Harry Potter e o pó mágico do mundo dos trouxas

Harry Potter e o pó mágico do mundo dos trouxas
Harry Potter e o pó mágico do mundo dos trouxas

Havia se passado dois anos desde a morte de Lord Voldemort. Harry Potter, Hermione Granger e Rony Weasley não tinham muito o que fazer no mundo dos bruxos. Algumas leis estranhas começaram a vigorar no mundo da magia depois das trocas no ministério da magia e na diretoria da escola de magia e bruxaria de Hogwarts.

As varinhas foram proibidas com o estatuto da desvarinização que visava diminuir a violência causada por pessoas portando varinhas e o estatuto das vassouras, que determinava velocidade máxima de 40 km/h no céu público do mundo dos bruxos. Uma série de radares mágicos foi instalado nos céus para monitorar a velocidade das vassouras.

Uma enorme estátua de Harry Potter foi feita em bronze na entrada de Hogwarts, mas, ninguém se lembrava mais da história. Com o pouco uso de magia em função das proibições e a necessidade de glória, Harry Potter começou a buscar a magia no mundo dos trouxas, e através de seu primo Dudley descobriu um pó “mágico” chamado cocaína.

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Ancapistão

Era uma pacata manhã, num lugar úmido, inúmeras pessoas com trajes curtos iam de suas casas à padaria em tanques de guerra enquanto seus filhos comiam maçãs e brincavam de atirar em latas no quintal com seus fuzis de precisão. Uma manhã absolutamente normal.

De acordo com os costumes locais, geralmente o primeiro presente de um adolescente em idade púbere ao completar doze anos, independente do sexo, recebia um rifle de precisão de sua escolha, das inúmeras lojas de armas existentes no local.

Sua população era muito diversa, família e aglomerados diversos de pessoas conviviam pacificamente numa cidade de arquitetura peculiar, contendo casas em formato de domo, mansões de arquitetura gótica e pequenas residências minimalistas. Todos conviviam num ambiente livre e próspero.

Havia inúmeras moedas em circulação, a moeda mais conhecida era o bitcoin, livre de qualquer controle estatal e qualquer centralização, mas, também havia em circulação o dólar americano, o litecoin e o pau, uma moeda local que satirizava o real brasileiro. Não havia ali banco central e a região inteira tinha autonomia administrativa. Viviam numa gigantesca clareira na densa floresta amazônica autoproclamado “Ancapistão”.

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Chaves Cafetão

Como seria o cortiço se Chaves fosse um cafetão?

Seu Madruga lia calmamente seu jornal no sofá esburacado de sua casa quando foi surpreendido por Chiquinha correndo em passos largos.

— Papai, papai. Me dá um dinheiro pra comprar um pirulito lá na venda da esquina?

— NÃO! Não vê que estou lendo? E não tenho dinheiro. Já estou devendo catorze meses de aluguel para o Senhor Barriga. — Respondeu.

— Ah, papai. Então vou me prostituir. — Respondeu.

Seu Madruga, boquiaberto apenas observou as palavras e engoliu em seco. — Chiquinha… O… que… você… disse…? — Perguntou.

— Nada, papai. Que vou desobstruir. — Vou desobstruir seu caminho para o senhor ficar mais confortável. — Disse com as mãos na cabeça disfarçando.

Ao sair, Chiquinha rumou até o barril e deu leves chutes para chamar o Chaves.

— Chaves, Chaves.

— Diga, Chiquinha. Não vê que estou dormindo no meu barril?

— Dormindo, Chavinho? Estamos à tarde, não é hora de dormir. — Gritou Chiquinha.

— Sai daqui, sardenta. Me deixa em paz.

— Preciso falar com você, Chaves. Quer ser meu cafetão?

— Café e pão? Quero, quero… Estou com fome e zás… Quero comer e zás… — Disse Chaves feliz pulando do barril excitado.

— Não é isso, Chavinho, você só não é mais burro por falta de vitaminas. Eu preciso fazer dinheiro e você poderia me anunciar na rua, procurar cliente pra mim.

