O Ladrão de Canetas – Parte V

Nos episódios anteriores, a incerteza rodeou a mente de Érico, agora preso e sem muitas perspectivas de vida, porém, algo parece mudar, sua relação bizarra com Chatália beirava à bizarrice e sua vida na FEBEM se tornou monótona até encontrar um grupo de jovens dispostos a fugir, com ele, daquele lugar.

Capítulo 9 – A rotina atrás das grades

Érico sabia que com o Bolsa Cultura não poderia comprar grandes coisas, o dinheiro mal dava para comprar uma revista erótica. Pediu a sua mãe que lhe comprasse um livro sobre química, como não tinha muita idéia pediu apenas isso, um “livro sobre química”, listou outros temas para sua mãe comprar, mas, sabia que não seria possível obtê-lo.

Érico anseava mudar de vida, apesar de estar no pior momento, não queria deixar que aquela marca fosse definir o rumo de sua vida para algo negativo, precisava a qualquer custo criar uma rotina ali dentro que lhe proporcionasse algum aprendizado que lhe fosse útil para sair.

Havia ali dentro um setor privilegiado, a cozinha, pois ela também servia os guardas e a sala de limpeza, que era protegida por servir as alas do presídio onde os internos não podiam se aproximar.

Pensava ele em montar uma bomba, era a única coisa que pensava precisar para sair e extravasar sua raiva à sociedade. Érico tinha um conhecimento razoável em química, já que passou a infância em contato com alguns químicos que eventualmente suas narinas sugavam, mas na prática, não conseguia criar nada útil.

Começou a se enturmar  melhor com os amigos estrábicos, em especial com Romualdo Vergalhão, um menino magro e cor de amendoim assim como ele e de cabelos encaracolados, que tinha uma mania compulsiva por desenho. Usava qualquer coisa similar a uma caneta para deixar alguns riscos na parede representando alguma forma qualquer.

— Romualdo, como faço para trabalhar na cozinha?

— Ai, mermão, por que quer trabalhar na cozinha, bro?

— Digamos que estou com mais fome que o normal.

— Ai, tio, pra ir pra cozinha tu tem que ser amigo do Mulambo.

— Quem?

— O guarda, o Carlos, ele é amigo do diretor.

Érico ignorou Romualdo por uns instantes e tentou aproximar-se do guarda Carlos durante o banho de sol. O máximo que conseguiu foi um murro na boca por tentar adentrar a ala dos guardas.

— Nunca mais volte aqui, moleque fedido.

Não sabia o que fazer, precisava vasculhar a cozinha para ver se encontrava alguns produtos, mas, nem ao menos sabia o que procurar. Estava batendo-lhe o desespero. “Por onde andaria Evangelina? Será que estaria saindo com outro homem? Onde estaria Chatália, será que o esqueceu? Sua mãe estaria bem? E seu professor de violino? Como estaria o diretor João? Esse era o destino que estaria reservado a ele ser um presidiário, um fracassado?”

Érico se encontrava amargurado, sentado ao pátio com seus amigos estrábicos, começaram a contar algumas histórias, Romualdo começou contando que antes do tráfico era o melhor aluno de química e biologia do colégio, já que seu pai era dono de uma empresa de produtos de limpeza e ele acabou tornando-se especialista em fazer lança-perfume.

— Por que tu não me disseste antes, Romualdo? — Gritou Érico.

Continuaram a conversar e um garoto aparentemente humilde, de nome Cátila, disse que cursava ensino técnico de eletrônica na cidade antes de matar seu pai.

— Você cursava eletrônica? Será que consegue criar um detonador, Cátila? E você, Romualdo, conseguiria montar uma bomba capaz de derrubar uma parede desse colégio? — Indagou Érico entusiasmado.

— Você quer criar uma bomba? Quer sair daqui criando uma bomba? — Gritou Cátila.

— Está maluco? Essas paredes devem ser mais espessas que os cofres do Banco Central. — Completou Romualdo.

