calçada quando observou algo terrível, não conseguia acreditar, era um corpo, não dava para ver direito, mas, sabia que era de vestes pretas, e com a cabeça esfolada. Algo terrível estava acontecendo.

Quis fazer uma oração em frente ao poste, mas ponderou seus pecados e concluiu que não havia salvação, além de morta, queimaria no fogo no inferno, já que pelo que lembrava havia respondido com palavras torpes sua mãe no dia anterior.

Com a cara e a coragem invadiu a próxima rua passando por cima de alguns cabos de alta tensão que haviam se desprendido do poste avistando o pior dos caminhos que deveria passar: o beco do insano.

Havia muitas histórias sobre o tal beco, muitas lendas e Julia, tampouco Iasmin sabiam da veracidade delas, mas, podiam desconfiar que aquela passagem não fosse um bom lugar e não havia outro caminho para chegar até a Rua de Iasmin se não passar por ali. Até havia, mas, seria demasiadamente demorado e Iasmin já poderia estar agonizando e vomitando sangue.

Não sabia se era real a história da loira assassinada no beco ou da prenha ensangüentada que, morta por crianças hostis, sempre voltava para assombrar os moradores, ou ainda do carteiro que morto por um cão raivoso que buscava vingança por sua vida fatalmente encurtada. Será que ela seria atingida por um desses três elementos ou ainda sofreria os males de um raio lhe partindo a cabeça por ter dito palavras hostis à sua progenitora? Julia era cristã e havia desrespeitado um mandamento. Seria aquele o juízo final?

Julia estava tão molhada pela brava chuva que só percebeu estar urinando de medo pelo brusco impacto da temperatura quente que acariciava suas pernas e morria ao chão, um pequeno rastro amarelo quase imperceptível.

Resolveu atravessar o beco, seu delírio era tanto, que em meio ao caminho infindável, uma porção de figuras podia ser vistas junto à noite, se formando nas paredes pretas das casas que denunciavam o encosto da perdição. Seu fim estava próximo, sentia. Julia não queria olhar para trás, — a chuva diminuía — e havia um rastro de sangue que se seguia. Emanava sangue de seu corpo. O sangue saía de seus pés.

A chuva diminuía ainda mais. No final do longo corredor havia escorpiões ao chão, tentou desviar deles e chegar à rua onde já podia avistar a casa de sua amiga. Havia algo estranho ali. A janela principal estava aberta e uma luz vermelha, eventualmente podia se vir acesa piscando. “Que diabos estaria acontecendo ali?”, pensou.

Após o cessar das águas, uma espécie de nevoa começava a cobrir o local saindo direto dos bueiros, a casa de Iasmin ficava numa espécie de rua rotatória onde todas as casas se encontram de frente com uma pequena praça ao meio, repleta de alguns brinquedos e resíduos de entorpecentes.

Seus olhos estavam fundos, nunca havia presenciado aquele sentimento, a ausência de tudo, a destruição de sua própria alma, a culpa sangrenta, o delírio. Seria O Poderoso lhe punindo por chamar a mãe de filha de uma profissional liberal? Seria os céus lhe punindo por responder a professora? Por ter pensamentos obscenos com o açougueiro? Por profanar o túmulo de sua própria avó? Por usar cocaína na festa da amiga? Por ter se recusado ao convento no ano passado? Seria aquela uma punição por desviar dinheiro da coleta escolar para um abrigo? Ou seria por todas as tentativas cruéis de ver sua própria amiga humilhada em frente de todos? Seria por sentir um profundo desprezo por Iasmin, mas, ainda assim uma necessidade incessante de mantê-la por perto?

Julia começava a sangrar pelas narinas. Será que realmente havia cometido tais delitos? Ou será que apenas o delírio causado pelo medo a estava culpando de coisas que nunca havia feito? Só uma coisa era certeza naquele momento: nada era certeza.

O ímpeto de uma mórbida coragem corria em suas veias, cheirou o próprio sangue que caía sobre a boca e correu a invadir a casa de Iasmin. Não precisou, o portão estava aberto. Adentrou a casa, com a porta também aberta, e molhando e sujando o chão de sangue rumou desesperadamente através das escadas e ao ter acesso ao quarto de Iasmin, viu pela fresta da porta uma cena terrível: havia alguém no quarto com ela, tentando matá-la. Travou as pernas, naquele momento, desmaiou.