— Procurar cliente? — Respondeu Chaves.

— Isso, Chaves. Meu pai não quer me dar dinheiro para comprar pirulito.

— Ah, Chiquinha, você quer me foder. Toda vez que entro na sua eu tomo na bagagem. Não quero. — Respondeu Chaves enquanto saía de perto da Chiquinha e ia brincar com uma tesoura de jardinagem.

Chiquinha o abordava novamente: — Chaves, seu filho da puta, seja meu cafetão, seu merda? — Gritou pelas costas do pobre menino do oito.

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O casamento do Professor Girafales com Dona Florinda

O casamento do Professor Girafales com Dona Florinda foi um evento que mobilizou todo o cortiço.

Naquela tarde de verão Quico, ansioso, brincava sozinho no pátio com seu triciclo sabendo de um evento que o tornaria um menino ainda mais feliz. Prestes a completar dez anos de idade, ainda sem receber a bola quadrada, entraria na igreja para o casamento de sua mãe com o professor Girafales, vulgo Professor Lingüiça.

Uma bolada rapidamente voou do outro pátio e o acertou na cabeça, derrubando-o. Um chute certeiro de Chaves.

— Foi sem querer querendo. — Disse Chaves enquanto vinha pelo corredor próximo da casa de Dona Clotilde.

— Chaves, seu filho da puta. Você sempre me acerta. Vou contar pra minha mãe. — Gritou Quico, em fúria. — Só não te bato porque hoje minha mãe vai casar. — Continuou.

— Com o professor Lingüiça? — Perguntou Chaves enquanto o Professor aparecia pelas suas costas. — Já estava na hora do “quilômetro parado” ter coragem de pedir sua mãe em casamento, né? — Completou.

— Chaves, não fale isso do Professor, agora ele será meu papi. — Rebateu Quico, sabendo da presença do professor.

— Como é que é, Chaves? Quem é Quilômetro Parado? — Berrou o professor.

— Desculpa, professor, não sabia que o senhor iria se casar com a Velha Carcomida.

— Tá! Tá! Tá! Tááá! Quem é Velha Carcomida? — Berrou o professor, jogando o buquê de flores que trazia ao chão. — Chaves, a próxima vez que chamar a Dona Florinda de Velha Carcomida vou dar um tiro na sua cabeça com a carabina do Seu Madruga.

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O Ladrão de Canetas

O Ladrão de Canetas

O Ladrão de Canetas

Se você tem amigos de verdade, as dificuldades da vida já não pesam tanto. (Jufras Menhal)

Capítulo 1 – Prólogo
Capítulo 2 – Um pedido recusável
Capítulo 3 – Cartas para o seu amor
Capítulo 4 – Um professor desistente
Capítulo 5 – Um reserva muito louco
Capítulo 6 – Um crime descoberto
Capítulo 7 – Fazendo amigos na detenção
Capítulo 8 – Um ato heróico
Capítulo 9 – FEBEM
Capítulo 10 – A rotina atrás das grades
Capítulo 11 – O plano de fuga
Capítulo 12 – A explosão
Capítulo 13 – A fuga
Capítulo 14 – Novos rumos
Capítulo 15 – Reflexões de um Zé Ruela
Capítulo 16 – Nasce um monstro
Capítulo 17 – O dilema de Chatália
Capítulo 18 – O segredo de Chatália

Capítulo 1 – Prólogo

Érico Caguette de Oliveira corria com todas as suas forças. Estava sendo perseguido por um grupo de jovens de sua escola. Seu fôlego acabara. Caíra ao chão como um pato manco. Acabou espancado, com chutes nos testículos e na cabeça num beco a duas quadras de sua casa.

— Nunca mais olhe pra minha vadia, Retardado! — Retardado era o apelido de Érico, um garoto excêntrico, aluno do primeiro ano do ensino médio, um moleque com aparência esquizofrênica, óculos fundo de garrafa, alto e muito magro, um típico fracassado da escola.