— O que você sabe sobre o Banco Central? — Perguntou Érico.

— Nada, só o que vi no filme.

— A idéia é a seguinte, somos menores de idade e logo completamos dezoito anos, podemos fazer o que quisermos, já estamos presos e em pouco tempo já estaremos nas ruas de novo. Não sejam tolos, deixará essa oportunidade que será a maior aventura de nossas vidas passar assim em branco? — Enfatizou com grande entusiasmo. — Cátila, tenho certeza que era um dos melhores alunos de eletrônica de seu colégio, olha pra você, era todo certinho e Romualdo, você mesmo disse, manja muito de química, o que nós temos a perder? Me diga! — Completou em pé, gesticulando bastante.

Permaneciam todos mudou e espantados, tremendo de medo com a possibilidade de criar uma bomba, era só uma idéia, mas, sólida o bastante para parecer real. Havia com eles, naquela conversa, mais um garoto, seu apelido era Ligeirinho, quase não falava, mas, era o gatuno mais rápido da cidade, podia roubar as calças de um prefeito discursando em uma cerimônia de posse sem ninguém perceber. Iriam precisar dele.

Os guardas gritavam mandando todos de volta às celas. Naquela noite, o quarteto foi dormir pensando seriamente em explodir o presídio, escapar e reescrever a história de suas vidas para sempre.

Capítulo 10 – O plano de fuga

Fugir dali não seria uma tarefa fácil, mas, nada impossível, visto que os guardas não se importavam tanto assim com a segurança do local, muitos portavam celulares, usavam drogas, roupas diferentes, videogames, etc. Praticamente não existia revista aos visitantes.

Érico foi dar uma volta com Romualdo pelo pátio no banho de sol para acertar alguns detalhes quando ouviu o anúncio de que teria uma “visita conjugal”.

— Visita conjugal? Do que estão falando? Nem sou casado. — Indagou ao amigo.

— Parece que foi uma lei do governo federal, mermão… Tá reclamando? Tira lá o atraso, mermão. — Gritou Romualdo.

— Só podia ser Chatália. — Disse.

Passando pelos guardas em direção a sala especial de visitação pôde notar a localização da cozinha, foi solicitado para que assinasse alguns documentos enquanto o guarda Carlos lhe dava um tapa nas costas.

— Puta sacanagem desse governo inútil! Esses marginais delinqüentes precisam é de uma surra nas costas para aprender e não receber mordomias. — Gritou o guarda.

— Pois é, Mulambo, saciar os direitos humanos… — Completou o companheiro.

— Direitos humanos é um soco na cara desses vagabundos. Você não vê esses manifestantes vagabundos trabalhando, mas, em plena segunda-feira você acha esses merdas nas ruas protestando por marginal. Vagabundos… — Completou, revoltado.

Érico ouviu o monólogo de cabeça baixa, foi empurrado para dentro da sala, ao que parecia, Érico havia sido o primeiro contemplado pela nova lei federal. A porta foi fechada e Érico estava na presença da obscura Chatália, a qual começava a lhe atrair mais a cada dia.

— Oi. — Disse.

— Olá. — Respondeu Chatália.

— Não esperava vê-la por aqui… — Completou, um pouco distante.

— Vem cá, moço. — Retrucou Chatália com um olhar suspeito e rindo de canto de boca quando Érico a interrompeu.

— Nós vamos fugir. — Disse, para a surpresa da moçoila.

Érico explicou todos os detalhes que havia em sua mente sobre a fuga e pediu um favor à garota, que lhe trouxesse três bicicletas que ajudaria os demais a fugir.

— Não seria melhor um carro? — Indagou.

— Não… Eu não tenho habilitação. — Completou.

Chatália nada disse, não argumentou, balançou a cabeça concordando e aproximou-se do rapaz e o beijou.

Érico estava um tanto imóvel, mas, mas, a partir dali, sentiu seu ímpeto animal acordando com a presença da garota. Agarrou-a como se personificasse a fúria de seus ancestrais e jogou-a na cama.

