Ancapistão, o território livre

Ancapistão

Era uma pacata manhã, num lugar úmido, inúmeras pessoas com trajes peculiares iam de suas casas à padaria em tanques de guerra enquanto seus filhos comiam maçãs e brincavam de atirar em latas no quintal com seus fuzis de precisão. Uma manhã absolutamente normal no lugar conhecido como Território Livre do Ancapistão.

De acordo com os costumes locais, geralmente o primeiro presente de um adolescente em idade púbere ao completar doze anos, independente do sexo, era receber um rifle de sua escolha, azul ou rosa, das inúmeras lojas de armas existentes no local.

Sua população era muito diversa, família e aglomerados diversos de pessoas conviviam pacificamente numa cidade de arquitetura peculiar, contendo casas em formato de domo, mansões de arquitetura gótica e pequenas residências minimalistas. Todos conviviam num ambiente livre e próspero.

Havia inúmeras moedas em circulação, a moeda mais conhecida era o bitcoin, livre de qualquer controle estatal e qualquer centralização, mas, também havia em circulação o dólar americano, o litecoin e o pau, uma moeda local que satirizava o real brasileiro. Não havia ali banco central e a região inteira tinha autonomia administrativa. Viviam numa gigantesca clareira na densa floresta amazônica autoproclamado “Ancapistão”.

O surgimento do Ancapistão

O Ancapistão nasceu como um sofisticado lugar construído no interior da Amazônia, o local foi comprado junto ao governo do Brasil por diversos milionários, dentre eles, Milton Centrão, um figurão de renome e um dos expoentes teóricos do paraíso econômico Ancapistão. Milton sempre vestia trajes de gala, incluindo uma cartola e um monóculo e comandava o Instituto ANCAP, que ainda no Brasil popularizou a idéia de um local livre e próspero para os habitantes.

O projeto também foi financiado por Saulo Pogas, um arquirrival de Milton Centrão, Pogas era muito radical e odiava qualquer tipo de governo e centralização, mas, concordou em unir forças com Centrão em prol da aquisição do enorme terreno. Em dez anos, o terreno de difícil acesso foi se desenvolvendo com a construção de casas, prédios, bunkers, trincheiras e túneis subterrâneos ligando cada uma das pontas do local. O Ancapistão foi preparado desde as origens para uma possível invasão.

Este “país” formou-se como um enclave dentro do Brasil formado por pessoas insatisfeitas com o governo socialista vigente e decidiram fundar sua própria concepção de sociedade. O Ancapistão tinha um governo diferente, um governo que não governava. Não havia impostos e seu presidente, apesar de influente, não tinha nenhum poder legal, era um apenas representante. Havia eleições optativas a cada quatro anos.

Saulo Pogas revoltou-se durante a reunião que definiu o governo do Ancapistão.

— Seus burros inúteis e desgraçados! Vocês merecem ser torturados até a morte por instaurarem um governo nesta terra! Eu amaldiçoo vocês! — Berrou durante a reunião da Associação Independente de Moradores do Ancapistão realizada nas dependências do Colégio Murray Rothbard. — Você é um gradualista maldito, Centrão! — continou.

— E você é um brutalista, Saulo! Nós precisamos de representatividade junto ao Brasil e os demais países da América Latina. Precisamos de uma comissão que nos represente. — Falou Centrão em tom moderado.

— Que represente a sua mãe, seu filho da puta! Que se foda o Brasil, que se foda a América Latina. — Gritava Saulo Pogas batendo na mesa.

— Você é anarquista! — Gritou Centrão, entre os presentes.

— Eu não sou anarquista! — Apontou o dedo ao céu. — Eu sou a favor de uma ditadura onde eu seja o ditador. — Completou mais calmo.

Surpreendentemente ninguém ligou.

Depois de dezesseis horas de reunião, muitas rosquinhas e refrigerantes de uma fábrica local, servidos gratuitamente. A reunião sessou.

Ficou definido que Saulo Pogas seria o presidente. Ele aceitou.

— Se não há outro jeito, eu aceito, seus malditos! — Gritou.

Saulo Pogas parecia tão revoltado que seu cargo na presidência do Ancapistão ficou conhecido como “o ditador libertário”. Havia severas leis, chamadas de “recomendações” limitando qualquer tipo de poder e qualquer tipo de arrecadação de impostos. Segundo Pogas, “princípios são mais importantes do que casualidades”.