Érico era o único aluno do professor mais estranho do colégio, Rubens Gil, que lecionava violino. A dedicação de Érico era questionável, e mesmo tendo toda a atenção da aula voltada para si, ele era um tremendo fracasso como violinista, tendo uma vez causando grande constrangimento durante uma das apresentações num evento escolar. Fato que lhe causou um enorme trauma quando lhe atiraram fezes dos animais da escola no rosto.

Érico também tinha o apelido de “Merdinha”, o mais freqüentemente usado por seus colegas de sala, também por sua cor meio marrom e pelo seu rosto meio estranho.

Suas notas eram bastante ruins, não por ser ignorante, mas, por ser extremamente desinteressado. Merdinha não valorizava a si, aprendeu a valorizar o coletivo, a ser escravo do meio, prova disso era seu amor por Evangelina, sua peixinha.

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Gelatina e o sapatinho

Gelatina

Joanice Berenice da Silva Alcântara Pilão de Oliveira Nunes  era uma pobre menina delicada, insegura como só ela. Era conhecida na vila em que morava como “Gelatina”, pois sempre que tinha uma decepção amorosa, prostrava-se debaixo da cama a comer gelatina sem parar, ou algo parecido.

Como todas as garotas de sua idade tinha um sonho, encontrar um homem sem nome, que viesse sem capacete numa moto custom branca empunhando uma caixa de bombons lhe dizendo que o eterno amor a encontrara.

Gelatina chorou a manhã toda, naquela quarta-feira muito ensolarada, estava se preparando para o baile de aniversário de quinze anos de sua Best Friend Forever Juliana Casca-grossa. Não estava chovendo, mas, ela teve a impressão de ver um raio caindo perto de sua casa, e sentiu que alguma coisa diferente a tomaria aquela noite.

A noite chegara, Gelatina havia se preparado como nunca para aquele evento, havia comprado um par de sapatinhos brancos sob encomenda, já que calçara o tamanho 43, tamanho anormal para uma garota de apenas 13 anos.

Naquele instante observou algo diferente enquanto caminhava para o salão de festas, um homem, sem capacete numa mobilete pintada de branco com uma caixa de bombons na mão. “O que seria aquilo?” pensou, mas, numa mobilete? E magro daquele jeito? Será que ela havia se comportado bem aquele ano para ganhar um presente realmente bom? Não tinha a resposta.

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João Cravo e Marta Rosa

Cravo'

— A história que lhes vou contar é uma das mais estranhas que presenciei. — Explanava Seu Hélio, o baloeiro, um velho senhor que em frente à porta de casa contava história aos garotos do bairro. Sentavam as crianças em seu quintal aberto em pequenos caixotes, enquanto ele, sobre uns pneus de caminhão emergia aqueles jovens em histórias fascinantes.

— Marta Rosa e João Cravo eram namorados há mais de dois anos. Conheciam-se como ninguém. Moravam juntos. Mas, naquele dia, naquele doze de junho tudo parecia querer mudar:

— Amor, sabe que dia é hoje? — Martinha indagava.

— Não sei, PIRANHA! — João gritou e parecia revoltado.

— O que eu te fiz, amor? — Indagou sua amada.Os dois haviam acabado de acordar e João estava na cozinha preparando algo para comer.

— Vadia inútil, não tem nada para comer nessa casa. — João parecia descontrolado. Não tratava Marta assim. Seria o efeito das drogas da noite anterior? João Cravo era usuário de penicilina, rapé e crack.

João correu ao banheiro ao sentir cheiro de mofo na pia, enquanto tentava lavar as mãos, após ter cortado o dedo tentando abrir uma lata de sardinha. João era canhoto e tinha uma dificuldade imensa para abrir tais latas. Ao adentrar o banheiro evacuou os resíduos da noite anterior e em quase desfalecimento levantou para desanuviar os restos orgânicos da extremidade de seu intestino grosso.

— SANTO ME PROTEJA! — Gritou desesperado. Ao olhar para o assento sanitário viu ali uma cabeça, um crânio humano em estado de decomposição. Teria ele evacuado um crânio humano? Ou já estaria ali?