— Pára, pára! — Gritou a garota. — Não, agora não… Não posso. — Completou Chatália. — Empurrando as mãos de Érico para longe de seu corpo.

— O quê? — Surpreendeu-se o rapaz.

Naquele instante, Érico estaria contemplando o famoso “doce” que a garota estaria fazendo, super valorizando-se, mesmo tendo ido até ele num encontro conjugal. Érico estava percebendo, estava se sentindo manipulado, mas, preferiu não se importar, sentiu que não valia à pena. Virou as costas e saiu da sala, para o espanto total de Chatália.

— Perdão! — Disse Chatália, enquanto Érico saía à porta.

— Piranha, se está aqui para me fazer perder tempo, nem venha. — Bradou Érico com ênfase, a falta de exatidão o deixou furioso.

— Quem você pensa que eu sou, seu merda? — Completou a garota enfurecida.

— Eu não penso nada e não vou discutir, se pretende me fazer de palhaço vai procurar outro trouxa. — Completou.

— Esse lugar te mudou. — Completou piamente, enquanto via Érico abandonar o local e voltar ao pavilhão.

Érico rumou meio enfurecido de volta a seus amigos no pátio enquanto era agraciado por todos.

— Comedor! — Gritavam.

— Esse é o cara! Machão! — Diziam alguns.

Érico havia ganhado o respeito das pessoas por ter inaugurado as visitas conjugais.

— E aí, cara, como foi, comeu? — Perguntou Romualdo.

— A vadia me fez perder tempo. Deixa pra lá. — Ponderou.

Reuniram-se para pôr em prática o plano de fuga. Ligeirinho havia ouvido os guardas reclamarem certa vez dos pratos servidos aos guardas, e Érico pôs-se a tentar um plano onde diria ser cozinheiro, diria ser especialista em fazer queijos.

— Queijos? — Perguntou Cátila.

— Bom, é a única coisa que aprendi a fazer lendo uns tutoriais na internet. — Completou.

Conversaram imaginando os ingredientes que precisaria para fazer a bomba. Cátila precisaria de pelo menos dois celulares, ele mesmo tinha um e pegou o outro de Romualdo, precisariam agora de nitroglicerina e mais alguns componentes químicos.

Após alguns instantes Érico foi ter-se com o guarda Carlos.

— Ei, guarda, não tem um emprego pra mim na cozinha? Sei cozinhar… Soube que estão precisando de um bom cozinheiro. Não sei como vocês comem essa gororoba.

— Hahaha… Comedor, comedor. Então, quer dizer que tu sabe cozinhar? — O guarda Carlos parecia ter respeitado Érico em espelho ao comportamento dos detentos que passaram a enaltecer o rapaz por ter-se encontrado com uma guria na conjugal.

— Sim, eu sei, com especialidade em queijos.

— Tu sabes fazer queijo, comedor?

— O pai da minha mãe é mineiro, aprendi a fazer queijo desde criança.

— Vamos fazer um teste com você, quero comer esse tal queijo que tu dizes saber fazer.

— Não vai se arrepender, só precisa trazer alguns ingredientes.

— Está bem, comedor, diga-me quais ingredientes.

— Leite, sal, nitroglicerina…

— Nitroglicerina? Está maluco?

— É, sim, sim. É para deixar o queijo com sabor explosivo.

— Acha que eu tenho cara de palhaço?

— Se não quiser, guarda, tudo bem. Mas, posso fazer um queijo diferente de tudo o que já comeu. A quantidade de nitroglicerina é pouca, quase imperceptível, só para dar sabor mesmo, eu sei do que estou falando. Ganhei dois prêmios de culinária com meu trabalho. Nem devia estar te contando isso, já que é um ingrediente secreto…

— Se me sacanear, seu lixo, o farei comer sua própria merda.

— Não vai se arrepender. — Garantiu.

