Chaves Cafetão

Como seria o cortiço se Chaves fosse um cafetão?

Seu Madruga lia calmamente seu jornal no sofá esburacado de sua casa quando foi surpreendido por Chiquinha correndo em passos largos.

— Papai, papai. Me dá um dinheiro pra comprar um pirulito lá na venda da esquina?

— NÃO! Não vê que estou lendo? E não tenho dinheiro. Já estou devendo catorze meses de aluguel para o Senhor Barriga. — Respondeu.

— Ah, papai. Então vou me prostituir. — Respondeu.

Seu Madruga, boquiaberto apenas observou as palavras e engoliu em seco. — Chiquinha… O… que… você… disse…? — Perguntou.

— Nada, papai. Que vou desobstruir. — Vou desobstruir seu caminho para o senhor ficar mais confortável. — Disse com as mãos na cabeça disfarçando.

Ao sair, Chiquinha rumou até o barril e deu leves chutes para chamar o Chaves.

— Chaves, Chaves.

— Diga, Chiquinha. Não vê que estou dormindo no meu barril?

— Dormindo, Chavinho? Estamos à tarde, não é hora de dormir. — Gritou Chiquinha.

— Sai daqui, sardenta. Me deixa em paz.

— Preciso falar com você, Chaves. Quer ser meu cafetão?

— Café e pão? Quero, quero… Estou com fome e zás… Quero comer e zás… — Disse Chaves feliz pulando do barril excitado.

— Não é isso, Chavinho, você só não é mais burro por falta de vitaminas. Eu preciso fazer dinheiro e você poderia me anunciar na rua, procurar cliente pra mim.

— Procurar cliente? — Respondeu Chaves.

— Isso, Chaves. Meu pai não quer me dar dinheiro para comprar pirulito.

— Ah, Chiquinha, você quer me foder. Toda vez que entro na sua eu tomo na bagagem. Não quero. — Respondeu Chaves enquanto saía de perto da Chiquinha e ia brincar com uma tesoura de jardinagem.

Chiquinha o abordava novamente: — Chaves, seu filho da puta, seja meu cafetão, seu merda? — Gritou pelas costas do pobre menino do oito.

Chaves revoltado jogou a tesoura de jardinagem direto na Chiquinha que desviou deitando-se no ar e apoiando-se nos pés enquanto a tesoura voava e furava a veia jugular do Senhor Barriga que caía ao chão desacordado enquanto expelia muito sangue em forma de jatos pelo pescoço enquanto um tremelique intenso lhe tomava o corpo.

— Chaves, seu filho da puta! Você matou o Senhor Barriga. Você matou o gordo. Você matou o gordo!

— Ah, vai se foder, pelo menos ele não vai mais cobrar o aluguel do seu pai.

— Ah, isso é verdade. — Concluiu Chiquinha enquanto saía para o lado de fora da vila.

Chiquinha precisando de dinheiro colocou um cartaz colado ao corpo que dizia: “Vendo meu corpo. 5 mil cruzeiros” e ficou na porta da vila esperando clientes.

Passaram uns dez minutos quando Nhonho chegou perguntando: — Chiquinha, sua puta, você viu meu pai?

— Cala a boca seu gordo. Me paga 5 mil que te falo.

— Não! — Respondeu o gordo.

Chiquinha lhe deu um forte chute na canela fazendo-o entregar o dinheiro.

— Chiquinha, me diz uma coisa, você está vendendo seu corpo?

— Sim, e o que te importa?

— E quem é que iria querer um corpo cheio de sífilis? — Respondeu rindo e saiu correndo para dentro da vila.

Nhonho desmaiou ao ver o corpo do pai ensanguentado sendo retirado pelo pessoal da Cruz Vermelha.

Enquanto Chiquinha exibia seus dotes para conseguir clientes, foi imediatamente abordada por Quico, que ao ver a placa foi pedir dinheiro emprestado para sua mãe:

— MAMÃÃÃÃEEE!

Sua mãe prontamente o atendeu. — O que foi, Tesouro?

— Mamãe, a filha do Seu Madruga… ela…

— Seu Madruga? Eu sabia. — Dona Florida entrou correndo na casa do Seu Madruga ignorando o sangue no chão e deu-lhe um tapa na cara.

— Mas, o que aconteceu?

— Cale a boca, seu barbudo. Quico não se misture com essa gentalha.

— Gentalha, gentalha, Uhn! — Disse Quico, ao acidentalmente dar um golpe de canivete no peito do Seu Madruga que caiu desacordado. — Mas, mãe, quero moeda para ligar de um orelhão pra polícia. A Chiquinha virou puta.

— Não me surpreende vindo dessa gentalha. Tudo bem, Quico. Toma dois mil cruzeiros. Mas me traga o troco.

Quico foi rapidamente ao telefone público e ligou a polícia avisando que Chiquinha virara meretriz adolescente. Chiquinha ouviu a conversa de Quico com o delegado, que prontamente enviou um camburão para buscar Chiquinha. A pequena sardenta golpeou Quico com uma barra de ferro na cabeça. Chaves apareceu, e pisou sem querer na cabeça rachada do Quico.

— Agora quero ser seu cafetão, Chiquinha.

O policial chegando ouviu a conversa e levou os dois para dentro da viatura apreendidos.

— Você tem pai, sardenta?

— Sim, ele está lá dentro. Pois é, pois é, pois é. — Respondeu Chiquinha apontando para dentro da vila.

Lá chegando o policial viu o sangue do seu Barriga e Seu Madruga no chão com o peito furado e desistiu de continuar.

— Não ganho o suficiente para limpar essa sujeira. — Retrucou. E voltou deixando Chiquinha e Chaves livres.

— Só queria dar um susto em vocês, mas, não voltem a fazer o que fizeram, seja lá o que for, tudo bem, meninos?

— Isso! Isso! Isso! — Repetiu o Chaves enquanto voltava a brincar de cafetão e prostituta com sua melhor amiga.