João Cravo correu para o quintal sem as partes de baixo da calça e começou a gritar pelo quintal. Marta Rosa correu atrás dele gritando: — Você só me faz passar vergonha, seu vagabundo. Filho de uma puta!

Os dois correram e João Cravo caiu debaixo de uma sacada. Marta veio por cima e começaram a gritar, os dois brigaram feio. João desferia murros na barriga da amada e Marta lhe dava unhadas no peito. João Cravo saiu ferido e Marta Rosa despedaçada. João Cravo desmaiou e Marta Rosa pôs-se a chorar.

Minutos depois João acordou. Naquele instante o ódio consumia João por dentro e voltaram para a casa juntos, ele mancando por ter caído e ela chorando.

Chegando a casa, Marta foi ao quarto, em silêncio total e João foi à cozinha. Tirou uma faca do gabinete e colocou no bolso, enquanto caminhava até o quarto para encontrar sua amada. Começaram a se beijar.

— Continua Seu Hélio.

— Continuar o quê, moleque? Por hoje é só. O resto eu conto amanhã. Hoje é dia dos namorados e eu preciso cagar.

Margareth, a prostituta

Margareth, a prostituta

 

Caro leitor, você está convidado a acompanhar a vida de um jovem sonhador, como você, que formula seus sonhos, estuda e trabalha almejando um futuro melhor, porém, na saga de sua vida, encontra uma mulher e passa a amá-la como se fosse a pessoa mais importante de sua vida. Carmélio viverá entre a lucidez e a insanidade buscando caminhos para conquistar o maior objeto de desejo de sua vida, Margareth.

Margareth, a prostituta

Carmélio Lontra era um rapaz determinado e inteligente, após o término do ensino médio, imediatamente passou numa universidade conceituada na capital paulista e iniciou seus estudos em engenharia mecânica. Após um ano difícil, conciliando trabalhos e estudos numa gráfica, começou a estudar junto com seu amigo de infância, Geraldo Picardi.

O pai, Joaquim Lontra, um importante político da cidade paulistana, ex-vereador, conhecido por ajudar os pobres, era o atual secretário do turismo e tinha um apreço imenso por seu filho. Lontra pai fazia de tudo para que as notícias do seu envolvimento com prostituição e os escândalos de corrupção do governo envolvendo seu nome não chegassem até o filho.

Lontra filho tinha um sonho, era um amante da literatura lusófona, em meio ao caos na educação nacional, que obrigava as crianças a lerem sem entender o Auto da Barca do Inferno, Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas, parecia ser o único apreciador da literatura entre seus amigos. Não entendia o porquê de ter começado seus estudos em algo a qual não se identificava. Na verdade, sabia, e entendia muito bem, seu pai o obrigou, mesmo sabendo que seu filho preferia ter cursado letras. “Letras não dá dinheiro, seu idiota! Cursar Letras é coisa de vagabundo, de trouxa! Quer escrever livros? Ou quer ser professorzinho? Professor não ganha dinheiro… Além de a maioria ser burra e despreparada. Não merecem nem o que comem.” Foram as palavras que ouvira de seu pai no dia da matrícula.

O pai detestava o trabalho do filho, queria bancar-lhe tudo, apesar do forte senso de independência de Carmélio, que apesar de ter aceitado a sugestão do curso, por considerar que havia certa veracidade nas palavras do pai, fazia questão de pagar metade da mensalidade com seu próprio esforço, pensava que daria mais valor se assim o fizesse.

Na gráfica em que trabalhava, surrupiava alguns livros ocasionalmente e aquilo alimentou nele um novo sonho, queria abrir uma editora e a cada dia se distanciava ainda mais do propósito da engenharia mecânica. O desânimo tomava-lhe conta.

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Os comandados

Os Comandados

Um professor de história tem a difícil missão de dar jeito em três delinqüentes que causavam terror num colégio interiorano. Ele propõe o uso do esporte, mas, como se comportará três delinqüentes juvenis na presença de alunos normais?