Érico comemorou, enquanto via Cátila preparar um detonador com as peças do celular e de uma televisão antiga jogada ao pátio, usaria o bluetooth do celular para ativar o explosivo.

Romualdo fazia alguns desenhos detalhados do plano e preparava a fórmula que faria o composto explodir, estava testando as doses com água em pequenos potes encontrados no lixo do pátio e algumas sacolas. Ligeirinho os ajudava conseguindo os componentes que precisavam e furtando de alguns detentos algumas peças que poderiam ser usadas no plano.

*

Dois dias se passaram e Érico começaria a fazer o queijo para o guarda. A realidade é que jamais havia ganhado prêmio algum, muito menos sabia fazer um queijo. Então, Érico, supervisionado por Carlos e mais Rafael, um guardinha franzino, começou a preparar, criou uns pequenos moldes com um ralador de coco e uma sacola, picou cebola e arroz cru, bateu leite na batedeira, misturou leite com óleo, canela, pimenta e tudo o que via pela frente.

— Seu doente, você sabe o que está fazendo? — Perguntou o guarda Carlos.

— Tenha paciência, seu guarda, este é sem dúvida o melhor queijo que já comeste.

— Não comi nada ainda.

— Mas, vai comer.

Érico estava preparando o queijo junto com ligeirinho, e perguntou ao guarda onde estava a nitroglicerina. Recebeu-a das mãos do guarda num pequeno pote.

— Se o diretor souber disso eu estou morto, peguei isso no depósito, não vai me ferrar, seu moleque.

— Não se preocupe, guarda Carlos.

Érico disse estar colocando a substância no queijo, realmente numa quantidade bem pequena, a meleca do suposto queijo estava numa forma de bolo, pastosa e com cor alaranjada. Legeirinho, que poderia trocar a gravata de um pastor evangélico sem ser notado, transferiu o conteúdo do frasco para outro recipiente enquanto Érico distraía o guarda Carlos lhe explicando que a consistência do queijo antes de pronto realmente era realmente aquela e com  uma tonalidade alaranjada. Carlos desconfiava.

— Não acredita em mim, guarda? Alguma vez eu dei mancada?

— Você entrou aqui o mês passado, zarolho.

Éricou explicou que deveria deixar a massa na cozinha e pegá-la em algumas horas para experimentar. Foi o que fez, saiu da cozinha, e com o pretexto de deixar os detentos experimentarem primeiro, pegou algumas porções e levou para os amigos, após algumas horas.

— Isso é o que você chama de queijo? Essa merda está estranha, seu retardado! — Gritou Carlos.

— Isso é queijo norueguês, prove. — Rebateu, Érico parecia confiar plenamente na ingenuidade do grande guarda, enquanto até Ligeirinho se mostrava apreensivo. “E se der errado?”, mas, Érico estava demasiadamente confiante.

Ligeirinho levou os pedaços daquela massa estranha para os amigos, que já estava terminando de montar a bomba, os circuitos e as misturas estavam prontas e os recipientes também. Ligeirinho chegou com o suposto queijo e com a nitroglicerina.

— Me dá isso aqui. — Gritou Romualdo, que colocava um pequeno pote de plástico dentro do queijo e nele colocava nitroglicerina.

— Onde está Érico? — Gritou Cátila. — Vamos fugir essa noite. Onde ele está? — Perguntou.

— Eu não sei, está preso com os guardas lá, deve ter dado algo errado, não sei. — Disse, preocupado.

Os dois terminavam a montagem da bomba posta dentro do queijo, ainda meio mole, num pequeno banheiro desativado, no pátio.

— Merda, cadê o Érico? — Perguntavam.

— Não podemos ir sem ele, não seria certo. — Completaram.

Ligeirinho iria dar prosseguimento no plano quando soube, Érico estava sendo espancado na cozinha pelos dois guardas, por tê-los feito comer algo tão ruim e vomitado um no outro. O plano precisava ser adiado.