Os virgens

Luciano Fugitivo, Rafael Canal, Alice Porréia, e Daniel Coragem iam juntos para a escola, na rua de cima, a Alameda Milton Friedman, eles quase sempre se deparavam com Milda Marques, uma grandalhona que sempre os ameaçava. Milda era filha de uma família de socialistas que se mudaram para o Ancapistão e começavam a tentar incutir essas idéias em alguns moradores. A menina-macho batia nos quatro todos os dias.

Luciano Fugitivo era o mais radical, ele ficava com tanto ódio que começava com a gritar. Tinha apenas dezesseis anos, mas, sua revolta que desejava a pena de morte a Milda e sempre descrevia inúmeras formas de tortura e dizia que torturar socialistas era “belo e moral”. Luciano Fugitivo era um menino meio incompreendido, porém, prodígio. Seu conhecimento sobre tudo era bastante razoável.

O ensino no Ancapistão era muito diferente do ensino do Brasil, no Ancapistão não existia nenhuma matéria obrigatória, e nas nove matérias escolhidas por Luciano Fugitivo, ele era o melhor em todas.

Daniel Coragem era o endinheirado, quando ainda morava no Brasil, quando tinha dez anos, já era especialista na moeda oficial do Ancapistão, o bitcoin. Daniel distribuía muitos panfletos e gravava vídeos anunciando a moeda e falando de suas vantagens frente à moeda estatal, mas, foi enviado a um exorcista por sua própria família por ser considerado retardado. Com um pequeno investimento ao longo dos anos, Daniel Coragem para se proteger da inflação e do controle estatal foi convertendo todo o seu patrimônio para a moeda virtual, até que, devido às oscilações da moeda e sua habilidade financeira, criou uma fortuna gigantesca.

Alice Porréia era uma menina encantadora, poeta, escritora e muito religiosa. Morar no Ancapistão foi como sair de Cuba e ir para os Estados Unidos da América. Ela não parava de falar nas benesses do “mundo novo” e criou um canal de vídeos na internet para falar sobre o assunto.

Rafael Canal era um menino meio alegre, brincalhão e com trejeitos levemente efeminados. No entanto, Rafael, mesmo pela cara de bobo, era extremamente esperto. Além de fazer truques incríveis com seu ioiô, era mestre na arte da persuasão por conhecer a psicologia humana e era um dos mais ferrenhos defensores da Terra Livre, uma das muitas alcunhas do Ancapistão.

O ditador libertário

O excêntrico país, ainda não reconhecido, era dirigido por Saulo Pogas, que sempre era visto nas ruas do centro em eventos de alta cultura ou simplesmente tomando cafés com outros youtubers, prática que era adepto desde quando era brasileiro, sempre portando duas pistolas automáticas, Pogas sempre tratava a todos na grosseria, desde sua mãe até amigos íntimos e qualquer um que defendesse a menor intervenção era chamado de “socialista filho da puta”.  No Ancapistão, “socialista” ou “comunista” era o pior de todas as ofensas. Havia outras ruins, no entanto essas duas eram as piores. Chamar alguém de comunista no Ancapistão poderia levar alguém a nunca mais em vida conversar com quem desferiu a ofensa. No Ancapistão não existia o crime de injúria, nem calúnia, difamação, nem nada do gênero. Mas, ofender alguém sem merecimento ou espalhar inverdades, conferia uma espécie de banimento ao culpado. O boicote era tão feio que a única alternativa ao culpado seria voltar ao Brasil e isso, ninguém desejava. Era considerado pior do que a morte.

Saulo Pogas nem ao menos queria que existisse um governo, segundo ele era desnecessário, mas, por insistência dos membros foi criada uma repartição para averiguar interesses de todos como a questão das ruas privadas, situação ainda não definida, pois, Xavier Prudão, era proprietário do caminho mais curto de um dos bairros até a escola, mas, fazia questão de cobrar valores muito caros e a maioria das crianças precisava escalar uma parede de pedra enlameada para chegar ao colégio caso não pagasse.

O ditador olhou Prudão nos olhos e disse que caso não permitisse a passagem das crianças ia espalhar boatos de que Prudão era socialista. Espalhar boatos não era crime, e este ante a influência de Pogas, preferiu cobrar mais barato no pedágio da rua e a situação foi resolvida.

A revolução ANCAP

O episódio conhecido como a revolução ancap foi o episódio que uniu os moradores do Ancapistão durante o segundo ano de moradia da colônia. Invasores do MST, um grupo terrorista brasileiro invadiu o território.

*

Será que os terroristas brasileiros do MST conseguirão dominar o território do Ancapistão? Não perca o próximo capítulo.