O descabelado diretor João Estrabulgo não mais agüentava a situação. Não dormia mais e estava prestes a entregar o cargo mais importante do colégio Laura Pina. O motivo: um grupo de delinqüentes.

Durante as aulas no verão, o mais sofrido período fora vivenciado e dois professores pediram demissão, a polícia esteve presente no colégio milhares de vezes e a situação parecia complicar-se mais e mais a cada dia.

Jeferson Pino, Carlos Bucho e Giovane Diabo iam à escola apenas para comer, usar drogas, vandalizar e bater nos colegas. A escola estava completamente pichada. Não havia muito que se fazer, suspensões e advertências não eram suficientes, pois naquele fim de mundo da cidade de Pirapora de Serafim até a autoridade era limitada. Os professores os temiam, e todos estavam coagidos, como se estivessem reféns.

Naquela manhã de fevereiro, num dia bem chuvoso, estava reunida sob sigilo numa sala escondida e trancada a cadeado um grupo seleto: o diretor, todos os professores, o delegado da cidade, diversos pais de alunos e um representante do sindicato de professores.

— João! Você é um frouxo, a culpa disso é toda sua! Você é um bundão! — Gritou Ricardo Cornim, o sindicato.

— Não é assim Ricardo, você não conhece os moleques, não há na terra alguém que consiga domá-los, parecem terem saído da orla do inferno. — Rebateu Marco Midus, professor de geografia.

Todos na sala estavam cabisbaixos, o diretor sofrendo da cabeça, beirando a loucura, os professores ameaçando abandonar o cargo e até o caseiro ameaçando morar debaixo da ponte para não ver a cara do “trio do inferno”, como foram chamados.

Estavam a ponto de decidir pelo pior quando o professor de história, Genuíno da Silva propôs uma solução:

— Vou propor uma solução.

— Eles são crianças, não podemos matá-los, eles têm 14 anos! — Rebateu uma das mães, em desespero.

— Não vou matá-los! Acalme-se! Vamos montar uma equipe de futebol de salão e assim integrá-los, esses meninos precisam gastar suas energias. Como o professor de educação física nos abandonou após seu colapso nervoso, eu assumirei a equipe.

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O menino que comia areia

Duque Caminha

O detetive mirim Duque Caminha é colocado à prova para descobrir o porquê de seu amigo voltar todos os dias no mesmo horário para casa com a boca cheia de areia. Resolveu segui-lo e com sua lupa pretende descobrir o infortúnio que não o deixa mais dormir.

Duque Caminha vangloriava-se! Era considerado “detetive” por seus amiguinhos de infância, tinha apenas 13 anos e orgulhava-se de ter solucionado o caso do rapto das pantufas de estimação de sua irmã, que fora encontrada nos pés de Marculina, a ex-faxineira.

Passara vários anos de sua vida contemplando, ao dormir, as histórias de Hercule Poirot e Sherlock Holmes, contadas por seu pai, que narrava lentamente tentando adormecer seu filho, que atento, não desgrudava da narrativa intensa dos casos. Seu pai lhe dava atenção para tentar compensar o nome de cachorro que dera ao filho.

Duque cresceu e deixou-se inspirar pelos detetives da ficção para solucionar casos bem reais, ele sempre era solicitado por seus dois irmãos mais novos — uma menina de sete anos, e um garoto de cinco — para encontrar pertences perdidos pela casa. Porém, num dia, um caso especificamente o intrigou, seu amigo Carlotas de nove anos apareceu com a boca entupida de areia. Não comentava o fato.

Nos últimos dias da semana o caso se repetia: seu amigo todos os dias chegava em casa com a boca e nariz sujos de areia e olhos arregalados. Duque o interrogou:

— Carlotas, por que sua boca está suja de areia?

— Não te interessa.

— Pensei que fôssemos amigos.

— Pensou.

— Vamos ser amiguinhos de novo?

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O mendigo, o sonho e a tragédia

Mendigo

Tôni era calmo, um doente. Quase feliz era, apesar do fato. O complemento que precisava estava muito além de seu alcance, na pútrida vila onde morava, o Jardim São Paulo.

— Haha! Seu cagão! — Gritava um dos meninos que denegriam o pobre.

— Sou miserável, mas, sou honrado, como o pão que o diabo amassou porque o prefeito se esqueceu de nosso bairro. Não importa a lama, a fossa, tenho minha casa sob o teto que Deus proferiu, a “ponte dos milagres”.

Tôni passou a morar nas ruas após um “acidente financeiro”, morava ora debaixo de ponte, ora dentro de latas de lixo, era uma vida indígna, não sabia o que havia feito para merecer tal infortúnio.

Mal sabia Tôni que o raciocínio popular é errôneo, não se pode obter algo sem mérito. Não se pode.

Tôni resolveu abraçar o horizonte, saiu de sua vila, rumo à avenida, começou a atravessar a rua fora da faixa de pedestres, quando não viu e foi estraçalhado por uma carreta, uma Scania Azul, parte de seus fragmentos voaram contra as vestes negras de um padre que caminhava na calçada.

— Santo Deus! — Gritou o padre. — O sonho acabou.

Lula de mel

lulademel

Lula de mel

Flávia Balbucio era uma empresária de sucesso, prestes a se casar, estava no apogeu de sua vida, comandava uma companhia bem sucedida que importava bacalhau do Porto, na Europa, estava feliz, e por suas mãos cheirarem sempre à bacalhau deixava louco o pobre Leonardo de Pilão, trabalhador, pescador, tinha uma cicatriz na testa, o que lhe rendera o apelido de “Réri Pote”. Estava se casando apenas por um motivo, Flávia tinha uma tara quase incontrolável por “idiotas ao relento”, enrustidos, ou qualquer similar, e foi assim que achou Leonardo, ao relento, na calada da noite, numa praia em Santos. “Conquistou” Flávia quase sem falar, voltando de uma pescaria frustrada.

Era uma bela noite, muitos enfeites, muitos convidados distintos, era o casamento de Flávia,  e Leonardo, a empresária forte e imponente e o pescador, baixo, manco e caolho, ele cada vez mais vergonhoso por estar numa situação fora de seu controle, onde ele não tinha tirado um centavo do bolso, nem precisaria, afinal, aquele casamento era um mero capricho da herdeira dos Balbucio que solicitou que sua festa e cerimônia fossem na praia de Santos, banhados pelo luar majestoso daquele benigno dia. Para ela.

— Que chique ela, né benhê? — Comentava uma das grã-finas à mesa.

— Não sei onde esse mulherão arrumou aquele maltrapilho… — Comentava o esposo.

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Dilastácia

Dilastácia

Parte I

Capítulo 1 – União pelo contraste

Dilastácia era uma garota interiorana muito infeliz, morava em Anápolis no Estado de Goiás, num bairro onde a zona rural era evidente, estudava na “cidade”, onde saia de madrugada em cima de um burro enquanto comia maracujás colhidos junto ao pé na janela de seu quarto.

Seu maior sonho era se casar com um “príncipe” encantado, vivia em função disso, imaginava um goiano semi-cabeçudo vindo num cavalo branco buscando-a na escola, na frente de todos… Sabia que era praticamente impossível, em sua terra só havia burros ou jegues marrons, branco só cabrito, e ainda encardido, mas, ela se contentaria, desde que o “príncipe” não tivesse a cabeça muito pequena e tivesse pelo menos 18 dentes na boca. No fundo, era otimista.

Era amiga inseparável da menina mais bela do colégio, Lorenstência, apelidada apenas de “Lo“. Seu encanto era impossível de não notar, o reflexo de sua beleza era visível a uma distância imensa, o exalar de seu perfume estremecia até o mais seguro dos “pegadores” cheios de hormônios à flor da pele em seu colégio.

— A cobra é um vampiro que entrou pelo cano… — Dizia Dilastácia… Sozinha aos murmúrios encostada numa parede suja do colégio… Abordada por Lorenstência, que em seguida notou seu desânimo.

— Ânimo, uai! Que houve, Dila?

— Sei não… uai, sô! Estou desanimadinha… uai!

— Mas, aconteceu alguma coisa, goiabinha de goiabeira?

— Estou carente, estou pensando, estou sonhando…

Lorenstência sabia que a sua amiga não estava bem, não estava raivosa como de costume, andava pensativa há vários dias…

Dilastácia virou-se, lhe dando às costas. Lorenstência a entendia, sabia o que aquilo significava, sua confidente precisava de um complemento importante, estava na hora de arrumar um homem, um cabra macho, um garanhão insaciável, pensou Lorenstência.

O sinal tocava, em seu barulho ensurdecedor, todos voltavam às salas. Dilastácia e Lorenstência sentavam lado-a-lado, passavam cola, trocavam bilhetinhos, falavam de meninos semi-cabeçudos, trocavam dicas de xampus e cremes, compartilhavam tudo, menos se surgisse um garoto bonitinho com cabeça mediana, aquilo era pessoal. Lorenstência poderia estar com quem quisesse, ela divina, era “absoluta”, enquanto Dilastácia nunca soube o que era um beijo, mas, imaginava como nas cenas de novela e dormia chorando, pois em sua concepção, morreria com uma veia estourada no pescoço e nunca teria a chance de namorar um goianinho com pelo menos alguns dentes na boca.

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Dulcetéia

Dulcetéia

Capítulo I

Dulcetéia de Pimpolho Pilão era uma típica menina do nordeste brasileiro, tinha ambições baseadas em imitar a arte, mais exatamente os dramalhões das artes cênicas, queria mesmo era se apaixonar pelo mocinho engomadinho de São Paulo, e morar num apê no Morumbi enquanto o transporte buscava os filhos na escola, era a perspectiva que tinha de seu futuro, um sonho distante, como na maioria das meninas de sua idade.

Donzela, 15 anos, estava feliz, podia sonhar bastante, pois sua mãe — que portara um nome menos aprazível que o seu, Alfarrinhas — havia ganho um computador pelas “Casas Paulista“. Uma humilde família baiana: água de coco, pés no chão, areia, regatas e pele queimada de sol, um primo da vizinha conhecia algo de computadores e ajudou-os a configurar seu novo equipamento. Um espanto para a pobre família. — Olhem isso! o peixinho se mexeu! — Dulcetéia eufórica, grita após a instalação do equipamento, se espantava com a “proteção de tela”.

Um mês se passou e o que era encanto tornou-se um certo comodismo, água de coco voltara a reinar junto com a rede, e seu pai, um pedreiro não muito bem sucedido, Raimufundos, mal ligava para a “tevê inútil”, como costumava chamar o aparelho. Bem o oposto de Dulcetéia, que através do “orcuti.com“, um espaço destinado à interação social, havia conhecido um jovem rapaz, chamado Eribélton de Cherimpimpim, não sabia se este era seu nome de fato, ou se era um apelido, mas, gostara, e encantava-se pelas fotos do jovem tocando violão em seu álbum virtual de fotografias, podia escutar o som de Roberto Jarros, saindo das imagens estáticas, se deliciava e a paixão, e o tesão por ele aumentava.

Os dois se correspondiam incessantemente, e a cada dia encurtavam ainda mais a distância entre o interior da Bahia e a periferia da capital paulista, até que um dia a loucura tornara-se fato, Dulcetéia com os hormônios flamejando, foge de casa, com a cara, a coragem e o cofre de porco de sua mãe, para encontrar o galã de sua fantasia, Eribélton, ou “ursinho quente”, como ela o chamava. Este, por sua vez, não sabia da surpresa que o esperava, mas, havia lhe entregado dados como endereço e informações suficientes como uma esperança de que um dia se encontrassem, mesmo sabendo que aquela paixão súbita poderia resultar em algo nada aprazível para ambos. Eribélton desesperou-se por sua amada não conectar-se à internet aquela noite.

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